A descendência do português João Pinheiro de Souza (1719-1782) com a carioca Paula Pereira Monteiro (1725-1815) é enorme e contém inúmeras instâncias de endogamia, que vão além dos costumeiros casamentos entre primos de diferentes graus e incluem casamentos entre tios e sobrinhas e entre uma tia e um sobrinho dezesseis anos mais novo. João e Paula foram meus hexavós maternos e talvez seja exatamente esse alto grau de endogamia que me assegurou muitas correspondências de DNA (matches) que se espalham por vários estados brasileiros, como Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, para ficar com os mais frequentes. O match mais recente que descobri nesse ramo se chama Alice.
Ela apareceu como prima de 5º a 8º grau na ferramenta Busca Parentes da plataforma Genera com 27 centimorgans (cM) compartilhados comigo e nenhum DNA compartilhado com minhas primas maternas, o que inicialmente levantou a suspeita de que pudesse ser um match paterno. Além disso, a ferramenta informava que seu DNA mitocondrial (mtDNA) é do haplogrupo B2, de origem ameríndia. Nada disso sinalizaria um parentesco não fosse por ela ter o sobrenome Moraes, que é o mesmo de meu trisavô materno Pedro Gomes de Moraes, membro de uma família que se uniu com a descendência do casal-tronco João e Paula. Tenho inúmeros matches já comprovados via Genealogia documental que se incluem nesse entroncamento, o que me pareceu uma boa pista a seguir.

Ainda que de posse de tão pouca informação e apenas uma suspeita de por onde se daria o parentesco, iniciei a busca pelos nomes dos pais e avós de Alice. O e-mail informado por ela – ou por quem administrou seu teste – não retornou resposta e tampouco forneceu detalhes adicionais, como endereço residencial, nome da mãe e data de nascimento. Restou a alternativa de tentar obter essas informações apenas com seu nome, que poderia nem mesmo estar completo na plataforma. A primeira tentativa resultou em mais de três dezenas de candidatas homônimas, mas uma delas chamou minha atenção por ser natural do Rio de Janeiro, um dos estados onde tenho mais matches nesse ramo depois do Espírito Santo.
Arrisquei essa candidata, que descobri ter nascido em 1953 e ter por mãe uma mulher cujo sobrenome de solteira – Moulin – é o mesmo de uma das famílias entroncadas com a descendência dos já citados João e Paula, e que era uma família estabelecida no Espírito Santo na segunda metade do século XIX. Parece que arriscar minhas fichas nessa Alice valeu a pena, pois ela se revelou trineta de Fernando Dias de Moraes e Luiza Adelaide de Sales, ambos descendentes do casal-tronco – e mais de uma vez por conta da já mencionada endogamia.
Por outro ramo de sua ascendência, Alice é tetraneta de Francisca Joaquina de Moraes (1814-1877), irmã de minha trisavó Maria Teresa da Paz (1791-1855), mãe de meu bisavô Pedro, a quem já dediquei uma microbiografia. O mais interessante, além dessa aposta certeira, está na reiteração do haplogrupo de nossa ascendente comum, a taubateana Teresa Barbosa de Jesus, que foi casada com seu conterrâneo João Jaques de Almeida, e de quem tratei em outro texto.
Como Alice descende de Teresa Barbosa de Jesus por linha exclusivamente matrilinear e tem o haplo B2, obtive neste caso mais uma evidência de que nossa ascendente paulista era uma mulher indígena ou, ao menos, descendia de uma mulher ameríndia.
José Araújo é genealogista.