A tradição de escolher padrinhos surgiu no século II d.C, quando os batismos infantis se tornaram populares. Até o século V d.C., eram os pais que declaravam a fé cristã de seus filhos, o que estes mesmos não poderiam fazer por pura incapacidade. A partir desse século, surgiu o costume de indicar terceiros, os quais assumiam a função de pais espirituais. Foi uma explicação assim – mais no sentido de pais substitutos – que ouvi de minha mãe quando lhe perguntei por que a irmã mais nova dela e o marido desta haviam sido escolhidos para meus padrinhos no batismo. Existem mais questões por trás desse costume, que parece trivial.
Uma das primeiras proibições da Igreja, ainda em 813 d.C, foi a de que os pais biológicos apadrinhassem seus filhos. Por essa razão, a escolha feita ainda dentro da família poderia recair sobre os avós, tios e irmãos mais velhos já batizados. O exemplo abaixo, encontrado em minha genealogia familiar, comprova a escolha de padrinhos entre os avós maternos da criança batizada.
Aos cinco dias do mês de agosto deste ano de mil e oitocentos e cinquenta e dois, nesta igreja de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, batizei solenemente e pus os santos óleos à inocente Helena, branca, filha legítima de Manoel Inácio Barbosa, natural da freguesia de Marapicu, e de Francisca Rosa Belém, natural e fregueses da freguesia de São Pedro e São Paulo, neta por parte paterna de Inácio Pereira Barbosa e de Helena Maria Amélia; e materna de Pedro Cipriano Pereira Belém e de Maria Teresa da Paz. Foram padrinhos Pedro Cipriano Pereira Belém e Maria Teresa da Paz, da freguesia de São Pedro e São Paulo. Nasceu no dia treze de julho deste dito ano.
Quando a escolha ultrapassava os limites da família imediata ou ampliada, poderíamos encontrar casos em que os padrinhos eram escolhidos entre padres da freguesia local, pessoas da elite e mesmo santos da devoção familiar, como já apresentei em outro texto. Em todos esses casos, podemos entender que o desejo era prover à criança uma futura rede de proteção a partir do vínculo com quem detinha poder espiritual, político ou econômico na sociedade.
No Brasil, onde por mais de três séculos existiu uma sociedade escravocrata, encontramos inúmeros casos em que pessoas escravizadas ou já libertas escolhiam para padrinhos de seus filhos representantes da elite escravista, que poderiam constituir a citada rede de proteção. Os exemplos abaixo, também extraídos de minha genealogia familiar, mostram como os ex-escravizados Estêvão e Mariana, meus antepassados diretos, escolheram para apadrinhar seus filhos pessoas com poderes do mundo material e espiritual.
Aos vinte e oito de setembro de mil e setecentos e cinquenta, batizei solenemente e pus os santos óleos a Eugênia, filha legítima de Estêvão Gonçalves e Mariana de Souza, pretos forros assistentes na Fazenda do Viegas. Foram padrinhos o capitão José Nunes e Vicência Ferreira.
Aos sete de julho de mil e setecentos e cinquenta e quatro anos, nesta matriz do Campo Grande, batizei e pus os santos óleos a Joaquim, filho legítimo de Estêvão Gonçalves e de sua mulher Mariana de Souza, assistentes na Fazenda do Viegas, ambos forros e naturais do gentio da Guiné. Foram padrinhos Jorge Manoel dos Santos e Nossa Senhora do Desterro.

Como a Igreja tivesse proibido os pais biológicos de atuarem como padrinhos de seus filhos, suspeito de que o citado regime escravocrata possa ter dado aberturas para que a identidade de um pai desconhecido se insinuasse justamente na escolha dos padrinhos de uma criança afrodescendente. Assim pode ter sido o caso de minha antepassada Firmiana, em cujo assento de batismo se declaram como padrinho e madrinha pessoas de famílias da elite local – os Correa Vasques e os Sanches de Castilho – , talvez sugerindo que o pai biológico da criança pudesse ser encontrado em uma dessas famílias.
Aos vinte três dias do mês de janeiro de mil setecentos e setenta e seis anos, nesta freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, batizei e pus os santos óleos a Firmiana, filha de Ana, parda livre, solteira, nascida a quinze do dito mês. Foram padrinhos o capitão Manoel Correa Vasques e Dona Inácia Francisca, solteira, filha de D. Inácia Maria Tavares, viúva desta freguesia.
Dona Inácia Maria Tavares era viúva do sargento-mor Francisco Sanches de Castilho (1700-1771), em cuja descendência acredito estar o pai biológico de Firmiana. Uma evidência que sugere que essa hipótese esteja correta está no fato de o futuro sogro de Firmiana, Miguel Veloso de Carvalho (1738-1808), ter sido sepultado na casa do sargento-mor, como declarado em seu assento de óbito, transcrito abaixo.
Aos trinta e um dias do mês de agosto de mil oitocentos e oito anos, em casa do sargento-mor Francisco Sanches de Castilho, nesta freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, foi sepultado Miguel Veloso com todos os sacramentos, de idade de setenta anos. Foi envolto e pano branco encomendado pelo […] vigário Mariano José de Mendonça.
A se confirmar essa hipótese, a madrinha de Firmiana seria, na verdade, sua tia paterna.
José Araújo é genealogista.