Todos os meus bisavós maternos aparecem nos documentos como filhos naturais de suas mães, algo que não era incomum nos séculos passados. Em ao menos dois casos consegui esclarecer as filiações: a de Artur Rabelo Guimarães, pai de minha avó materna; e a de João Pereira Belém, pai de meu avô materno. Ambos os casos exigiram análises de várias fontes documentais – assentos paroquiais, inventários, notícias de jornal – e de correspondências de testes de DNA autossômico feitos por mim e por primos maternos. O caso de Artur, como já comentei e voltarei a comentar em um próximo texto, foi facilitado pelo facto de ele ter um sobrenome composto distinto do de sua mãe e idêntico ao de uma família portuguesa que vivia na mesma cidade.

O caso de João, por outro lado, sempre causou algum estranhamento. Provas documentais e de DNA permitem afirmar que seu pai era o cidadão Pedro Gomes de Moraes, natural de Marapicu, hoje Nova Iguaçu. A mãe de Pedro e avó de João havia sido casada com o capitão Joaquim Francisco do Rego. Sempre acreditei que Pedro não havia recebido o sobrenome da família paterna porque a família de sua mãe, de antigas raízes coloniais, seria mais poderosa na região de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica. Mas começo a suspeitar que a explicação possa ser bem mais complexa.

Vamos por partes. Maria Tereza nasceu perto de 3 de fevereiro de 1791 em Sacra Família do Tinguá, hoje município de Engenheiro Paulo de Frontin. Era uma das filhas do casal Francisco Gomes Pereira (1764-1822) e Inácia Angélica de Moraes (1775-1822). Joaquim Francisco do Rego, suposto pai de Pedro Gomes de Moraes, nasceu em 28 de novembro de 1766 em Itacuruçá e era um dos filhos do casal Francisco do Rego, de pais açorianos, e Rosa Maria dos Santos, de pai açoriano e mãe brasileira. Maria Tereza e Joaquim tiveram habilitação para se casar em 17 de dezembro de 1809, pelo que se supõe que tenham se casado no ano seguinte. Dessa forma, se tudo estivesse correto, eles teriam seu primeiro filho já em 1810 ou 1811.

Façamos agora um salto no futuro, para o casamento de João Pereira Belém e Teodora Maria da Conceição, meus bisavós. Eles se casaram no regime civil em 17 de novembro de 1900, 21 anos após o nascimento de seu primeiro filho – Pedro. Nesse casamento, eles reconheceram todos os filhos que haviam tido, inclusive meu avô Enéas, então com 12 anos de idade. No registro matrimonial lê-se o trecho abaixo:

[…] receberam-se em matrimônio segundo o regime comum os ditos contraentes: o primeiro [João Pereira Belém] com 52 anos de idade, agricultor, filho ilegítimo de Joaquina da Conceição, o segundo [Teodora Maria da Conceição] com 48 anos de idade, filha ilegítima de Maria Gaspar, ambos naturais do Distrito de Bananal de Iguaçu, digo, Bananal de Itaguaí e domiciliados neste distrito, os quais declararam no mesmo ato que antes do matrimônio tiveram os seguintes filhos: Pedro Pereira Belém, com 21 anos de idade […]

Se João declarou ter 52 anos quando se casou em novembro de 1900, ele deve ter nascido em 1848 ou 1847. Para que Pedro Gomes de Moraes fosse seu pai, este teria de ter nascido pelo menos 20 anos antes, ou seja, em 1828. Pedro se casou por volta de 1850 com Maria Pereira Ramos (1835-1885), portanto podemos imaginar que ele possa mesmo ter nascido em 1828 ou, mais remotamente, em 1820. O que poderia justificar Maria Tereza ter demorado nove anos ou mais para ter gerado Pedro? Considerando que as mulheres na época costumavam ter filhos pouco depois do casamento, parece bastante suspeita essa gravidez tão tardia.

Mas vamos tornar a coisa mais complexa pela leitura do assento de óbito do suposto pai de Pedro, o capitão Joaquim Francisco do Rego:

Aos dezoito dias do mês de junho de mil oitocentos e trinta e sete, sepultou-se no cemitério desta matriz de Santa Anna de Itacuruçá o capitão Joaquim Francisco do Rego, de idade setenta e tantos anos, pouco mais ou menos, que foi casado com dona Maria Tereza da Paz [finou] no lugar chamado de Muriqui, território desta freguesia, onde vivia já há [dezesseis] anos separado de sua mulher. Recebeu os sacramentos e foi amortalhado em […] preta. Foi encomendado pelo reverendo vigário de Guaratiba e acompanhado por vários sacerdotes. Não fez testamento. Que para constar fiz este. O vigário Inácio José Justiniano Braga.

