Tenho meus dados brutos no MyHeritage, empresa que, em minha opinião, oferece boas ferramentas para análise do DNA autossômico e onde encontro muitas correspondências de DNA ou primos genéticos em algum grau (matches) que me ajudam a esclarecer questões em minha árvore familiar. Há algum tempo, no entanto, comecei a observar o aumento de matches com origens na Espanha e no México que me causaram assombro. Porque não tenho antepassados nesses países, minha primeira suspeita foi de que seriam apenas correspondências por conta de uma ancestralidade ibérica compartilhada. Olhando com mais atenção, percebi que eram matches até relativamente próximos, na faixa de 17cM a 33cM, para os quais a plataforma do MyHeritage me dá um parentesco de 4º a 5º graus. Um mistério, sem dúvida, mas parece que tem explicação.
Reconheço que tenho ramos maternos ainda mal documentados, mas em nenhum deles me parece haver uma ascendência espanhola ou mexicana. Meus ramos paternos são bem documentados e todos portugueses desde meus avós. A explicação pareceu surgir quando selecionei para análise um desses matches mais recentes – cujo nome vou abreviar como Maria LL – , que se apresenta como uma mulher de ascendência espanhola e mexicana. Compartilho com Maria exatos 33.3 cM, o que nos daria um parentesco de 4º ou 5º grau. Para que tal parentesco pudesse ser atestado, um de meus tetra ou pentavós teria de também estar na árvore dela, mas, como já expliquei, não há espanhóis nem latino-americanos em minha árvore familiar nem em ramos mais remotos de quem eu poderia ter herdado algum DNA detectável.
O aspecto interessante é que Maria LL e eu temos matches em comum com os quais a ferramenta informa existir algum segmento de DNA triangulável. Isso que sugere que realmente existiria um antepassado compartilhado por todos nós do qual teríamos herdado esse segmento de DNA autossômico que seria idêntico por descendência (Identical By Descent ou IBD em inglês). Analisando esse segmento triangulável, constatei que ele sempre ocorre na mesma posição do cromossomo 15, como mostro na imagem abaixo. Seria apenas coincidência? Parece que não.

O tal segmento IBD se localiza em uma região do cromossomo 15 já bem conhecida e chamada de região de acúmulo (pile-up region em inglês) e que pode ser explicável por haver nessa parte do cromossomo uma sequência de DNA que tenha conferido alguma vantagem evolutiva a uma população antiga – aos iberos, talvez? – e assim permitiu que ela tivesse maior descendência. Como resultado dessa vantagem, há hoje um enorme conjunto de pessoas que apresentam essa mesma sequência que é detectável pelos testes autossômicos, produzindo um fenômeno chamado de IBD Excessivo.
No cenário descrito, esses tantos matches podem ser mesmo meus primos distantes, mas de uma distância tão remota que nem vale a pena perder tempo buscando nas árvores deles um antepassado que pareça ter relação com os meus. Neste caso específico, fiz um descolamento entre a genealogia genética e a genealogia documental, que de outra forma considero sempre complementares.
Por fim, é importante esclarecer que a tal região do cromossomo 15 não é a única região de acúmulo conhecida. Existem outras em outros cromossomos e para diferentes populações e que podem afetar a forma como os matches de outros clientes de Genealogia Genética são apresentados.
José Araújo é genealogista.