Acredito em uma Genealogia que não se limita à busca e transcrição de assentos paroquiais, certidões, inventários e testamentos nem se encerra na elaboração de uma árvore genealógica. Para mim a Genealogia que faz sentido exige o estudo da Genética, da Geografia, da História e de todas as ciências que podem contribuir para o registro de um quadro mais próximo do que foi a vida de nossos antepassados. Valorizo também elementos da vida cotidiana, por mais triviais que possam parecer, e nisso incluo, por exemplo, a recordação dos costumes alimentares da família segundo suas origens étnicas, sua condição social e o momento histórico em que viveram seus membros. É por isso que sempre me recordo dos cadernos de receitas que minha mãe e minhas tias atualizavam e consultavam com alguma frequência.
Minha mãe tinha em seu caderno – que infelizmente não guardei – uma receita bem conhecida na família: a pizza de sardinha. Como bem se recorda até hoje a esposa de um primo, mais de 40 anos depois, essa pizza era o lanche esperado em todos os meus aniversários. Não era uma receita sofisticada, pelo contrário! Mas era deliciosa e sempre acabava antes de que todos meus primos e tios pudessem estar satisfeitos. Não tenho dom para a culinária, mas pretendo um dia tentar fazer essa receita, cujo ingrediente principal eram sardinhas enlatadas mesmo, pois era o que estava ao nosso alcance nas compras de mercado.
Em conversa com uma prima que é filha de uma já falecida irmã de minha mãe e que também foi minha madrinha, surgiu o comentário de que sua mãe anotava de forma bem sucinta as receitas com indicação do nome de quem as havia fornecido. E ao menos duas dessas receitas ela havia conseguido com minha mãe, a Landa que aparece entre parênteses na imagem que se vê abaixo. É a receita da massa da famosa pizza de sardinha de minha mãe. As duas outras receitas com autoria identificada do caderno de minha madrinha eram de uma sobrinha (Vera) e de uma prima (Leda).

Creio que boa parte das receitas registradas por minha mãe era de doces e lanches de cujo sabor eu talvez ainda me recordasse se não tivesse perdido seu precioso caderno. As dos cadernos de minhas tias deveriam ser muito parecidas, pois elas certamente não se preocupariam em registrar o modo de preparar pratos cujo paladar fosse estranho ao gosto familiar ou que estivessem além de nosso poder aquisitivo.
Todas essas considerações são importantes para o conhecimento das vidas de nossos familiares e antepassados, por isso lhes atribuo enorme valor. E não sou o único, pois, no maior evento mundial de Genealogia em 2024, a genealogista Viviane Pompeu dedicou sua palestra ao tema da culinária familiar. Assista abaixo e delicie-se!
José Araújo é genealogista.