Nativo

Fiz testes genéticos com finalidade genealógica quando isso nem era tão popular como é hoje e o custo de fazê-los era bem maior. Naquele momento, eu sabia que meus antepassados paternos eram portugueses e havia um relato de que minha avó materna seria filha de portugueses.

Fonte: MyHeritage

Eu não via com estranhamento – mas sim com frustração – a ausência de percentual nativo-americano ou indígena nos resultados que recebi dos testes, embora soubesse que em Portugal continental e nas ilhas houvera relacionamentos entre portugueses e pessoas de origens étnicas distintas, como se atesta pela leitura do trecho abaixo da obra Mulheres do Brasil: A história não contada, de Paulo Rezzutti:

Em 1511, a nau Bretoa levou da região de Cabo Frio cerca de 5 mil toras de pau-brasil, além de pássaros e animais exóticos. Também foram capturados 36 índios, 10 homens e 26 mulheres. As mulheres teriam sido abusadas sexualmente pelos marinheiros ao longo da travessia. Uma delas, como nos conta o escrivão que documentou a viagem, chamada de Brígida, foi uma das poucas a sobreviver à viagem. Ela então foi entregue a certo Francisco Gomes em Portugal, que havia encomendado uma índia para si.

A frustração pela ausência de DNA nativo-americano se transformou em surpresa quando descobri que alguns de meus ramos maternos estavam no Brasil – tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro – desde o início da colonização. Seria uma virtual impossibilidade não ter havido relacionamentos entre meus antepassados coloniais e representantes dos povos que eram os donos das terras que hoje chamamos Brasil, mas o único DNA não europeu encontrado pelas diversas calculadoras onde tive meus dados genéticos avaliados tinha origem africana e parece estar bem identificado.

Eu teria mantido o estado de frustração e surpresa não fosse a leitura recente de texto publicado por um genealogista em que ele comenta o resultado do teste de DNA mitocondrial feito por sua irmã. Como se sabe, esse DNA é transmitido pelas mães para seus filhos homens e mulheres, mas apenas a herança direta feminina – das mães para suas filhas, netas, bisnetas e assim por diante pelas gerações – permite identificar a qual das populações humanas deveria pertencer a antepassada mais remota de uma pessoa testada.

O resultado do teste da irmã desse genealogista informava que ela teria uma antepassada em linha direta feminina que tinha origem nativo-americana. O genealogista identificou essa antepassada na figura de Felipa Vicente, que viveu em São Paulo e que, segundo a Genealogia Paulistana de Silva Leme,

[era] filha de Pedro Vicente e de Maria de Faria, naturais de Portugal, que foram também dos primeiros povoadores e que em 1554 eram lavradores de grandes canaviais e tinham parte no engenho de açúcar de São Jorge dos Erasmos

Por Silva Leme não podemos atestar a origem étnica de Felipa, mas ele informa que os pais dela teriam nascido em Portugal. Além disso, ele declara que João do Prado, o marido dela, era natural do Alentejo e que veio nos princípios da povoação de São Vicente para esta vila, onde eles se casaram. A conclusão mais simples parece ser que tanto João quanto Felipa tenham ambos nascido em Portugal.

Existem, porém, outras fontes de informação que podem atestar algo diverso da conclusão anterior. A primeira fonte informa sobre o local de nascimento de Felipa e pode ser encontrada nos depoimentos tomados de testemunhas durante a campanha para a beatificação do padre José de Anchieta. Lá encontramos o seguinte trecho:

