Geração

No dia 13 de agosto de 1591, Gaspar da Palma, “sacerdote cônego” da cidade de Salvador, compareceu à residência de Heitor Furtado de Mendonça, “sem ser chamado”, para “denunciar coisas tocante ao Santo Ofício”. Heitor era o visitador da Inquisição e fora enviado à capital da colônia para vigiar, investigar e punir desvios religiosos e morais que ameaçavam a ortodoxia católica. Entre os tais desvios estavam os cometidos pelos cristãos-novos, judeus convertidos ou descendentes deles, de quem se suspeitava que mantivessem os costumes religiosos – rezas, preceitos dietéticos, preservação do dia santo (shabat) – que eram proibidos aos cristãos, fossem eles convertidos ou não. Em suas denúncias, Gaspar implicou vários membros da família do cirurgião cristão-novo Afonso Mendes – o mestre Afonso – , que viera para a colônia em 1557 com o governador-mor Mem de Sá trazendo a família que formara em Portugal com a cristã-nova Maria Lopes. Nessas denúncias encontramos várias informações de valor genealógico.

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Terceiros

Após a transferência da jovem cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para o Morro do Castelo em 1567, as ordens religiosas começaram a se estabelecer nesse morro (jesuítas) e no seu entorno (beneditinos, franciscanos e carmelitas). Os pioneiros frades da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Monte do Carmo chegaram à cidade em 1590 e se estabeleceram na antiga ermida de Nossa Senhora do Ó, que ficava diante da praia, onde depois passaria um dos principais eixos comerciais e políticos da cidade: a Rua Direita. Em 1611, eles receberam terras adjacentes onde começaram a construir seu convento em 1619. Além da Ordem Primeira, ali também se estabeleceu a Ordem Terceira do Carmo, fundada em 19 de julho de 1648, a qual se tornaria uma das instituições religiosas leigas mais antigas e socialmente importantes da história carioca.

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Logradouro

Aos vinte e sete dias do mês de setembro do ano de mil oitocentos e sessenta e oito, nesta freguesia de Barcos, concelho de Tabuaço, diocese de Lamego, na casa número um, às quatro horas da tarde, faleceu, não tendo recebido sacramentos da Santa Igreja, um indivíduo do sexo masculino por nome Antônio de Araújo Morgado, de idade de 66 anos, de estado casado com Ana da Silva, natural desta freguesia, morador na rua do fundo da vila, filho legítimo de José Morgado, natural da freguesia de Adorigo deste concelho, profissão proprietário, e de Josefa de Araújo, de profissão governo da casa, o qual não fez testamento, deixando filhos e foi sepultado na igreja desta freguesia por não haver cemitério público. E para constar se lavrou em duplicado este assento que assino. Era ut supra. O abade Antônio Augusto Tavares

Poucas vezes temos a oportunidade de descobrir nas fontes documentais informações tão precisas quanto as que se podem ler nesse assento de um membro de minha família em Portugal. Em registros do século XIX, a depender da freguesia e do pároco, é possível obter tal grau de precisão. Conforme retrocedemos pelos séculos, os detalhes podem se tornar cada vez mais escassos. A sorte pode, no entanto, nos favorecer e foi graças a ela que pude encontrar o endereço de minha antepassada Maria Lopes, uma portuguesa que faleceu na Bahia em agosto de 1591.

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