Onomástica

Que a onomástica portuguesa é complexa, muitos pesquisadores iniciantes já descobriram por experiência. Isso se prova pelos incontáveis exemplos de filhos que recebiam os sobrenomes de seus ramos paternos enquanto suas irmãs recebiam os dos ramos maternos. Mas até essa regra poderia variar, como ocorreu no caso de meu trisavô Pedro Gomes de Moraes, que recebeu os sobrenomes da família de sua mãe Maria Tereza da Paz, muito provavelmente pela maior importância da família dela, que pertencia à aristocracia rural sul-fluminense.

Outra prova da citada complexidade está nos sobrenomes devocionais – do Amor Divino, da Conceição, de Jesus – dados às filhas e que tanta dificuldade geram para o genealogista, pois não permitem deduzir a que família as jovens pertenciam na ausência de outros documentos. Meu avô João Pereira Belém não recebeu o sobrenome de seu pai Pedro Gomes de Moraes – mais uma exceção -, mas provavelmente recebeu o da família de sua mãe Joaquina, que deveria descender dos fazendeiros Pereira Belém de Itaguaí. Infelizmente, Joaquina recebeu o sobrenome devocional da Conceição, portanto sua filiação ainda é apenas ainda uma hipótese.

Casos misteriosos são os dos sobrenomes que parecem surgir do nada em determinada geração. Tenho uma amiga cujo sobrenome de família é Castor, que eu supunha ser uma variação ou corruptela de Castro. Segundo o genealogista Antônio Pereira de Almeida, em sua obra Os Oliveira Ledo e a genealogia de Santa Rosa, esse sobrenome entrou na família a partir de Emiliano Castor de Araújo, nascido em 2 de abril de 1828, dia de São Castor. O que inicialmente era um pós-nome (Emiliano Castor), tornou-se um sobrenome de facto nas gerações de seus descendentes.

Sobrenomes que saltam gerações já foram tema de outro texto aqui no blogue, e essa explicação não pode ser desprezada pelo pesquisador, embora sua comprovação possa demandar muita pesquisa documental, o que nem sempre é possível em virtude da ausência de livros em determinadas localidades.

Se desejar conhecer com mais propriedade a onomástica portuguesa, recomendo a leitura da obra Os Apelidos Portugueses: um Panorama Histórico, de Carlos Bobone.


José Araújo é genealogista.