Muitos clientes testados pelo laboratório Genera veem entre seus resultados de Ancestralidade Global (AG) um componente europeu que nem sempre é recebido com naturalidade. Trata-se do componente Itália, que a bem da verdade nem deveria ser entendido como uma declaração de ascendência naquele país, afinal o que a ferramenta AG supostamente captura é uma visão geral de por quais territórios do mundo os ancestrais da pessoa testada ou cliente tiveram alguma passagem. Essa visão é obtida pela comparação do DNA autossômico do cliente com um painel de referência composto por amostras de DNA de pessoas cujos antepassados comprovadamente viveram nesses territórios. Considerando que os povos dos territórios europeus sejam talvez os mais estudados pelas ciências, deveríamos poder esperar alguma precisão desses resultados quando informassem que um cliente tem componentes italianos em sua ancestralidade genética. Mas será que devemos esperar isso?

Apresento apenas meu caso familiar para que o leitor tire suas conclusões. Eu e minhas primas maternas Fátima, Regina, Simone e Thais fizemos testes do Genera em períodos diferentes. Fátima é minha prima de primeiro grau por quatro ramos (Rabelo Guimarães – Pereira da Silva / Pereira Belém – Rangel) que compartilho com Regina, também prima de primeiro; Simone e Thais, primas de segundo grau, compartilham comigo apenas metade desses ramos (Pereira Belém – Rangel) e (Rabelo Guimarães – Pereira da Silva). Como se pode perceber pelos sobrenomes, não deveria haver ascendência italiana nesses ramos compartilhados entre nós. E não há mesmo, pois são ramos que pude documentar em grande parte (Rabelo Guimarães – Pereira da Silva e Pereira Belém) até os séculos XVI, XVII ou XVIII sem encontrar nenhum ancestral italiano ou oriundo do território que se tornou a Itália no século XIX.

Ancestralidade Global (José Araújo) – Genera

Mas cada um de nós tem outros ramos familiares que não são compartilhados: meu ramo paterno é 100% português e de imigração recente (século XX), assim como o ramo materno de Fátima; o ramo paterno de Simone também tem origens portuguesas, ainda que pouco mais remotas, e seu ramo materno tem origens no Nordeste, com componentes africanos e indígenas bem identificados; Thais tem bisavós italianos por um ramo e um avô espanhol e trisavós italianos por outro ramo; Regina tem um avô português e uma bisavó italiana. Como se vê, o componente italiano está presente em alguns de nós. A tabela abaixo demonstra como a Genera informa da existência de alguma ancestralidade italiana em cada um de nossos testes.

CLIENTEITÁLIA DOCUMENTADAITÁLIA NO GENERA
Eu0%8%
Fátima0%5%
Regina12,5%0%
Simone0%6%
Thais37,5%32%

Como se percebe no caso de Regina, o Genera parece não ser confiável na estimativa de ancestralidade genética italiana mesmo em casos onde existe documentação de ascendência italiana real. Apenas Thais, que tem essa ascendência por mais de um ramo, ainda que aproximadamente no mesmo grau que Regina, obteve um valor mais realista de ancestralidade genética italiana. Uma possível explicação para o caso de Regina pode ser encontrada em um dos podcasts do PodRaiz (Os primos (matches) fantasmas nos testes de DNA), aqui no site.

Nos demais casos, percentuais inferiores a 10% talvez devam ser considerados suspeitos de falsa atribuição de ancestralidade e, portanto, parece mais coerente agregar esse valor ao percentual de ‘Ibéria’, ou seja, à ancestralidade portuguesa tão prevalente entre os brasileiros.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista