Lino Lopes de Mattos, bacharel formado na Faculdade dos Sagrados Cânones pela Universidade de Coimbra e Pároco Colado da Freguesia da Conceição de Nossa Senhora de Guarapiranga, certifico que a presente Tábua está conforme com o estado presente da população desta freguesia em todas as distinções e declarações que vão nela, para cujo fim mandei fazer os exames que foram possíveis. Guarapiranga, 31 de dezembro de 1797, Lino Lopes de Mattos.

Assim descreve o pároco Lino Lopes o documento que mandou produzir para informar do censo populacional da freguesia de Guarapiranga, termo de Mariana, na província de Minas Gerais, nos últimos anos do século XVIII. Já tratei dessa freguesia em outro texto no qual abordei um ramo de minha família materna que lá se fixou após migrar de Taubaté, São Paulo, na primeira metade do referido século, provavelmente seguindo a promessa de riquezas – ouro e pedras preciosas.

No momento em que o censo foi realizado, minha antepassada Maria Teresa de Jesus de Moraes, neta dos citados taubateanos e natural de Guarapiranga, já não mais viveria na freguesia, pois já deveria estar casada com o português Antônio Luiz Pereira Soares (1726-1794) e vivendo no Rio de Janeiro, onde este ramo de minha família se fixou. Embora não haja documentos comprobatórios, suspeito de que Leonor Barbosa de Jesus – mãe de Maria Teresa – e suas irmãs Luzia, Inácia e Rosa Maria tenham permanecido em Guarapiranga.

Agostinho de Almeida, que deve ter sido o único tio materno de Maria Teresa, certamente permaneceu, pois casou-se em Guarapiranga, em 6 de outubro de 1765, com Catarina do Espírito Santo Vieira, natural de Rosário do Sumidouro, Minas Gerais. Ele faleceu na mesma freguesia em 1790, pois nesse mesmo ano ele deixou testamento e sua esposa é dada como viúva em batismo no qual foi madrinha. Dessa forma, Agostinho segue como o parente mais próximo desse ramo a estar vivo em Guarapiranga alguns anos antes da realização do censo populacional.

Tábua de População da Freguesia de Guarapiranga (1797)

A Tábua de 1797 nos revela alguns aspectos interessantes sobre a composição da sociedade local alguns anos depois do falecimento de Agostinho e o principal deles é que havia três fatores desequilibrados: havia mais homens do que mulheres, mais pretos do que brancos e pardos e mais cativos do que libertos. Os pretos (africanos) cativos compunham cerca de 48,6% da população total, ou seja, quase a metade dela. Nesse universo, havia mais homens do que mulheres em idade produtiva, isto é, entre 15 e 60 anos, o que bem demonstra o quanto a mineração demandou mão de obra do tráfico transatlântico de escravizados. E pode-se supor o quanto essa demanda deve ter enriquecido os comerciantes brancos.

Tábua de População da Freguesia de Guarapiranga (1797)

Embora menor, a população mestiça (parda) compunha cerca de 22,5% do total, mas era a maioria entre os não-brancos livres – 80%, enquanto entre os pretos chegava apenas a 9,3%. Não se pode saber se esses pardos haviam recebido a liberdade por vontade de seus senhores, muitos dos quais poderiam ser seus pais biológicos, ou se a tinham comprado pelo acúmulo de riqueza decorrente da mineração ou do comércio, possibilidade esta que deve ter favorecido principalmente as mulheres. Na região, por sinal, eram conhecidos os casos de mulheres pretas e pardas que acumulavam riqueza e a ostentavam publicamente, o que ensejava muitas críticas da elite branca.

A relação entre nascimentos e mortes sugere uma taxa de crescimento natural positiva. Isso, somado à uma população total não desprezível de 11.800 pessoas, sugere que a freguesia aparentava uma estabilidade, mesmo diante da decadência do ciclo do ouro, que começou de forma mais acentuada a partir da década de 1760, intensificando-se no último quartel do século XVIII, especialmente após 1770-1780, em função do esgotamento das jazidas de aluvião.

Assim, podemos imaginar que Agostinho vivesse em uma freguesia onde pessoas como ele eram minoria e exploravam intensamente o trabalho de uma maioria composta de africanos escravizados, traficados em grandes levas de rapazes jovens e homens adultos em plena idade produtiva. A mestiçagem parecia ocorrer livremente naquela sociedade e talvez Agostinho tivesse vários filhos com suas escravizadas, alguns dos quais pode ter libertado ainda na pia batismal. Finalmente, entre as mulheres libertas de Guarapiranga talvez encontrássemos muitas com perfil empreendedor que acumulariam riqueza com o comércio.

A documentação que originou esse quadro imaginado poderá ser encontrada em documentos que, a exemplo deste analisado aqui, obtive em pedido feito ao Arquivo Público Mineiro.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista