Expurgo

Como consequência do conflito que pôs em lados opostos os irmãos d. Pedro (1789-1834), defensor da constituição liberal, e d. Miguel (1802-1866), defensor do absolutismo, centenas de liberalistas sofreram expurgos e perseguições pelos partidários de d. Miguel. Entre as vítimas estava meu primo afastado, o bacharel José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870).

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Rivalidade

Os assentos paroquiais nos dizem muito sobre a vida de nossos antepassados, mas, com as devidas exceções, trazem apenas informações factuais, tais como datas e locais, além, claro, dos vínculos familiares – pais, avós, tios, irmãos – e de afeto – padrinhos e madrinhas. O que eles não trazem, no entanto, são informações a respeito da vida cotidiana, que podemos encontrar em cartas, periódicos e fotografias, por exemplo.

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Assassinato

Na noite de 27 de junho último foi assassinado na vila de S. João da Pesqueira, ao recolher-se para sua casa, o Dr. António Júlio Pinto Ferreira, advogado e deputado daquele círculo [na] sessão legislativa que se abriu em janeiro de 1865. […]

António Júlio não foi um advogado qualquer. Tampouco foi um reles defunto, afinal fora deputado e teve sua morte lamentada por ninguém menos que o escritor Camilo Castelo Branco, que a ela dedicou o seguinte comentário em nota manuscrita na obra A Lira do Douro, de Luís Maria de Carvalho Saavedra Donas Boto:

Este homem foi assassinado a tiro na Pesqueira, sua terra. O mandante morreu na cadeia, chamava-se Polónio, homem rico, e seu adversário político. Antº. Júlio foi deputado.

A nota foi escrita justamente na página que inicia o capítulo intitulado A oração dos proscritos, que foi dedicado a António Júlio por Donas Boto. A notícia do assassinato, cujo trecho inicial abre este texto, foi publicada em 4 de agosto de 1867 no Correio Mercantil. O conteúdo integral está transcrito abaixo com meus destaques e fornece mais detalhes sobre a vida pessoal de António Júlio:

Na noite de 27 de junho último foi assassinado na vila de S. João da Pesqueira, ao recolher-se para sua casa, o Dr. António Júlio Pinto Ferreira, advogado e deputado daquele círculo [na] sessão legislativa que se abriu em janeiro de 1865. Aquele atentado foi praticado disparando o assassino um tiro de bacamarte que feriu o infeliz Pinto Ferreira mortalmente no peito. Ainda viveu algumas horas depois de ferido e declarou que não conhecera o assassino, nem supunha quem seria. Não tinha 40 anos. Era homem de talento e de energia e advogado inteligente e zeloso. A sua morte é profundamente sentida por quantos o conheceram e trataram. É singular a coincidência que três deputados mortos a tiro todos tinham o mesmo cognome – Agostinho Júlio, José Júlio e António Júlio.

Seu assento de óbito foi localizado nos arquivos da Pesqueira:

Óbito de António Júlio Pinto Ferreira –  28/06/1867 – São João da Pesqueira

Aqui a transcrição com meus destaques:

No dia vinte e sete do mês de junho de mil oitocentos e sessenta e sete pelas duas horas da noite em uma casa sem número nesta freguesia de São João da Pesqueira, concelho da mesma, Diocese de Lamego, faleceu António Júlio Pinto Ferreira, solteiro, de idade pouco mais ou menos trinta e cinco anos, proprietário, Bacharel em Direito, natural da Pesqueira, meu paroquiano, morador na Rua de Albergaria; não recebeu Sacramento algum da Santa Madre Igreja Romana; não fez testamento e foi sepultado no cemitério público. Para constar lavrei em duplicado o presente assento, que assinei. Era ut supra.

Embora o termo não mencione o assassinato, o fato de ele não haver recebido nenhum sacramento sugere que tenha tido uma morte atípica. O documento fornece mais detalhes sobre esse personagem: era solteiro, ainda jovem e natural da mesma região onde morreu. Mas quem seria essa pessoa e por que dedicar a ela um texto neste blogue que trata quase que exclusivamente da história de minha família?

