O arraial de Nossa Senhora da Conceição do Guarapiranga foi fundado em 1704 a partir do povoamento que, segundo alguns historiadores, surgiu em 1691 às margens do Rio Piranga na região das Minas Gerais. A primeira capela para o culto da Virgem Maria teria sido inaugurada nessas terras em dezembro de 1695. A Paróquia que a substituiu foi consagrada em 16 de fevereiro de 1718, sendo uma das cinco mais antigas do estado. A história desse arraial, que está relacionado a um ramo de minha família materna, está também relacionada ao ciclo do ouro, que moveu enormes levas de portugueses e brasileiros para a região na primeira metade do século XVIII. Entre os brasileiros havia grande participação dos paulistas, descendentes dos sertanistas que ficaram conhecidos como bandeirantes.

Em Guarapiranga nasceu, perto de 1720, no lar do casal João Jaques de Almeida e Teresa Barbosa de Jesus, minha heptavó Leonor Barbosa de Jesus. O tronco familiar originado em João e Teresa foi documentado pelo genealogista Marco Polo T. Dutra P. Silva, que teve acesso a fontes primárias relacionadas à descendência do casal. Sabe-se que João Jaques (ou Jacques ou Jácome) não era natural de Guarapiranga, pois, segundo processo matrimonial iniciado naquela vila em 1727 por André Gomes Chaves e Felipa da Cruz de Oliveira, ele testemunhou declarando que tinha 45 anos, era casado e natural de Taubaté e que conhecia a oradora Felipa há vários anos. É o que se lê a seguir.

AEAM processo de habilitação matrimonial número 129039- processo iniciado em 1727. Freguesia de Guarapiranga – Diz o Capitão André Gomes Chaves natural da Vila de Chaves arcebispado de Braga. Filho legítimo de Domingos Gomes e Catarina Pires já defuntos. Batizado na freguesia de Santa Maria de Calvão . Diz estar contratado para se casar com Felipa de Oliveira filha legitima do Capitão Manoel Velho de Oliveira e sua mulher Maria Luís moradora de cinco para seis anos nesta Minas, freguesia de Guarapiranga. Naturais da Vila de Santa Cruz do Bispado do Rio de Janeiro. // Testemunhas arroladas- João Jaques de Almeida, casado, natural de Taubaté. 45 anos. Diz conhecer a oradora de Ubatuba onde morou em casas dos pais dela. De onde veio para as Minas com seis anos de idade./ Sebastião Moniz da Costa natural da cidade de São Paulo. 55 anos. Repete o testemunho anterior./ Miguel Cabral de Oliveira natural de Jundiai, casado, 43 anos diz conhecer os pais da oradora há 12 anos. Oradora declara ser natural de Ubatuba e de idade diz ter 13 anos.

Pelas informações prestadas por ele mesmo, descobrimos que o taubateano João teria nascido em 1682, quando o povoado mineiro de Guarapiranga ainda nem existia e seus conterrâneos estavam prestes a descobrir ouro nas Minas Gerais. O paulista a quem se atribui essa descoberta se chamava Antônio Rodrigues de Arzão, e ele também era natural de Taubaté. É interessante registrar que a jovem para quem João prestou depoimento no processo matrimonial era descendente, pela via materna, de Ana Rodrigues de Arzão, tia de Antônio Arzão. Os Rodrigues-Arzão descendiam de Martim Afonso Tibiriçá, morubixaba de provável origem guaianá-maromini ou guarulho (mais sobre eles adiante) que se aliou aos colonizadores portugueses.

O fato de João Jaques ter morado em casas do pai de Felipa, como ele declara, sugere que poderia haver alguma relação de maior proximidade entre ele e a família dela, mas sua ascendência segue ignorada pelos genealogistas, portanto não se sabe se seria uma relação de parentesco. Teresa Barbosa de Jesus, a mulher com quem João se casou, também tem ascendência desconhecida, mas recentemente descobri um descendente dela em linha direta matrilinear que havia feito um teste genético pelo qual se revelou o DNA mitocondrial (mtDNA) B, de provável origem ameríndia, pelo que acredito que ela fosse uma mulher nativa ou mameluca, neste caso descendente de uma mulher indígena.

