Aos dezoito de junho de mil oitocentos e dois, em cova da Irmandade do Santíssimo desta freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, foi sepultado Felipe Neri, viúvo, envolto e hábito de São Francisco, acompanhado pela sua irmandade do Santíssimo, por mim e mais um sacerdote. Faleceu com todos os sacramentos e foi encomendado. _ Averbação: Passei uma certidão de óbito de Felipe Neri de Moura a requerimento de seu filho, o tenente José de Oliveira Souza
Esse assento de óbito traz algumas informações importantes sobre o falecido que não ficam aparentes a uma leitura superficial. Em primeiro lugar, o falecido deveria ser alguém importante na freguesia de Jacutinga, pois pertencia à irmandade do Santíssimo Sacramento, que era costumeiramente associada às elites da terra. Em segundo lugar, a averbação feita à margem informa que Felipe Neri tinha o sobrenome Moura, que não foi escolhido por seu filho José na idade do crisma, podendo ser um sobrenome da família de Felipe ou ainda da mãe de José, o que não resta esclarecido, pois o assento não informa com quem o falecido havia sido casado, embora declare que era já viúvo em 1802.
Meu interesse por Felipe Neri tem explicação: ele se encontra na linha ascendente de diferentes matches de DNA meus e de meus primos maternos, pelo que suponho que ele seja também meu ascendente. De sua própria ascendência, no entanto, nada se sabe até o momento. Ele se parece um daqueles títulos de obras genealógicas que emergem do nada e deixam enorme descendência. Mas existem algumas pistas sobre Felipe em documentos diversos, como os registros de casamento de seus filhos, de batismo de seus netos e de outras pessoas que viviam na mesma freguesia e ainda no primeiro censo ordenado pelo Conde de Resende em 1797. E é por este último documento que iniciarei minha tentativa de contar um pouco da história de Felipe.
No mapa descritivo da população da freguesia de Jacutinga, encontramos um item sobre Felipe Neri de Moira (sic) em que se informa que ele teria 80 anos em 1797, era já viúvo e morador numa localidade da dita freguesia que se chamava Riachão, mas não há menção à existência de filhos, embora já saibamos que ele teve ao menos um varão chamado José de Oliveira Souza que era tenente. Para minha sorte, logo acima do item referente a Felipe no mapa descritivo se encontrava o do alferes José de Oliveira Soiza (sic) em que se informa que ele teria 43 anos, era já viúvo e tinha cinco filhos menores (dois meninos e três meninas) e uma filha maior. José morava na mesma localidade do Riachão, sendo portanto vizinho de seu pai. Dessas breves linhas do documento podemos deduzir que Felipe deve ter nascido em 1717 e seu filho José em 1754.

Em busca na plataforma do FamilySearch encontrei o assento matrimonial de José com Emerenciana Rosa do Nascimento, celebrado em Jacutinga em 12 de janeiro de 1814, no qual se informa que o noivo era “filho legítimo de Felipe Neri de Moura e de Dona Páscoa Maria de Oliveira”, natural e batizado nesta freguesia, viúvo que ficou de Maria Antônia do Espírito Santo”. Assim temos o nome da esposa de Felipe e descobrimos que José havia sido casado antes, provavelmente em 1774, como seria esperado pelo costume da época. Sua segunda filha do primeiro casamento, batizada em 12 de outubro de 1782, recebeu o mesmo nome da avó paterna: Páscoa. No assento de batismo da menina se informa que os avós paternos eram “ambos naturais desta mesma freguesia de Jacutinga”, pelo que temos já conhecimento do local de nascimento de Felipe Neri de Moura e de sua esposa.
José teve um irmão inteiro chamado Manoel de Moura Álvares, que por vezes é referido como Manoel Alves de Moura. E uma dessas referências vem do assento batismal de Joaquim, seu filho com Eugênia Inácia da Conceição, batizado em 30 de abril de 1780 em Jacutinga. O registro informa exatamente o mesmo que vimos no assento matrimonial de José de Oliveira Souza: os avós paternos da criança eram Felipe Neri de Moura e de Dona Páscoa Maria de Oliveira, naturais e batizados na mesma freguesia. Em pesquisa no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, encontrei o processo de banhos para o casamento de Manoel e Eugênia Inácia (Caixa 2164, Not. 56555), no qual se informa que os noivos eram “muito pobres”, o que me pareceu estranho, considerando que o pai do noivo seria um representante da elite local. No mapa descritivo da população da freguesia de Jacutinga se informa que Manoel de Moura, com 36 anos em 1779, era casado, tinha um casal de filhos menores e morava no local chamado Pantanal da freguesia de Marapicu, ou seja, não era vizinho de seu pai.
Segundo os dados já obtidos, temos o patriarca Felipe, nascido em 1717, que teve apenas dois filhos com Páscoa Maria de Oliveira, sendo um (José) nascido em 1754 e outro (Manoel) nascido em 1761. Chama a atenção que Felipe tenha tido esses filhos com a idade avançada de mais de 30 anos. Ambos os filhos são dados como legítimos, portanto deve ter havido um casamento para Felipe e Páscoa, mas a falta de livros para a freguesia de Jacutinga impede que se confirme tanto o casamento do patriarca quanto o nascimento de seus dois filhos supostamente legítimos. E aqui retomo o tal processo de banhos que informa que um dos filhos (Manoel) era muito pobre quando estava para se casar aos 20 e poucos anos. Tudo muito misterioso.
E para confundir mais o cenário se encontra com facilidade, nos livros disponíveis para Jacutinga, o assento de óbito de Páscoa Maria de Oliveira, em que se informa o que se lê abaixo.
Aos vinte e dois dias do mês de março de mil setecentos e noventa e três anos, em uma das sepulturas de fábrica desta matriz de Santo Antônio de Jacutinga, foi sepultada Páscoa Maria de Oliveira, solteira, de idade de quarenta anos, pouco mais ou menos. Faleceu com todos os sacramentos, foi envolta em mortalha preta e encomendada.
Então temos uma homônima da mãe de José e Manoel que faleceu antes do pai deles, como se esperaria do que foi revelado no assento de óbito com que iniciei este relato. Seria tentador acreditar que fosse a mesma Páscoa, não fosse a revelação deste último assento de que a falecida era solteira e tinha por volta de 40 anos, portanto nascida por volta de 1753, pouco antes de José de Oliveira Souza. De duas uma: ou erraram a estimativa de idade da falecida no assento acima ou poderia ser uma filha ainda não revelada de Felipe e Páscoa Maria de Oliveira. A resposta pode estar no assento de batismo de uma menina chamada Francisca, registrado em Jacutinga em julho de 1779. No assento, se declara que a menina teve por padrinho “Felipe Neri de Moura, viúvo“, portanto a Páscoa que fora esposa deste falecera antes de 1779 e bem antes da Páscoa cujo óbito se lê acima. As datas e a exatidão do nome parecem sugerir que a Páscoa falecida em 1793 fora uma irmã de José e Manoel de que os genealogistas que estudaram essa família não tiveram conhecimento.
Isso é tudo o que se consegue descobrir sobre as origens de Felipe, mas os sobrenomes escolhidos por seus filhos parecem sugerir que na ascendência dele encontraremos os sobrenomes Moura e Álvares ou Alves e que na de sua esposa Páscoa encontraremos os sobrenomes Oliveira e Souza. A busca continua.
José Araújo é genealogista.