Pessach

Em os treze dias do mês de agosto [de 1646] [?tive hum] escrito do reverendo padre Vicente da Costa [?de] como recebera por palavras de presente, com bênçãos, na sua ermida de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com licença, a Domingos da Cunha, filho de Duarte [rasurado: da Cunha], digo, de Domingos Nunes e de Maria da Cunha sua mulher, e Ana da Costa, filha de Manoel Caldeira, defunto, e de Ana da Costa, sua mulher, precedendo as três admoestações e mais diligências que [?tanto] se requer, o qual recebimento fez em vinte e seis dias do mês de julho, estando presentes por testemunhas o capitão Mateus de Moura Fogaça, o capitão Gonçalo Teixeira [Tibau], o capitão João [do Couto de Oliveira] e outras pessoas.

O assento matrimonial transcrito acima e exibido abaixo traz informações valiosas sobre um dos quatro filhos descobertos de Domingos Nunes Sardinha e Maria da Cunha, meus antepassados diretos que viveram no Rio de Janeiro entre os séculos XVI e XVII. O valor do documento está nas evidências que ele acrescenta – como se constatará adiante – de que esse ramo familiar tinha origem cristã-nova. As evidências em questão são deduzíveis a partir dos nomes de duas pessoas citadas: o pai da noiva e uma das testemunhas.

Casamento de Domingos da Cunha e Ana da Costa

Mediante pesquisa, foi possível descobrir que a noiva Ana da Costa era cunhada da testemunha Mateus de Moura Fogaça, pois este casara-se com Úrsula, irmã daquela. Ambas eram filhas de Manoel Caldeira, que o historiador José Gonçaves Salvador reconhece como cristão-novo no seguinte trecho de sua obra Os cristãos-novos – povoamento e conquista do solo brasileiro (1530-1680).

Em 1620 reativou-se, como sabemos, a questão de litígios entre o Conde de Monsanto e a condessa de Vimieiro para a demarcação e posse de determinada faixa de terras confinando com as duas respectivas capitanias. Para tanto, Dª Mariana de Souza da Guerra nomeou a João de Moura Fogaça seu capitão-mor e ouvidor e procurador bastante para lhe defender os direitos, o qual, chegando a São Vicente tomou Posse a 30 de novembro 1622 dos cargos, apesar da oposição do outro capitão-mor Manoel Rodrigues de Moraes, e de Fernão Vieira Tavares, mas já antes, a 26 do mesmo mês, substabelecera na pessoa do mano Matheus de Moura Fogaça a procuração da condessa para tratar da pendência. Fixou-se este em Santos, estando casado com Úrsula da Costa Caldeira, cristã-nova, natural do Rio de Janeiro, filha do conhecido hebreu Manuel Caldeira, sertanista e mercador […]

O curioso é que os Caldeira-Moura Fogaça, apesar do sangue cristão-novo ainda tão fresco, marcaram presença na vida eclesiástica do Rio de Janeiro, como constatamos com o mesmo Gonçalves Salvador na obra Cristãos-novos Jesuítas e Inquisição: aspectos de sua atuação nas capitanias do Sul, 1530-1680.

A família do hebreu Manuel Caldeira contribuiu, tanto quanto sabemos, com quatro sacerdotes, sendo dois filhos e dois netos, naturais do Rio de Janeiro. Foram eles, respectivamente: pe. Alberto da Costa, batizado a 15 de agosto de 1627 e nela faleceu a 6 de janeiro de 1673, tendo sido também um dos visitadores do eclesiástico. O prelado os considerava muito bons clérigos. Os netos Francisco de Moura Fogaça, pároco de Jacutinga, e João de Moura Fogaça, ambos do hábito de São Pedro, eram filhos de Manuel de Moura Fogaça, senhor de engenho, e de sua mulher d. Catarina Machado, cristã-velha. O pe. João foi preso pela Inquisição, bem como os outros parentes, por crime de judaísmo, e os bens lhes foram sequestrados. O bisneto de Manuel Caldeira, Mateus de Moura Fogaça, após sete anos de permanência nos cárceres inquisitoriais, finalizou seus dias relaxado à justiça secular [nota: foi queimado pelo Tribunal do Santo Ofício].

Domingos da Cunha não foi o único de sua família a se casar com membro da comunidade cristã-nova. Sua tia-avó Antônia Rodrigues Sardinha – não se sabe se ainda na Bahia, onde a família primeiro viveu depois de chegada de Portugal; se no Espírito Santo, para onde se deslocaram em função das perseguições sofridas em Porto Seguro; ou se já no Rio de Janeiro, onde se estabeleceram depois de tão notável passagem, peregrinação ou fuga – casou-se em primeiras núpcias com Rui Dias Bravo, filho de Miguel Gomes Bravo e Branca do Porto e irmão de Hércules Bravo, que se fixou na Bahia e foi casado com Margarida Dinis. Sobre este último casal e sua ascendência lemos a seguir em tradução de trecho da obra Des Marranes a Spinoza, de Israël Salvator Révah.

Margarida Dinis e sua família
Vimos (Anuário do Collège de France, 68º ano, p. 565) que Margarida Dinis, nascida em 1544, casou-se, pouco antes de 1565, com Hércules Bravo, cujo pai (Miguel Gomes Bravo), mãe (Branca do Porto) e tia paterna (Beatriz Gomes, bisavó de Spinoza) foram presos pela Inquisição em 1542-1544: o pai e a tia tiveram de abjurar a uma veemente suspeita de heresia. Quanto a um irmão de Miguel Gomes Bravo, de nome Gabriel Gomes Bravo, este havia se casado com uma tia-avó materna de Uriel da Costa, Guiomar Rodrigues, que foi queimada em 1568 por ordem do Santo Ofício como herege impenitente. Margarida Dinis foi acusada de práticas judaizantes por uma escrava em 1570, enquanto o marido estava no Brasil, mas não foi presa.

Pelo que se constata, os Nunes Sardinha tinham relações muito próximas com a comunidade cristã-nova da colônia, o que não seria de estranhar, visto que tanto Duarte Nunes – o pai de Antônia, oriundo da Ilha da Madeira – quanto Domingos Nunes Sardinha – irmão de Antônia e pai do Domingos com quem abrimos este texto – foram perseguidos e excomungados na Bahia e depois, quando já viviam no Rio de Janeiro, denunciados pelos antigos vizinhos por serem cristãos-novos.


José Araújo é genealogista.

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