Óbito de Joaquim Francisco do Rego

Joaquim faleceu na mesma freguesia onde fora batizado. Provavelmente habitava terras que pertenciam a sua família. Mas o interessante nesse registro é que ele faleceu só, ou seja, sem a presença de Maria Tereza, de quem “vivia já há [dezesseis] anos separado”. Nesse período de 16 anos – 1821-1837 – , Maria Tereza teve um relacionamento com Pedro Cipriano Pereira Belém (1795-1860), natural de Marapicu. Desse relacionamento Maria Tereza teve cinco filhos – Manoel (1827), Maria José (1830), Francisca Rosa (1835), Francisco Cipriano (1839) e Fernando (1844) com datas de nascimento aproximadas – , todos reconhecidos pelo pai, que no testamento, exibido em trecho a seguir, declarou ser solteiro.

Declaro que sou solteiro, em cujo estado tive cinco filhos de nomes Manoel Pereira Belém; Francisco Cipriano Pereira Belém, solteiro; Maria José Belém, casada com Leocádio Pamplo, digo, Pamplona Cortes; Francisca Pereira Belém, casada com Manoel Inácio Barbosa, os quais se acham perfilhados e legitimados por escritura pública passada no Cartório do Tabelião da […] freguesia do Bananal, os quais os reconheço como meus filhos para que possam entrar na herança de meus bens, direito e ações como se fossem havidos de legítimo matrimônio como meus únicos herdeiros que são […] Declaro que nomeio para meus testamenteiros e administradores de meus bens em primeiro lugar a meu filho Manoel Pereira Belém, em segundo lugar a meu filho Francisco digo Fernando Pereira Belém […]

Maria Tereza sequer é citada no testamento e no inventário de Pedro Cipriano, pois jamais se separou do marido Joaquim perante a Igreja. A separação era de corpos, de facto, e talvez possa ser explicada por uma razão que me parece plausível: Maria teve com Pedro Cipriano, cerca de dez anos após o casamento, um filho a quem deu o nome do pai e que, inclusive, foi batizado na mesma freguesia deste. Esse filho, que deve ter nascido por volta de 1820, recebeu os sobrenomes da família materna porque não era filho do homem com quem sua mãe se casara em 1810 e sim do amante dela. Por essa razão, meu bisavô João, neto de Maria Tereza, recebeu o mesmo sobrenome da família do tal amante: Pereira Belém.

Embora não tivesse validade civil ou religiosa, a relação entre Maria Tereza e Pedro Cipriano era reconhecida na sociedade, provavelmente por conta do poder da família Pereira Belém. Esse reconhecimento pode ser atestado no assento de batismo de uma das netas do casal, filha de Maria José Belém e de seu primo Leocádio Pamplona Cortes:

Aos vinte e cinco dias do mês de dezembro de mil e oitocentos e cinquenta e cinco, em casa de residência de Pedro Cipriano Pereira Belém, freguês de São Pedro e São Paulo, havendo licença do Rdo. vigário da freguesia, batizei e pus os santos óleos à inocente Amélia, branca, fluminense, nascida a oito de novembro do corrente ano, filha legítima de Leocádio Pamplona Cortes e de sua mulher D. Maria José Belém, ambos naturais desta freguesia, e batizados na de Marapicu, neta paterna de João Pereira de Farias e de Maria Amália das Neves, ambos falecidos, e materna de Pedro Cipriano Pereira Belém e Maria Tereza da Paz, já falecida. Foram padrinhos Manoel Inácio Barbosa e D. Francisca Rosa Belém, sua mulher.

Finalmente, uma evidência genética pode confirmar a filiação de Pedro Gomes de Moraes em Pedro Cipriano, embora não tenha havido reconhecimento de paternidade: tenho uma correspondência de DNA com uma senhora chamada Beatriz, cuja ascendência chega ao português Francisco Antônio Pereira Belém (1746-1834), patriarca dos Pereira Belém na região de Bananal de Itaguaí e São Pedro e São Paulo, atual Paracambi. Francisco é nosso quinto avô, o que parece coerente com a quantidade de DNA compartilhado entre nós: 20 centimorgans. Até que surja prova em contrário, sigo na interpretação de que meu bisavô João era neto de Pedro Cipriano Pereira Belém.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista

1 comentário

Omissão – Genealogia Prática · 1 de março de 2024 às 08:14

[…] a uma das famílias da elite agrária da região de Marapicu e Itaguaí e, como argumento em texto anterior, satisfaria várias condições para ser o real pai biológico de outro filho de Maria chamado […]

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