Lacunas

A filiação de meu bisavô Arthur Rabello Guimarães (1868-1917) é um dos mistérios mais duradouros de meu ramo materno. Ele foi registrado como filho natural apenas de Julinda Dias Seabra e Silva (1843-1884), ela mesma filha natural de Eleutéria Rosa da Conceição. As identidades dos pais de Arthur e Julinda segue desconhecida, mas a busca incansável por documentos começou a trazer algumas novidades.

Descobri há poucos meses que meu bisavô Arthur teve um irmão que faleceu em 19 de junho de 1892, aos treze anos, cujo óbito transcrevo abaixo.

Número cinquenta e três. Assento de óbito. Aos dezenove dias do mês de junho de mil oitocentos e noventa e dois. Neste primeiro distrito de paz, freguesia de Jacutinga, cidade de Maxambomba, Estado do Rio de Janeiro, em meu cartório compareceu Fernando José de Oliveira, declarou que ontem, às duas horas da tarde, no lugar de Maxambomba, faleceu Manoel Dias Seabra, idade treze anos, solteiro, cor branca, brasileiro, filho natural de Julinda Dias Seabra, já falecida, a qual faleceu de hidropsia segundo atesta o inspetor do sexto quarteirão, cujo cadáver será sepultado no cemitério público desta freguesia, do que para constar lavrei este termo com que assina comigo o declarante.

É curioso que meu tio-bisavô Manoel tenha recebido o sobrenome da mãe, enquanto seu irmão recebeu um sobrenome diferente, o que sugere que meu bisavô Arthur tenha sido perfilhado em algum momento. O assento de batismo de Manoel poderia trazer alguma informação relevante para esclarecer se ele e meu bisavô Arthur eram filhos do mesmo pai. E mesmo que fossem filhos de pais diferentes, talvez o assento de Manoel trouxesse alguma pista sobre a filiação de sua mãe. Infelizmente ainda não pude encontrar esse assento.

Há alguns dias descobri pela busca de documentos que minha trisavó Julinda, mãe de Arthur e Manoel, também teve irmãos. O primeiro deles, chamado Dionísio, foi batizado em 17 de maio de 1835. Depois dele veio a primeira Rita, nascida em 8 de março de 1839, e a segunda Rita, nascida em abril de 1841. A suspeita é que a primeira Rita tenha falecido – embora seu óbito não tenha sido encontrado – e seu nome dado à irmã, que nasceu alguns anos depois. A persistência do nome teria algum significado?

O assento de batismo de Dionísio traz uma informação inexistente nos de suas irmãs: a filiação de sua mãe Eleutéria Rosa da Conceição, minha tetravó materna. O trecho relevante desse assento informa que o batizado era “neto de Anastácia Rosa”. Não pude ainda encontrar informação sobre Anastácia, mas ao menos consegui avançar mais uma geração nesse ramo familiar tão cheio de lacunas.

Batismo de Dionísio

Como o avanço em mais uma geração não resolveu a questão das filiações incompletas, decidi buscar mais pistas nos documentos já disponíveis. Essas pistas poderiam estar nos nomes dos padrinhos de batismo de Dionísio, das Ritas e da própria Julinda. O assento desta última informa que seu padrinho fora Antônio Soares da Silva (1775-1857), conhecido fazendeiro e escravocrata de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica, no Rio de Janeiro. Os descendentes de Antônio Soares da Silva casaram-se inúmeras vezes com os descendentes de Francisco Antônio Pereira Belém, que deve ser o antepassado mais remoto conhecido de João Pereira Belém, meu outro bisavô materno.

Os padrinhos de Dionísio, da primeira Rita e da segunda Rita foram respectivamente Mariano Antônio da Silva, Joaquim José da Silva Torres (representado por João Batista da Silva e Rita Maria da Silva) e Justino de Souza Coutinho. O sobrenome Souza Coutinho parece significativo, pois uma bisneta de Antônio Soares da Silva chamada Estelita casou-se em 26 de setembro de 1919 com Irineu de Souza Coutinho, que talvez seja descendente de Justino de Souza Coutinho, o padrinho da segunda Rita.

Joaquim José da Silva Torres, padrinho da primeira Rita, foi casado com Bebiana de Moura Torres, pois foi encontrado um registro matrimonial de uma filha desse casal chamada Alcesta Clara Torres. O sobrenome da mãe de Alcesta parece significativo, pois os Moura estão relacionados a minha família de forma ainda não totalmente esclarecida.

Apenas o nome de Mariano Antônio da Silva, padrinho de Dionísio, não trouxe ainda sugestões para pesquisa, mas a busca continua. O mais interessante é que alguns dos padrinhos de minha trisavó e de seus irmãos parecem ser pessoas importantes na sociedade local, cujas famílias se relacionavam. Se eu conseguir confirmar a natureza desses relacionamentos, talvez consiga solucionar o mistério da filiação de meu bisavô Arthur e até das de sua mãe Julinda e sua avó Eleutéria.

Posso resumir a estratégia de busca em ramos com lacunas da seguinte forma:

  1. Persista na busca por documentos e volte sempre a ramos que pareçam sem potencial;
  2. Faça perguntas, levante hipóteses e insista na busca por respostas e soluções;
  3. Leia com atenção todos os documentos disponíveis e não despreze nenhuma infomação;
  4. Analise possíveis relações entre as pessoas – e famílias – cujos nomes são mencionados nos documentos.

José Araújo é genealogista.