O conhecimento da Paleografia, a ciência da leitura e transcrição de textos antigos, é essencial para o bom desempenho nas pesquisas genealógicas. De modo geral, mesmo quem nunca se dedicou ao seu estudo costuma em pouco tempo adquirir familiaridade com os estilos e formatos de letras nos manuscritos dos séculos XIX e XX. O problema se verifica quando se avança para trás nos séculos e os estilos se tornam mais complexos, e os suportes se apresentam muito danificados. Em casos assim, mesmo um paleógrafo profissional terá que despender esforço para entregar uma transcrição capaz de fundamentar um estudo genealógico. Para sorte dos que ainda não conseguiram se aperfeiçoar nessa ciência, a tecnologia da Inteligência Artificial já acena com ferramentas potencialmente facilitadoras.
Uma dessas ferramentas acabou de ser divulgada pela empresa MyHeritage durante o RootsTech 2026, evento global dedicado à Genealogia e à História da Família. Segundo o release da empresa, a ferramenta, batizada como Scribe AI, transcreve, traduz e interpreta documentos históricos e fotografias, bastando que para isso se suba na plataforma uma imagem digitalizada do registro em questão. Para além disso, ela também fornece um contexto histórico sobre o gênero do documento (assento paroquial, inventário, processo inquisitorial) e sobre suas características específicas. Diante da crescente disponibilidade de documentos antigos digitalizados em repositórios como o FamilySearch e o Projeto Resgate, o valor da Scribe AI torna-se evidente mesmo para o pesquisador pouco experiente – e especialmente para ele.
Para verificar a capacidade dessa nova ferramenta fiz três testes subindo as seguintes imagens de textos manuscritos antigos:
- um trecho do processo inquisitorial de Bento Teixeira da segunda metade do século XVI;
- um assento matrimonial da primeira metade do século XVII da freguesia da Sé do Rio de Janeiro; e
- uma página contendo quatro registros matrimoniais da segunda metade do século XVIII da freguesia Nossa Senhora da Purificação da Vila de Oeiras, Portugal.
Após uns minutos processando cada documento enviado, a ferramenta entregou um relatório prévio com informações sobre o tipo de documento em questão e seu contexto histórico; extraiu dados sobre os as pessoas mencionadas nos textos, tendo cometido poucos erros no reconhecimento de alguns sobrenomes e nomes de localidade; destacou alguns aspectos de interesse, como a diversidade geográfica das origens das pessoas nomeadas, a existência de dispensas de consanguinidade no registro matrimonial do século XVIII e os fatores que levavam as pessoas a denunciarem seus vizinhos ao Santo Ofício; sugeriu novas etapas de pesquisa; e, finalmente, forneceu transcrições completas até bem aproveitáveis. Se um dos documentos estivesse em idioma estrangeiro, ela poderia ainda apresentar uma tradução em português.
Como os documentos que forneci à ferramenta poderiam ser lidos e transcritos por pesquisadores com alguma experiência, decidi tentar algo mais complexo e forneci a imagem abaixo, de trecho de um alvará datado do início do século XVII (1609), redigido em letra processada, estilo que costuma ser de grande complexidade para pesquisadores não treinados. A seguir apresento para sua avaliação a imagem desse documento e uma transcrição em português contemporâneo feita pela Scribe AI.

[Margem esquerda] Manoel dos Rios [Margem direita] Leitão Eu el Rey faço saber a vos provedor da fazenda que a bem do meu serviço e pelos serviços que me tem feito Manoel dos Rios e a boa informação que me foi dada de suas partes e qualidades e por confiar dele que no que o encarregar o fará como cumpre a meu serviço hei por bem de lhe fazer mercê do ofício de provedor das fazendas dos defuntos e ausentes da capitania do Rio de Janeiro por tempo de três anos que começarão do dia que tomar posse em diante e declaro que não se intrometa a arrecadar as fazendas dos defuntos que os testadores deixarem por seus testamentos que se entreguem a alguma pessoa particular nem nomeada e declaro que não intrometa com as fazendas dos defuntos naqueles em que os donos ou seus procuradores daquelas que outras pessoas e testamenteiros e herdeiros se intrometam quando as ditas pessoas a que as ditas fazendas se mandarem entregar residam na terra ou em paragem de onde possam ser chamados dentro de trinta dias pouco mais ou menos e não o fazendo se entreguem ao dito provedor e não o cumprindo assim o capitão ou provedor da terra poderão proceder contra o dito Manoel dos Rios como visto for para cumprir o que lhe ordeno…
Fiz duas tentativas com a mesma imagem em dias diferentes e observei que o resultado nem sempre é igual. Em uma tentativa inicial, por exemplo, a ferramenta transcreveu corretamente – e ipsis litteris, sem adaptação ao português contemporâneo – o trecho inicial “Eu el Rey faço saber aos q[ue] este alv[ar]a virem q[ue] a bem de meu servico e p[el]os m[ui]tos q[ue] me tem f[ei]to manuel dos rios“, cuja parte destacada aqui em negrito é uma formulação característica desse tipo de documento. No trecho que exibo acima, pode-se perceber que a tal formulação foi suprimida ou substituída por algo que não faz sentido, podendo representar uma alucinação da IA.
Reconheço que os testes que fiz não foram exaustivos, mas os resultados apresentados por essa nova ferramenta pareceram promissores em comparação com os de outras que já explorei. Nos grupos do Facebook dedicados à Genealogia, encontrei comentários nesse mesmo sentido. Torçamos para que a MyHeritage continue investindo no aperfeiçoamento da Scribe AI de forma que ela passe a apresentar resultados consistentes para um mesmo documento.
José Araújo é genealogista.