A Genealogia sempre teve por fundamento a pesquisa documental, em especial os documentos que registram os dados vitais das pessoas, ou seja, aqueles que informam de seu nascimento, casamento e óbito, pelos quais podemos ter conhecimento de onde e quando cada um desses eventos ocorreu. Esses documentos constituem as fontes primárias – juntamente com testamentos, inventários, cartas de alforria e processos de banhos e inquisitoriais – que normalmente são consideradas o padrão-ouro da boa pesquisa genealógica. Mas será que podemos confiar cegamente nesses documentos?
A resposta não é simples, pois devemos sempre que possível buscar tais fontes primárias, lê-las na minúcia e extrair delas todos os pormenores, ainda que pareçam insignificantes. Por outro lado, não se deve pressupor que tais registros sejam isentos de erros, enganos ou vieses. O caso que passo a narrar foi descoberto enquanto eu pesquisava um ramo colateral de meus antepassados Cordeiros de Peralta, ramo de uma família de origem baiana que se estabeleceu no Rio de Janeiro ainda no século XVII. Esse caso tem relação com Antônio de Peralta, irmão de meu antepassado Tomás Cordeiro de Peralta (1625-1701), filho de Gaspar Cordeiro (de Peralta), cujo assento de óbito se lê abaixo.
Aos trinta e um de março de mil seiscentos e setenta e três faleceu Gaspar Cordeiro. Recebeu os sacramentos [e] fez seu testamento e nele pedia à santa Irmandade da Misericórdia, [de] que fora muitos anos irmão, que o enterrassem pelo amor de Deus […] a venerável Ordem Terceira do Carmo da qual era terceiro e assim foi sepultado na dita Igreja do Carmo, amortalhado no mesmo hábito. Acompanharam seu corpo o seu pároco com seus clérigos e os religiosos do Carmo. Nomeou por seus testamenteiros a seu filho Tomás Cordeiro e Antão Cosme, aos quais pedia fizessem bem por sua alma. // Declarou que tinha em sua casa uma negra por nome Mariana a qual era forra e por tal a trouxera da Bahia, da qual [tivera] uma filha à qual deixava por esmola o enxoval de [Crisma?] e roupa e tudo mais que se achar. // Declarou mais que tinha outra filha mulata por nome Marcelina, a qual é livre e forra por carta que lhe dera. // Declarou que dois mulatos que ficaram forros um forrara por ser seu neto e outro que o forrou […] de serviços que a seu pai […] e não continha mais quanto ao pio. De que fiz este assento.
Os registros de batismo de Tomás e Antônio não foram localizados, mas estima-se que tenham nascido na segunda metade dos anos de 1620. De Tomás, meu antepassado direto, eu sabia a data exata do óbito, porém ele morreu sem deixar testamento, onde poderia ter informado de sua naturalidade. Tampouco existe registro de seu casamento com Inês Muniz Veloso de Barcelos, por isso eu seguiria desconhecendo a origem dos meus antepassados, embora soubesse que os Cordeiro de Peralta eram de origem baiana e descendiam do cristão-novo Afonso Mendes.
De Antônio de Peralta há um registro matrimonial disponível no FamilySearch, onde se lê o seguinte:
Aos dezesseis dias do mês de janeiro de mil e seiscentos e setenta e quatro, às cinco horas da tarde, em a igreja [da in]vocação de São Diogo, por comissão do senhor administrador Francisco da Silveira Dias, recebi por palavras de presente, com bênçãos, Antônio de Peralta, filho de Gaspar Cordeiro e de Maria de Peralta, com Paula Barbosa, filha do capitão Manoel Barbosa Simões e de Maria de Araújo, todos naturais desta cidade. Assistiram por testemunhas Tomás Cordeiro, e o capitão Francisco Monteiro Mendes, e dona Isabel e Maria de Araújo. De que fiz este termo no próprio dia e assinei era acima.

O trecho em que se lê “todos naturais desta cidade” parecia ter esclarecido a questão: os Cordeiro de Peralta da descendência de Gaspar e Maria de Peralta haviam nascido no Rio de Janeiro. Mas será que haviam mesmo? Felizmente, o registro de óbito de Antônio também está disponível no FamilySearch, e nele se lê algo diferente:
Aos vinte e um dias do mês de maio de mil e setecentos e dois, faleceu Antônio de Peralta. Recebeu os santos sacramentos, fez seu testamento, nomeou por seus testamenteiros sua mulher Paula Barbosa e a seu cunhado o licenciado padre Manoel Barbosa […] Declarou que era natural da cidade da Bahia, filho legítimo de Gaspar Cordeiro e de Maria de Peralta, já defuntos, e que era casado com Paula Barbosa, da qual não teve filhos […]
Creio que a informação mais correta, porque provavelmente transmitida pessoalmente por Antônio em seus últimos momentos de vida, era que ele seria natural da Cidade da Bahia, ou seja, Salvador, que naquele momento ainda era a capital do Brasil. Ele havia nascido na mesma cidade de onde seu pai Gaspar havia trazido a negra forra Mariana, com a qual havia tido uma filha que este parece ter reconhecido nos seus últimos momentos, se já não o havia feito antes.
Não fosse a leitura do óbito de Antônio, persistiria a dúvida sobre a naturalidade dos Cordeiro de Peralta que constituíram a primeira geração dessa família no Rio de Janeiro. Agora parece não restar dúvida que ao menos Antônio fosse baiano nativo.
José Araújo é genealogista.