Mishpachá

Embora os grandes genealogistas do passado nos tenham legado obras fundamentais como a Genealogia Paulistana (de Luiz Gonzaga da Silva Leme), Primeiras Famílias do Rio de Janeiro (Carlos Rheingantz) e Nobiliarquia Pernambucana (de Antônio José Borges da Fonseca), entre muitas outras, seu legado não é absolutamente completo nem está isento de equívocos. Isso não o torna menos relevante, mas sugere que o pesquisador contemporâneo dedicado e munido de algumas estratégias poderá ir além do que os grandes mestres puderam fazer em seu tempo em muitos casos.

Tenho ramos de minha família materna descritos tanto na obra de Silva Leme quanto na de Carlos Rheingantz e em diversos momentos descobri que as informações publicadas no passado estavam incompletas ou poderiam ser retificadas sem que isso representasse nenhum demérito aos grandes mestres. Eles apenas não tinham acesso ao volume de informações que estão disponíveis hoje, como demonstrarei aqui. Analisarei para isso alguns dados de fontes diversas que sugerem parentescos entre pessoas que viveram viveram na cidade do Rio de Janeiro entre os séculos XVI e XVII. Elas estão relacionadas a meu undecavô Domingos Nunes Sardinha, que é citado no segundo volume da obra do mestre Rheingantz (p. 381), no verbete relacionado a seu genro Antônio do Lago Prego.

ANTÔNIO DO LAGO PREGO – juiz ordinário em 1640, n.por volta de 1586, fal. filho de André Rodrigues do Lago e de Madalena Goncalves Prego, naturais de Viana do Castelo, casado no Rio (Sé, 1º, 3v) a 19.6.1616 com Maria da Cunha, filha de Domingos Nunes Sardinha (fal. antes de 1616) e de Maria da Cunha

Segundo o registro, tudo o que se sabia sobre Domingos é que foi casado com Maria da Cunha e teve uma filha que recebeu nome idêntico ao da mãe e que se casou quando ele já era falecido. A jovem Maria da Cunha torna-se uma personagem importante, pois é a partir dela que tentaremos comprovar relações de parentesco que nos ajudarão a descobrir a origem e a filiação de seu pai. Comecemos, então, pelo assento matrimonial da jovem, que é exibido e transcrito a seguir.

Casamento de Maria da Cunha

Em 14 do mês de junho de [1616] às cinco horas da tarde, feitas as três admoestações em três dias festivos nesta Sé matriz, em três dias festivos à missa do dia, e as mais diligências que em direito se requerem na forma do Concílio Tridentino, recebi por palavras de presente com as bênçãos e mais solenidades a Antônio do Lago Prego, filho de André Rodrigues do Lago, já defunto, e de Madalena Gonçalves Prego, naturais de Viana, com Maria da Cunha, filha de Domingos Nunes Sardinha, já defunto, e de sua mulher Maria da Cunha. Foram testemunhas Manoel … dos Rios, Gaspar Caminha, Aleixo Manoel o moço […] Duarte Vaz Pinto, Sebastião Lobo […] e outras muitas pessoas.

Nesse assento chamo atenção para os nomes de duas testemunhas: Manoel dos Rios e Sebastião Lobo. Eles fazem parte de outro núcleo familiar. Manoel foi o segundo marido da baiana Antônia Rodrigues Sardinha (filha de Duarte Nunes e Maria Fernandes), que foi primeiro casada com o cristão-novo Rui Dias Bravo, de quem teve três filhos: Miguel Gomes Bravo, Branca do Porto e Rui Gomes Bravo. Tendo enviuvado do primeiro marido, Antônia contraiu núpcias com Manoel, com quem teve ao menos uma filha chamada Isabel, a qual se casou com Sebastião Lobo. Manoel era, portanto, sogro de Sebastião Lobo e padrasto de Branca Porto. Essas relações de parentesco ficam evidentes no assento de batismo do menino Diogo, que apresento e transcrevo a seguir.

Batismo de Diogo

Em […] do mês acima [agosto de 1619] batizei Diogo, filho de Sebastião Lobo e de sua mulher Isabel dos Rios. Foi padrinho seu avô Manoel dos Rios e madrinha sua tia Branca do Porto, mulher de Francisco de Lemos. Teve óleos.

Mas voltemos à jovem Maria da Cunha. Para isso, precisamos analisar o assento de batismo de Luzia, outra criança do casal Sebastião Lobo e Isabel dos Rios, que também exibo e transcrevo.

Batismo de Luzia

Em 18 do dito mês [dezembro de 1617] batizei Luzia, filha de Sebastião Lobo e de sua mulher Isabel dos Rios … foi padrinho Manoel dos Rios e madrinha Maria da Cunha a moça, [rasurado: filha solteira de Domingos] mulher de Antônio do Lago – teve óleos

Maria foi nesse registro identificada como ‘a moça’ para distingui-la de sua mãe, que tinha o mesmo nome e sobrenome. A rasura que se lê no original ajuda a eliminar qualquer dúvida: Maria da Cunha era não mais a filha solteira de Domingos, e sim sua filha recém-casada, tal como vimos no assento matrimonial acima e no verbete da obra de Rheingantz. Seu pai Domingos era obviamente o já citado Domingos Nunes Sardinha, meu undecavô materno.

O esquema de compadrios observado nos documentos paroquiais sugere que houvesse alguma relação próxima – talvez de parentesco – entre os núcleos familiares. Essa interpretação parece ser ratificada por outro tipo de documento, encontrado no Banco de Dados da Estrutura Fundiária do Recôncavo da Guanabara, elaborado pelo pesquisador Maurício Abreu. Diferentes registros disponíveis nesse banco de dados sugerem que Manoel dos Rios teve muitas propriedades na cidade do Rio de Janeiro e fora dela, das quais ele dispôs em operações de venda em diferentes momentos. Um desses registros, entretanto, chama atenção por ser de natureza distinta. Ele está transcrito abaixo.

Escritura de doação de chãos que faz Manoel dos Rios a Maria da Cunha – com duas braças de testada, sitos “na rua nova que se agora abriu”

Datado de 30 de dezembro de 1632, o registro informa que Manoel doou – não comprou ou vendeu, como costumava fazer – a Maria da Cunha uma propriedade em área da cidade que parece ter sido beneficiada pela abertura de uma rua. Certamente se trata da mesma Maria de cujo casamento ele e seu genro foram testemunhas e que foi madrinha de um de seus netos. O facto de ele haver doado o terreno sugere que se tratasse de uma ação entre familiares, pois o único outro registro de doação parece ter sido aquele feito a título de dote a seu genro Sebastião Lobo, para o casamento com Isabel dos Rios.

Tudo isso parece indicar que haveria mais em comum entre sua mulher Antônia e o pai de Maria que o sobrenome Sardinha. Minha hipótese até o momento é que Antônia e Domingos seriam irmãos, logo Manoel doou o terreno à sobrinha de sua mulher. Se comprovadas as interpretações, teremos descoberto a filiação de Domingos Nunes Sardinha – Duarte Nunes e Maria Fernandes – e talvez sua origem – a Bahia. E tudo o que narramos terá ocorrido dentro da mesma mishpachá (família, em hebraico), pois tudo indica que os Nunes Sardinha tinham origem cristã-nova.


José Araújo é genealogista.