Existe a possibilidade de que João e Teresa tenham se casado em Taubaté, pois o genealogista Marco Polo descobriu que Luzia Gonçalves Barbosa, filha do casal, nasceu naquela vila, enquanto seus irmãos Inácia, Leonor, Rosa Maria e Agostinho nasceram em Guarapiranga, onde se casaram, respectivamente, em 1732, 1735, 1738 e 1765. Estimando para as mulheres uma idade mínima de casamento aos 14 anos e sabendo por informação do mesmo genealogista que Luzia casou-se em 1727 – podendo ter nascido em 1713 – , suponho que seu pai João, nascido em 1682, tenha se casado com Teresa Barbosa de Jesus entre 1712 e 1713. Entre 1713 e 1718, ele teria se transferido para Minas Gerais com a família, na trilha do ouro lá descoberto por seus conterrâneos, talvez acompanhando uma expedição que havia saído de Ubatuba.

Aqui retomo a transcrição do processo matrimonial de Felipa de Oliveira com o intuito de buscar mais pistas a fim de ratificar ou refutar as conclusões anteriores. Segundo a oradora Felipa declara, ela era natural de Ubatuba e tinha 13 anos quando iniciou seu processo matrimonial em 1727, portanto deve ter nascido em 1714 – ou ainda em 1713 – e se mudado com os pais para Guarapiranga em 1720, pois se informa que ela era “moradora de cinco para seis anos nesta Minas, freguesia de Guarapiranga” e João Jaques declara que ela “veio para as Minas com seis anos de idade”. Se João se casou com Teresa entre 1712 e 1713 como supus antes, e declara que “morou em casas dos pais [de Felipa]” em Ubatuba, ele deve ter conhecido Felipa quando esta era ainda bebê.

Nesse cenário, seria mesmo possível que João tivesse conhecido Teresa em Ubatuba e lá com ela se casado. Dali, eles podem ter seguido – sozinhos ou acompanhando uma expedição – um antigo caminho indígena que foi percorrido em 1597 pelo inglês Anthony Knivet e que saía do litoral em direção à terra dos guaianá-marominis (ver mapa abaixo) que viviam nos sertões onde o paulista Jacques Félix fundou, em 1639, a vila de Taubaté. Essa vila, a propósito, recebeu um nome indígena que poderia significar tanto aldeia alta ou terra altataba (aldeia) e ybate (alto) – quanto aldeia verdadeirataba e eté (verdadeiro). De Taubaté, após o nascimento da primogênita, o casal teria seguido pela calha do Rio Paraíba do Sul até as proximidades das Minas Gerais, em direção a Guarapiranga, onde se estabeleceu.

Indígenas do Vale do Paraíba – Século XVI (Paulo Pereira dos Reis, 1979, p. 94)

Onde quer que João e Teresa tenham se casado – Ubatuba ou Taubaté – , suspeito, como já afirmei, que ela fosse uma mulher indígena ou mameluca de origem guaianá-maromini e não seria impossível que ele tivesse origem similar, pois grande parte dos paulistas descendia de homens europeus e mulheres indígenas por causa (a) das características da colonização, que fazia os europeus virem para o Brasil sem as mulheres e (b) das culturas nativas que, segundo costume do cunhadismo, fazia os morubixabas integrar os homens brancos às sociedades locais oferecendo-lhes suas filhas como esposas.

O inglês Anthony Knivet, que conheceu os guaianá-marominis, os descreveu como tendo “baixa estatura, […] barrigas grandes e pés largos”, descrição similar à feita para os indígenas garulhos, que pela baixa estatura e ventre avantajado faziam lembrar o peixe guaruguaru ou barrigudinho. Knivet também afirmou que entre os guaianá-marominis “tanto homens como mulheres usam o cabelo comprido, caindo pelos lados, mas o topo da cabeça é todo raspado, como o dos padres franciscanos”. Sendo Teresa e/ou João descendente(s) dos guaianá-marominis (ou dos garulhos) cumpre explicar que sua origem poderia estar em um povo falante de uma língua do tronco Jê que habitava o sertão do Brasil e as calhas dos rios, onde sofria perseguição pelos povos falantes das línguas Tupi – principalmente pelos Tupinambás e Tupiniquins.


José Araújo é genealogista.