Melanização

Minha árvore materna contém ainda alguns ramos por esclarecer e um ramo já meio esclarecido que ainda apresenta um enigma: por que meu bisavô João (ca. 1848-1921) recebeu o sobrenome composto Pereira Belém se seu pai Pedro (ca. 1828 – ca. 1890) era um Gomes de Moraes? A suposição é que minha trisavó Joaquina da Conceição, mãe de João, fosse uma Pereira Belém, família cujo patriarca identificado até o momento foi Francisco Antônio Pereira Belém (ca. 1750 – ca.1833), de origem e filiação ainda incógnitas.

Os Pereira Belém casaram-se por diversas vezes com os Soares da Silva, descendentes de Antônio Soares da Silva (1775-1857), cujos ascendentes estão entre os primeiros moradores da cidade do Rio de Janeiro , alguns inconfidentes e até um membro do Tribunal do Santo Ofício. Casaram-se também com os Moura, descendentes de Felipe Nery de Moura (1740-1802), cuja filiação segue incógnita. Essas famílias eram proprietárias de terras e de escravizados, portanto é plausível supor que fossem brancas.

Mas na descendência dessa tríade familiar houve relacionamentos com escravizados, pois minha trisavó Joaquina possuía DNA mitocondrial africano. Talvez nunca se descubra se Joaquina fora uma mulher escravizada, liberta, forra ou descendente de escravizada. E houve ao menos um caso de reconhecimento de paternidade de filhos tidos com mulher escravizada.

Mas um caso específico chama a atenção por apresentar uma notável variação de cor, se podemos colocar a questão dessa forma. É o caso de Páscoa Carolina de Moura (1841-1891), filha de Joaquim Mariano de Moura Filho (1817-1871) – que era trineto de Felipe Nery de Moura, filho de Antônio Soares da Silva e neto de Francisco Antônio Pereira Belém – e Joana Maria de Jesus (1814-1863) – que era ao mesmo tempo filha de Antônio Soares da Silva e neta de Francisco Antônio Pereira Belém.

Os registros relevantes para análise são o do matrimônio de Páscoa e a transcrição de seu óbito no inventário de seu marido Francisco Antônio Soares da Silva (1871-1905).

O assento matrimonial do casal informa:

Aos vinte e três dias do mês de agosto de mil oitocentos e sessenta e dois, em casa da residência de Joaquim Mariano de Moura, morador nesta freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, sendo dispensados pela autoridade competente do impedimento de consanguinidade em segundo grau atingente no primeiro de linha transversal e dispensados pela mesma autoridade da proclamação dos banhos, e não resultando mais impedimento algum, recebi em matrimônio, à uma hora da tarde, perante as testemunhas assinadas, a Francisco Antônio Soares da Silva, fluminense, idade trinta e quatro anos, e filho legítimo de Antônio Soares da Silva e de Dona Helena Maria de Jesus, ambos falecidos, com Dona Páscoa Carolina de Moura, fluminense, idade dezenove anos, filha legítima de Joaquim Mariano de Moura e de Dona Joana Maria de Jesus Moura. A contraente é natural e batizada nesta freguesia, e o contraente é natural e batizado na de Marapicu. Ambos os contraentes são moradores nesta freguesia. Receberam as bênçãos matrimoniais. De que para constar fiz este assento que assino. – Anotação na margem esquerda: Francisco, brº, fl. […] com Páscoa brª, fl, 19 anos.

A anotação na margem esquerda informa o que já poderíamos supor a respeito do fenótipo de Páscoa com base em sua filiação: ela era uma mulher branca. Seu registro de óbito, no entanto, traz uma informação diferente:

[…] consta o de Dona Páscoa Carolina de Moura, brasileira, natural deste estado, de sessenta anos de idade, de cor parda, do serviço doméstico, viúva de Francisco Antônio Soares da Silva […]

Transcrição do óbito de Páscoa Carolina no inventário de Francisco Antônio Soares da Silva

A discrepância de idade é notável, pois se Páscoa se casou com 19 anos em 1862, ela teria nascido em 1843. Se ela morreu com 60 anos em 1891, teria nascido em 1831. São doze anos de diferença, mas se trata da mesma pessoa em todos os casos – na verdade, ela nasceu em setembro de 1841.

Esse tipo de divergência na informação da idade não é incomum, mas a discrepância de cor da defunta, sim, é algo notável. A razão para tanto é desconhecida, mas, se não houve erro de atribuição no momento da identificação do cadáver, este se torna um caso inédito de melanização que se contrapõe às estratégias de embranquecimento típicas das elites nacionais.


José Araújo é genealogista.

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