Minha única ancestral ameríndia identificada até o momento se chama Teresa Barbosa de Jesus, uma mulher nascida perto de 1690 na vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, São Paulo, e provavelmente falecida na vila de Guarapiranga, Minas Gerais. Suspeito que a extensão geográfica percorrida por ela e seu marido João Jaques (ou Jácome) de Almeida, também taubateano, tenha relação com a descoberta do ouro pelos paulistas nas terras mineiras. Os filhos do casal nasceram em Taubaté – Luzia (1713) – e em Guarapiranga – Inácia (1718), Rosa Maria (1719), Leonor (1720) e Agostinho (1736) – e herdaram de Teresa o haplogrupo mitocondrial B2, característico de mulheres ameríndias e muito provavelmente falantes de línguas do tronco macro-jê. Não creio que ela seja minha única ancestral indígena, afinal meu ramo materno é colonial e bem antigo, mas não documentei a existência de outra e tampouco meu exame de DNA autossômico informa de uma ancestralidade ameríndia. Mas os exames de dois de meus primos maternos informam algo diferente.

Vila de Taubaté no fim do século XVI segundo Paulo Camilher Florençano

Desses primos, WIL é o que tem composição familiar mais semelhante à minha, pois um ramo (materno meu e paterno dele) é 100% português, e o ramo complementar é idêntico, pois somos primos de primeiro grau. A prima SUE, por outro lado, compartilha comigo e com WIL o casal de bisavós João Pereira Belém (1848-1921) e Teodora Maria da Conceição (1861-?). Disso se deduz que, se há uma ancestralidade ameríndia detectável no teste de WIL, ela teria de vir de seu ramo paterno, ou seja, de um de nossos bisavós em comum. SUE poderia também ter antepassados ameríndios por seu ramo paterno, oriundo de Minas Gerais, com o qual eu e WIL não temos relação de parentesco.

O DNA autossômico ameríndio foi detectado nos exames deles pela ferramenta Chromosome Painter da plataforma FamilyTreeDNA, por onde eles fizeram seus testes. Por meio dessa ferramenta, exportei os dados autossômicos deles já segmentados por continente-etnia para poder compará-los. A expectativa era de localizar segmentos ameríndios coincidentes, ou seja, de extensão aproximadamente igual e no mesmo cromossomo, o que sugeriria se tratar de uma herança Idêntica por Descendência (IBD em inglês), ou seja, um segmento de DNA autossômico herdado de um mesmo antepassado. As possibilidades de identificar por qual de seus ramos (paterno ou materno) – o haplótipo – eles haviam herdado os tais segmentos eventualmente coincidentes e de assegurar que, ao menos no caso de WIL, esses segmentos haviam sido herdados por seu ramo paterno, trariam mais segurança à análise.

No caso de WIL foram detectados sete segmentos relevantes – três deles somando 21,1 cM no cromossomo 15 -, dos quais 91% se concentravam em um único haplótipo, indicando que ele os havia herdado do mesmo ramo familiar, que, pelo que já sabemos sobre sua ascendência imediata, seria o paterno. Para SUE foram detectados 17 segmentos relevantes, distribuídos de forma relativamente equilibrada entre os dois haplótipos, confirmando que ela teria ascendência ameríndia por ambos os ramos familiares. Felizmente, um dos segmentos foi praticamente coincidente entre eles. Ele se localiza no cromossomo 5, na posição 168.216.489–170.899.404 para WIL, com 5,31 cM de extensão; e na posição 168.216.489–171.593.223 para SUE, com 7,20 cM. A sobreposição quase perfeita sugere fortemente uma herança IBD, ou seja, que esse segmento foi herdado do mesmo ancestral ameríndio.

A análise de segmentos confirmou que SUE e WIL compartilham ao menos uma ancestral ameríndia pelo ramo familiar que compartilham e no qual também me incluo, embora não eu tenha herdado DNA dessa ancestral. A quantidade de cM herdado por meus primos se encaixa na previsão de um antepassado de 6ª a 10ª geração, o que parece coincidir com uma herança recebida de nossa octavó taubateana Teresa Barbosa de Jesus, embora possa ter relação com outra ancestral ainda não detectada por via documental.


José Araújo é genealogista.