Cores

Um texto que publiquei recentemente aqui e divulguei em grupos do Facebook dedicados à Genealogia despertou algum questionamento de colegas genealogistas. O primeira deles dizia respeito à aceitação de cristãos-novos em quadros eclesiásticos. O segundo, a um grupo familiar que, não obstante sua origem cristã-nova, teria demonstrado algum fervor religioso ao construir uma ermida em suas terras. Proponho olharmos esses casos com mais detalhe para que possamos entender a variada coloração da vida dos cristãos-novos no Brasil.

No caso da ordenação de cristãos-novos para cargos eclesiásticos, o estranhamento resultou do facto já conhecido de que a Igreja sempre realizava uma investigação das origens familiares e dos costumes dos candidatos aos tais cargos, os conhecidos processos de genere et moribus. Quem tivesse raízes não cristãs, tivesse ascendência africana ou tivesse conduta incompatível com os preceitos católicos não deveria ser aceito nos quadros da Igreja. Mas a realidade, sabemos bem, sempre foi mais colorida do que a letra apagada das leis.

Os interessados da família mencionada no texto devem ter sido beneficiados pelo Breve Apostólico ex-defectu sanguinis, pelo que se ignorava formalmente a existência nos costados familiares do que era na época chamado de sangue infecto, como no exemplo que apresenta Alberto Dines em sua obra Vínculos do Fogo (São Paulo: Companhia das Letras, 1992) em trecho que exibo abaixo.

Vínculos de Fogo

No caso da construção da ermida em terras de um cristão-novo, um colega estranhou minha afirmação de que meu antepassado Domingos Nunes Sardinha havia sido judaizante, ou seja, praticante da religião judaica ainda que oficialmente pertencente à religião cristã. Realmente, não parece haver evidências de que ele tenha demonstrado praticar o judaísmo, mas, como vimos no caso anterior, a realidade nos apresenta um quadro bem colorido a respeito de sua família, como passo a exemplificar:

  • Seu pai Duarte Nunes, para começar, é citado em depoimento na primeira visitação do Santo Ofício à Bahia, em que se afirma que ele era cristão-novo, vivia em Porto Seguro nos idos de 1580 e que em 1590 já estava no Rio de Janeiro com sua família;
  • Sua irmã Antônia Rodrigues Sardinha, natural de Porto Seguro, casou-se em primeiras núpcias com Rui Dias Bravo, membro da conhecida família de cristãos-novos do Porto e primo de terceiro grau do conhecido filósofo Baruch (Bento) de Espinoza (1632-1677), holandês de origem sefardita portuguesa;
  • Seu filho Domingos da Cunha, finalmente, casou-se com Ana da Costa, filha do cristão-novo Manoel Caldeira e de sua mulher Ana da Costa. Úrsula da Costa, cunhada de Domingos da Cunha, casou-se com o capitão Mateus de Moura Fogaça (1593-1664) e com ele teve João e Francisco de Moura Fogaça, os padres de sangue cristão-novo citados na introdução, e ainda uma filha que se tornou freira, como citado no fragmento da obra de Dines. Dois netos de Mateus e Úrsula foram presos pelo Santo Ofício: Manoel de Moura Fogaça foi preso em 1716; seu irmão Mateus foi preso em 1720, condenado e queimado três anos depois.

Considerando esse quadro familiar, suspeito que os casamentos de Domingos da Cunha e Ana da Costa e o de Antônia Rodrigues Sardinha e Rui Dias Bravo tenham sido enlaces de pessoas conscientes de que tinham sangue cristão-novo. A construção da ermida, que poderia parecer o ato de um cristão fervoroso, seria, portanto, apenas mais umas das múltiplas cores com que se os cristãos-novos pintaram o cenário de sua vida no Brasil.


José Araújo é genealogista.