Prima

Aos vinte e nove de junho de mil novecentos e vinte, na matriz de Santo Antônio de Jacutinga, batizei solenemente Nadyr, nascida a vinte e dois de setembro de mil novecentos e dezenove, filha [rasurado: legítima] de Alfredo José dos Santos e Maria Pereira Belém, casados só civilmente. Padrinhos: Manoel Pereira Belém e Balbina Maria de Souza. Para constar, fiz este assento, em que me assino. O Vigário, Pe. Manoel da Silva Porto

Em texto publicado anteriormente, discuti as hipóteses que ajudariam a descobrir as origens dos pais de meu avô materno Enéas Pereira Belém – João Pereira Belém e Theodora da Conceição -, sobre quem pouco descobri a partir de provas documentais. Recorrendo à genealogia genética, encontrei pistas que poderiam indicar para meu bisavô uma origem europeia: ele poderia ser um descendente da importante família Pereira Belém de Bananal de Itaguaí (RJ). A dúvida que persiste diz respeito à sua condição de filho ilegítimo e analfabeto aos 52 anos, a qual sugere que ele talvez tenha sido filho de um dos Pereira Belém brancos com uma escrava – ou ex-escrava – da mesma família.

Também no texto citado, mencionei que havia uma prima materna cujo teste genético poderia acrescentar alguma informação sobre o casal João-Theodora. Essa prima é filha de Maria Pereira Belém, uma das irmãs de meu avô Enéas, portanto filha de João e Theodora, tendo herdado desta última o DNA mitocondrial que informaria sobre a origem étnica das mulheres desse ramo familiar. O DNA mitocondrial, como se sabe, é transmitido pelas mães a seus filhos e filhas, mas apenas nestas a herança se mantém de forma contínua pelas gerações.

O assento de batismo de Nadyr, que abre este texto, é justamente o da sobrinha de meu avô Enéas, filha de sua irmã Maria Pereira Belém, por sua vez filha de minha bisavó materna Theodora da Conceição. Nadyr faleceu há algumas semanas, com mais de 90 anos, atestando a longevidade de meu ramo familiar materno.

O que se sabe a respeito dela, no entanto, é que teria recebido o apelido Xindonga por herança de uma antepassada de quem nada se sabe, mas que teria vivido nos tempos da escravidão. Xindonga, como se pode descobrir a partir de uma pesquisa na Wikipédia, é um termo cunhado por etnógrafos para nomear quatro pequenos grupos étnicos de Angola, na África. A área ocupada por esses grupos é vista no mapa abaixo

Mapa étnico de Angola em 1970 – Fonte: Wikipédia

Não hesitaria em descrever Nadyr-Xindonga e meu avô como negros, ainda que o assento de batismo dela não tenha nenhuma informação a respeito de cor. A existência de um ou mais antepassados africanos é indiscutível, mas em que ramo estaria: no de João ou no de Theodora? O teste genético já mencionado poderia trazer alguma pista, mas, para não submeter Nadyr-Xindonga ao procedimento de coleta de DNA, pedi a SLY, uma de suas filhas, que, meses antes do falecimento da mãe, coletasse uma amostra, a qual foi encaminhada ao laboratório FamilyTreeDNA.

O resultado do teste de DNA mitocondrial (L1c1b ) confirmou uma suspeita já trazida pelo apelido de Nadyr: ela descendia em linha materna direta de uma mulher africana. Isso confirmaria a afroascendência de minha bisavó materna Theodora da Conceição, bem como a de sua mãe Maria Gaspar, sobre a qual ainda nada sabemos.

O FTDNA apresenta um match exato para SLY, Nadyr, Theodora e Maria: uma mulher que vive em São José da Laje (AL). Embora não tenha conhecimento de parentes naquele estado, a existência de uma antepassada escravizada traficada entre o nordeste e o sudeste após a proibição do tráfico transatlântico explicaria esse match. Apenas um contato com essa alagoana – cujo e-mail consta no FTDNA – poderá trazer alguma pista mais específica.


José Araújo é linguista e genealogista.

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