Explico: António Júlio Pinto Ferreira, estudante de Direito na Universidade de Coimbra entre 1841 e 1848 – segundo informam os registos daquela instituição -, foi filho de José Pinto Rebello de Carvalho, personagem ao qual dediquei vários textos neste blogue. Ambos pertencem a um ramo bastante curioso de minha árvore no qual há médicos e até uma suposta santa – prima de António Júlio.

O assento de batismo de António Júlio foi localizado nos arquivos de São João da Pesqueira. Nele se vê uma averbação que confirma as análises anteriores, embora esteja equivocada quanto ao ano do assassinato, cujo motivo permanece desconhecido.

Batismo de António Júlio – 30/07/1827 – S. João da Pesqueira

Aqui a transcrição com meus destaques:

Aos 30 de julho de 1827 batizei solenemente a António Júlio, nascido de onze dias, filho legítimo do Doutor José Pinto Rebello de Carvalho Pestana, natural de Barcos, e dona Maria Adelaide, desta vila e freguesia, neto paterno de José Pinto Rebello do Souto e Bárbara Ribeiro de Carvalho, todos de Barcos, materno de João Bernardo Ferreira, natural de Vila Real, e Anna Maria, natural desta vila. Foram padrinhos António Júlio, tio do batizado, e Anna Maria, avó do batizado. Testemunhas: António Manoel e José Joaquim. Para constar fiz este termo.

[Averbação:] era o Dr. Júlio que foi assassinado em 1868


José Araújo é linguista e genealogista.

Comunista

No Brasil, diz-se que futebol, política e religião são assuntos que não se devem discutir.  Hoje, com o acirramento das posições à esquerda e à direita – o que quer que isso queira significar no Brasil -, mais do que nunca essa afirmação parece refletir a verdade. Em termos políticos, creio estar alinhado com o liberalismo de meu admirado e distante primo José Pinto Rebello de Carvalho, tantas vezes retratado aqui no blogue. 

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Plymouth

Em texto anterior, descrevi as agruras por que passaram na Inglaterra os exilados que tiveram de fugir da perseguição do regime absolutista de d. Miguel em Portugal por apoiarem a constituição liberal de 1822. Entre esses exilados estava José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), primo de minha trisavó paterna.

Enquanto naquele texto recorri a um estudo acadêmico e a um periódico editado por esse meu primo distante para que pudéssemos entender o sofrimento do exílio na perspectiva do exilado, neste texto recorro a um jornal da época – a edição de 5 de dezembro de 1828 do London Courier and Evening Gazette, para resgatar a perspectiva da comunidade que recebeu os exilados – os habitantes da cidade inglesa de Plymouth.

O texto da matéria publicada, exibido abaixo, foi obtido na base de dados The British Newspaper Archive, que contém registros que datam desde 1700.

London Courier and Evening Gazette – Sexta-feira, 5 de dezembro de 1828

Aqui minha tradução livre desse texto, com meus destaques:

OS CONSTITUCIONALISTAS PORTUGUESES

PLYMOUTH, 3 de dezembro. Ao serem informados da proposta de dispersão dos refugiados portugueses, residentes neste município e vizinhanças fizeram um requerimento para convocar uma assembleia e o encaminharam ao prefeito (R. Freeman, MD). O prefeito acatou o requerimento e ontem foi realizada uma assembleia de bom público no Guildhall, com o objetivo de considerar a conveniência de transmitir o sentimento geral ao Governo de Sua Majestade e tentar evitar a calamidade que ameaçava os portugueses. O prefeito abriu a assembleia, que iniciou pela leitura do requerimento – H. Woolcombe, apresentou várias propostas, que expressavam a melhor opinião a respeito dos portugueses e de sua conduta desde que se tornaram residentes em Plymouth; bem como o desejo geral de que os deixassem permanecer na cidade, tanto por conta de seus sofrimentos na causa da liberdade constitucional quanto por sua boa conduta, e também por causa dos benefícios que sua presença trazia para a cidade. Ele disse que considerava a questão passível de ser gerida pelos habitantes, que deveriam reunir-se e expressar seus sentimentos ao Governo. Ele se absteve de adotar uma visão política sobre a questão, mas, ao mesmo tempo, não deveria se eximir do exercício de um dever público; portanto, ele se apresentou para expressar sua opinião; e se isso ofendia este ou qualquer outro Governo, ele acreditava que o povo tinha o direito de expressar suas queixas sobre os problemas que os afligiam. (Aplausos.) De uma hora para outra, chegaram ao conhecimento dos habitantes de Plymouth os planos de dispersar os portugueses por outros lugares do reino. Ele perguntou: por que eles teriam de ser separados? Por que dispersados? Certamente, as leis do país devem ser obedecidas; mas qual lei determinava a dispersão dos portugueses? Era, portanto, dever dos que ali se reuniam enfrentar o Governo contra a adoção de tal medida. Eles também deveriam olhar a questão sob dois aspectos – primeiro, como habitantes de Plymouth e, depois, como ingleses. Qual seria o caráter da cidade se esses Refugiados fossem assim dispersados sem que os habitantes pudessem expressar sua opinião sobre o assunto? E qual seria o seu caráter, como ingleses, se tal dispersão viesse a ocorrer? Em tempo de guerra, mesmo aos prisioneiros capturados do inimigo era garantida a liberdade condicional em determinadas cidades; então e por que esses Refugiados seriam separados? Eles foram expulsos de seu próprio país por defender a liberdade constitucional tão apreciada neste país; e, por essa razão, merecem nossa simpatia e proteção. As propostas foram postas em votação; e, com as mãos levantadas, todos foram unânimes em aprová-las. Outras propostas foram então apresentadas; e, após o grupo ter ouvido os apartes de J. Bird, Esc., do Rev. Rowe, do Capt. Pym, R.N. e de J.H. Macauley, Esc., aprovou-se, com unanimidade: “Que um Apelo, baseado nas propostas, seria apresentado pelos Vereadores do Município ao Secretário de Estado do Departamento do Interior após ser assinado por todos os habitantes”. Foram apresentadas moções de agradecimentos ao presidente da sessão. Em seguida, um dos refugiados dirigiu-se ao grupo, na língua inglesa, para agradecer pelo apoio em favor de seus compatriotas e disse que esse apoio ficaria gravado em sua memória mesmo muito tempo depois do seu retorno a Portugal, em algum momento futuro. Ele também transmitiria as palavras de apoio a seus compatriotas – os quais, enquanto estivessem na Inglaterra, se comportariam de tal maneira que, ele assim esperava, receberiam a aprovação dos habitantes de Plymouth e de toda a Inglaterra.

O aspecto mais interessante dessa matéria é o fato de que ela informa que os exilados portugueses contavam – ou passaram a contar – com a simpatia dos habitantes de Plymouth – ou ao menos de alguns deles -, o que contrasta com o relato apresentado por Victorino Nemesio, já citado no texto anterior, mas citado novamente a seguir:

Tinham chegado reduzidos a uma desesperada penúria. Os ingleses, surpreendidos por aquele bando maltrapido, deitavam-lhes olhares onde alternavam o desprezo e alguma compaixão. Mas esta rendia pouco. Só os quakers se cotizavam e lhes faziam facilidades; os demais fechavam-se numa indiferença perfeita e um tanto quanto agastada. (Exilados – 1828-1832: História Sentimental e Política do Liberalismo na Emigração –  Victorino Nemésio – p. 51)

Poderíamos supor, com base nesses dois textos, que, inicialmente, a chegada dos ‘maltrapidos’ exilados/refugiados tivesse despertado rejeição nos habitantes daquela cidade portuária e que, com a convivência cotidiana, estes puderam levar em conta as privações que os estrangeiros sofriam e entenderam que seria necessário apoiá-los, afinal partilhavam os mesmos valores políticos e filosóficos.

Não tenho evidências das consequências práticas, para os portugueses, do apelo feito pelos seus anfitriões involuntários. Porém é importante destacar que a descoberta da matéria apresentada aqui me ofereceu nova perspectiva sobre a experiência do exílio por que passou o meu parente na primeira metade do século XIX.


José Araújo é linguista e genealogista.