Afro

No texto anterior, demonstrei que os documentos produzidos em cartórios podem conter erros factuais. No caso apresentado naquele texto, o erro estava na data do óbito de meu bisavô materno João Pereira Belém e foi descoberto porque havia registros da imprensa local, mais próximos dos factos, que permitiram conhecer a data correta. Casos assim não são incomuns na pesquisa genealógica, mas parecem ocorrer com alguma frequência quando há antepassados mais remotos que descendam de pessoas escravizadas – pelo menos é o que percebo de minha própria pesquisa familiar.

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Prima

Aos vinte e nove de junho de mil novecentos e vinte, na matriz de Santo Antônio de Jacutinga, batizei solenemente Nadyr, nascida a vinte e dois de setembro de mil novecentos e dezenove, filha [rasurado: legítima] de Alfredo José dos Santos e Maria Pereira Belém, casados só civilmente. Padrinhos: Manoel Pereira Belém e Balbina Maria de Souza. Para constar, fiz este assento, em que me assino. O Vigário, Pe. Manoel da Silva Porto

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Primo

Número 11. Aos 17 dias do mês de novembro do ano de 1900, neste distrito de Marapicu, município de Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, ao meio-dia, na casa de residência e sala de audiências do primeiro Juiz de Paz Major Manoel Pinto Marques, presente este juiz, comigo escrivão de seu cargo, abaixo nomeados os contraentes João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição e as testemunhas José Justino de Oliveira e Luiz Pedro Garcez, pelo juiz foi lido o artigo sétimo e seus parágrafos do Decreto de 24 de janeiro de 1990, e perguntado a cada um dos contraentes se nenhum deles tinha algum dos impedimentos referidos no dito artigo, e responderam ambos que não, pelo que receberam-se em matrimônio segundo o regime comum os ditos contraentes: o primeiro com 52 anos de idade, agricultor, filho ilegítimo de Joaquina da Conceição, o segundo com 48 anos de idade, filha ilegítima de Maria Gaspar, ambos naturais do Distrito de Bananal de Iguaçu, digo, Bananal de Itaguaí e domiciliados neste distrito, os quais declararam no mesmo ato que antes do matrimônio tiveram os seguintes filhos […] Enéas Pereira Belém, com 12 anos de idade […] Em firmeza do que lavrei este termo que li e vai assinado pelo juiz por Antônio Macedo de Freitas e Olympio Antunes da Costa Suzano, estes a rogo dos contraentes que não sabem ler nem escrever e as testemunhas referidas. Eu José Ferreira da Costa Madeira, oficial do Registro Civil escrevi.

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Afrodescendente

O envio de escravos africanos para a América foi, sem dúvida, um dos maiores movimentos populacionais da história e a maior emigração por mar antes da grande emigração europeia, também para as Américas, que se desenvolveu justamente na medida em que o tráfico de escravos no Atlântico conheceu seu fim. _ História da África e dos africanos – Analúcia Danilevicz Pereira, Luiz Dario Teixeira Ribeiro, Analúcia D. Pereira, Paulo F. Visentini, Luiz D. Ribeiro

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Valongo

43 No dia 6 de abril corrente, desapareceu um moleque por nome José, nação Benguela, idade pouco mais ou menos 17 anos, com os sinais seguintes: gordo, baixo, bem retinto, com um ferro no pescoço e com três carimbos no peito que são JJS. Quem deste tiver notícia, dirija-se à Rua do Valongo nº 91 que se gratificará o seu trabalho. _ Jornal do Commercio, 16 de abril de 1830

A imagem abaixo apresenta o conteúdo original digitalizado, disponível no sítio da Hemeroteca Digital, do texto acima:

Avisos de escravos em fuga como esse eram bastante comuns no Rio de Janeiro do século XIX. E não era incomum que mencionassem como local de devolução do fugitivo algum endereço na Rua do Valongo, local onde havia um cais do mesmo nome para onde o vice-rei ordenou a transferência, em 1811, do desembarque dos africanos escravizados. Anteriormente, esse desembarque ocorria nas imediações da atual Praça XV e o comércio dos africanos se dava na Rua Direita, atual Primeiro de Março, então área nobre da cidade, para grande desagrado das autoridades.

Nas imediações do novo cais estabeleceu-se um conhecido complexo para comercialização de escravos cujas infames características foram registradas, por exemplo, pelo artista Jean-Baptiste Debret (1768-1848), integrante da Missão Artística Francesa. O complexo durou até 1831, quando foi desativado devido à pressão da Inglaterra pela proibição do tráfico, pressão essa que não resolveu a questão, pois o desembarque passou a ocorrer em praias remotas, longe dos olhos das autoridades.

Vários aterros e reurbanizações apagaram os vestígios do cais até que fosse novamente exposto durante as obras de revitalização da zona portuária da cidade no início da segunda década do século XX. Em 2017, o sítio arqueológico recebeu o título de patrimônio mundial da UNESCO. As fotos abaixo, de minha autoria, foram feitas no local do sítio em 2018.

Estima-se que o cais do Valongo foi a porta de entrada para mais de um milhão de africanos escravizados e trazidos para o Brasil. Seus descendentes talvez desconheçam esse facto, mas podem visitar o local, que compõe – junto com a Pedra do Sal e o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) – o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana.


José Araújo é linguista e genealogista.

Escrava

É comum acreditar que famílias estabelecidas há séculos no Brasil tenham em sua composição genética elementos dos três grandes grupos formadores: o indígena, o europeu e o africano. Pelo mesmo raciocínio, isso não ocorreria em famílias estabelecidas mais recentemente, por volta do século XX, por exemplo, nas quais um desses elementos poderia existir de forma exclusiva – caso de minha família paterna. Mas a realidade é mais complexa do que pode parecer, pois esse raciocínio se baseia na crença de que os elementos indígena e africano (escravizado) estavam presentes apenas no Brasil. Como talvez você já saiba – ou deva ter deduzido – o raciocínio está equivocado e precisa ser desconstruído.

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