Felipa Vicência, natural de São Vicente, com mais de 80 anos de idade, filha de Pedro Vicente e de Maria de Faria. Tratou muitas vezes com o Padre Anchieta em São Vicente, o qual era seu diretor espiritual. Estando ela em São Vicente, enferma havia três anos, presa ao leito e com o corpo coberto de chagas, tão consumida que lhe apareciam os ossos através da pele e já abandonada por três médicos, não mais se alimentava, nem mais havia esperança de vida. Visitou-a então o Padre Anchieta e fez com que o cirurgião Antônio (Rodrigues?) com uma lanceta lhe abrisse uma das chagas, o que o médico o não queria fazer, só o fazendo quando o Padre José assumiu a responsabilidade. Aberta a chaga e com a abundância do humor maligno que daí escorreu, como ficou a testemunha quase morta, benzeu-lhe o Padre José a chaga com pequeno crucifixo que trazia consigo, dizendo-lhe estas palavras “Tu és pó e estavas morta, mas viverás ainda muitos anos, e a ninguém digas o que se passou”. Levantando-se ela do leito, por quase um ano ainda lhe purgou aquela chaga. Falando um dia sobre isso, na confissão, ao Padre José, este lhe disse que fizesse uma peregrinação a Nossa Senhora da Conceição (de Itanhaém) e que ele ali celebraria missa em sua intenção e que com a graça de Deus ficaria boa. Foi, em companhia de Madalena Fernandes Afonso e muitas outras pessoas já falecidas. Ali chegando, e celebrada a missa, imediatamente secou a chaga, com espanto de todos os presentes que diziam ser o Padre José um santo. Assinou por ela o filho Pedro do Prado, por ela não saber escrever.

A segunda fonte de informação é a que de facto parece atestar uma origem étnica não portuguesa para a personagem em destaque. Ela está no processo de dispensa matrimonial, de 21 de março de 1681, do casal Brás Esteves e Maria da Luz Corrêa, ambos descendentes – ele bisneto, ela trineta – de Felipa Vicente e João do Prado (leia mais aqui). Na página 45 desse processo lê-se o seguinte trecho:

Expõe-se […] por parte de seus humildes [orado] / res Brás Esteves e Maria da Luz Correa que [os oradores] / estão casados em face da igreja [haverá] três ou qua / tro meses tempo que na verdade se acham e por [des] / cobrir e saber-se agora que são parentes por consan / guinidade […] no quarto grau o que antes de ca / sar não sabiam […] dispensar para licita / mente poderem contrair o juramento do matrimônio. A / razão de seu parentesco é por serem ambos do tron / co de João do Prado e Felipa Vicente do qual nasceu / Elena do Prado e desta Brás Esteves Leme, pai do [orador] / Brás Esteves. E do mesmo tronco nasceu / João do Prado, o qual gerou a Domingas […] / e desta nasceu Elena da Silva, mãe da [impetrante] / Maria da Luz Correa, aonde se vê claramente fica / rem os impetrantes do terceiro para o quarto grau / de consanguinidade […] que [serem] dis / pensados é estarem já casados e ser ele orador / homem afazendado e a oradora muito pobre como sa / bem terem sangue de gente [Brasílica] / no que não há dúvida.

Na página 47 do dito documento lê-se o depoimento de uma testemunha que ratifica o que se informa antes:

[…] mulher da qual Felipa Vicente / [nasceu] Helena do Prado e dela Brás Este / ves Leme, pai do […] Brás Esteves e do / próprio […] nasceu João Brás do / Prado qual gerou Domingas Ribeiro e desta nasceu / Helena da Silva, mãe da impetrante Maria / da Luz Corrêa por onde [parece] a ele testemunha estar em terceiro para quarto / grau de consanguinidade e que o [impetrante] tinha / alguns bens e a impetrante era pobre e que sabe / mais ele testemunha serem os impetran / tes descendentes da gente brasílica por via / de Felipa Vicente de [Pereira?] e [ela] / impetrante descender também de gente brasíli / ca desta terra […]

O depoimento no processo de Anchieta, a dispensa matrimonial dos descendentes e o teste de DNA da irmã do prezado genealogista parecem corroborar por provas documentais e biológica que Felipa Vicente não apenas era nativa das terras do Brasil como também possuía o DNA das mulheres naturais destas terras desde antes da chegada dos europeus. Visto que também descendo de Felipa Vicente e João do Prado pelo ramo de minha tetravó Maria Tereza da Paz, posso, enfim, afirmar que descendo dos proprietários originais da terra brasilis.


José Araújo é genealogista.

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