Talvez nem todos os leitores deste blogue saibam, mas uma atividade à qual me dedico com muito prazer é o guiamento histórico na área central da cidade do Rio de Janeiro. O interesse por esse guiamento surgiu após eu participar de inúmeras visitas oferecidas na mesma área por outros guias e por instituições como o Instituto Pretos Novos (IPN). Sempre que participava desses eventos, eu sentia uma estranha familiaridade com muitos dos lugares que eram visitados, ainda que pudessem ser considerados perigosos ou feios pelos moradores da cidade, mais familiarizados com as praias, as trilhas de floresta ou os atrativos turísticos como o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar.
O curioso é que eu trabalhei nessa mesma região por mais de 20 anos e já tinha essa sensação de familiaridade com trechos específicos por onde eu passava diariamente a caminho do trabalho ou de casa. Não sou por natureza uma pessoa impressionável ou mesmo mística, portanto não creio que haja alguma explicação sobrenatural para o fato e sempre atribuí essa sensação à minha curiosidade de descobrir como seria a vida naqueles lugares em séculos passados.
Quando comecei a me interessar pela Genealogia, há quase 20 anos, inicialmente pesquisei meu ramo paterno, oriundo de Portugal, que tem volumosa documentação paroquial e histórica bem preservada e até já digitalizada, o que me permitiu avançar pelos ascendentes até o século XVI. Meu ramo materno, que até onde eu pude descobrir era predominantemente brasileiro, ficou durante muito tempo estagnado pela dificuldade de encontrar registros documentais e pelo fato de que meus bisavós eram filhos de pais desconhecidos.
À medida que eu me tornava mais experiente na pesquisa e desenvolvia estratégias, comecei a esclarecer a paternidade de alguns dos meus bisavós maternos. E foi dessa forma que tive a surpresa de ligar meus antepassados maternos diretos a alguns dos primeiros colonizadores do Rio de Janeiro – descritos na obra de Carlos Rheingantz. Subir tão longe nesses ramos me permitiu encontrar outros tipos de documentos, como escrituras de compra e venda de terras, pelas quais consegui fazer descobertas que mesmo o genealogista citado não havia conseguido demonstrar em seu tempo.
Foi durante a busca por escrituras que encontrei um registro de venda de uma propriedade no qual constam os nomes de meus antepassados João Pacheco Cordeiro de Peralta (1711-1760, de ascendência baiana) e Inês Muniz Veloso de Barcelos (1716-1777, de ascendência açoriana). Segundo tal documento, o casal vendeu à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo uma propriedade que possuía no centro da cidade do Rio de Janeiro. É um trecho desse documento que transcrevo ipsis litteris abaixo, com destaques para as informações relevantes.
Escriptura de venda de hua morada de cazas terreas q. fas João Pacheco Cordr.º deperalta ao Prior e mais Irmaons da Ordem Tra. de nossa Snra. do Carmo desta cidade e quitação. Saibam quantos este publico instrumento de Escriptura de venda de huma morada de cazas terreas e quitação virem q. no anno do Nascimento de Nosso Snr. Jezus Christo de mil setecentos cincoenta e tres aos quatro dias do mez de Agosto do d.º anno nesta cidade de Sam Sebastiam do Rio de Janeiro em cazas de morada de mim Tabaliam ao diante nomeado aparecerão prezentes partes havindas e contratadas a saber de hua banda como vendedores João Pacheco Cordeiro de Peralta e sua mer. Donna Ignes Monis de Barcellos moradores na Frega. de Sancto Antonio de Jacotinga e da outra como compradores a Meza da veneravel ordem tra. de nossa sra. do Carmo […] que afirmarão ser a propria. – Logo pello dito João Pacheco Cordr.º e sua mer. uniformemte. e cada hum digo e por cada hu de persy insolidum me foy dito perante as mesmas testemunhas q. entre os mais bens de raiz q. tem e de q. estão de posse passificamente, habem assim huma morada de cazas terreas já denificadas com as paredes de páo a pique citas nesta cidade no canto da rua de São Pedro que de hua banda partem com cazas terreas de qm. direito for, e da outra fazem canto correndo os fundos pa. a rua que fica por detrás de Igreja do Snr. Bom Jezus, cujas cazas lhe ficarão pertencendo na partilha que amigavelmte. elle dito vendedor fes com seus Irmãos porfallecimento de seu Pai Gaspar Coddr.º de Peralta sem embargo que da da. partilha não fizerão clareza alguma porserem todos os herdeiros mayores de vinteesinco annos, e cada hum se contentar com outros bens que levarão do mesmo cazal […]
Segundo registro encontrado no Banco de Dados da Estrutura Fundiária do Recôncavo da Guanabara, compilado por Maurício de Almeida Abreu, em 1872, “essa casa, ainda térrea, tinha o número 175 da rua dos Ourives”, que é a atual Rua Miguel Couto. O mapa abaixo fornece uma localização aproximada de onde ficava o imóvel vendido por João e Inês.

Destaco da imagem do documento transcrito acima um trecho que foi assinalado e comentado a lápis, onde se pode encontrar a indicação de qual seria o endereço atual do logradouro onde existiu o imóvel vendido por meus antepassados.

A tal “morada de cazas terreas já denificadas com as paredes de páo a pique” localizava-se, então, na atual Rua Miguel Couto, número 99, praticamente ao lado da igreja de Santa Rita de Cássia. Por uma dessas coincidências, esse endereço ficaria ao lado de um dos escritórios da empresa onde trabalhei durante vários anos. Parece que o destino fez com que, muitos séculos após a morte desses meus antepassados, eu circulasse nas proximidades de um imóvel que lhes pertencera por algum tempo. E, não por acaso, esse era um dos lugares nos quais eu sentia tal familiaridade que descrevi lá no início.
José Araújo é genealogista.