Então você faz um teste de Genealogia Genética desses que estão se tornando cada vez mais populares e descobre, em um misto de surpresa e entusiasmo, que tem uns 8% de uma insuspeita ascendência italiana. Você já se anima até a buscar documentos na casa de sua avó para tentar conseguir um passaporte da União Europeia. De quebra, você também descobre centenas de primos genéticos que nem têm os sobrenomes da sua família, mas que devem ser seus parentes. Você, então, imagina que pode tentar fazer contato com esses primos, pois eles podem já ter conseguido a tal cidadania italiana e talvez sejam de grande ajuda em sua tentativa. Para você que se encontra nessa situação ou em outra parecida, só tenho um conselho: não vá com tanta sede ao pote.
Em primeiro lugar, os tais 8% de ascendência podem não corresponder à realidade e já expliquei o porquê em outro texto – vale parar um pouco e clicar para ler antes de seguir. E tem mais: um percentual de 8% de alguma ascendência estaria na faixa dos seus trisavós, e as leis nacionais costumam estabelecer limites claros da geração dos ascendentes pelos quais um descendente pode pleitear a cidadania em cada país europeu. Assim, mesmo que você encontrasse um trisavô italiano, não poderia pleitear a cidadania daquele país por meio dele.

Mas vamos imaginar que você realmente tenha um avô que emigrou de algum país europeu, e que esse país permite que hoje você pleiteie a nacionalidade. Mas imagine também que você não saiba onde esse avô nasceu. Isso foi exatamente o que aconteceu comigo: meu avô era português, mas nenhum de seus filhos vivos sabia onde ele havia nascido. Coube a mim resolver esse mistério, mas eu tive a sorte de saber, por um meio-sobrinho de meu pai, que havia uma carta que contava algo a respeito. A carta não trazia a resposta, mas indicava um caminho: Viseu. Com alguma pesquisa, descobri o registro de desembarque de meu avô com sua primeira esposa e filhos no Porto de Santos e lá estava declarada a naturalidade deles.
Vamos, agora, imaginar que você não tenha encontrado nenhuma carta, nenhuma pista sobre a origem desse seu avô europeu. Nesse caso, os tais primos genéticos poderão ajudar. Se você conseguir descobrir quais deles estão relacionados ao ramo desse avô, poderá fazer contato e pedir informações como explicarei adiante. Por agora, caso você não consiga de imediato identificar quais dos tais primos genéticos são do ramo de seu avô, talvez você precise testar outro parente ligado a ele. Se o avô europeu for paterno, você precisará testar seu pai, um tio paterno ou um primo paterno. Os primos genéticos que aparecerem também nos resultados desse outro parente testado serão do mesmo ramo de seu avô europeu e candidatos a receber seu contato.
Agora vamos ao contato com os primos genéticos do ramo de seu interesse. A ideia não é entregar o jogo de cara e, sim, ganhar aliados, pois muitas vezes você nem conseguirá despertar o interesse das pessoas e, por outro lado, poderá até assustá-las. Imagine que nem todo mundo faz esses testes genéticos recreativos para encontrar parentes. Alguns poderão temer que você esteja em busca de uma herança ou algo parecido, e tudo o que você conseguirá será uma rejeição ou um bloqueio imediato. Faço pesquisa há mais de uma década e nem me lembro mais de quantas mensagens minhas ficaram sem resposta de meus primos genéticos.
Se a ideia é ganhar aliados sem assustar, sua mensagem deverá atiçar a curiosidade do seu leitor, portanto na primeira mensagem evite falar em coisas como centimorgans, haplogrupos e outros detalhes que possam soar técnicos demais. Veja este exemplo:
Olá, Juliana!
Você também fez o teste do Genera, não foi? Seu nome apareceu para mim e para meu tio paterno, por isso eu acredito que sejamos primos por algum antepassado português, pois meu avô paterno era português. O nome dele era Joaquim das Couves, e ele faleceu em 2015.
Seu Joaquim, como os netos o chamavam, era muito engraçado, mas não gostava de falar de como era a vida dele antes de vir para o Brasil, por isso nunca ficamos sabendo de onde ele saiu em Portugal. Como ele gostava muito das praias aqui do Rio de Janeiro, acredito que ele tenha nascido em uma cidade litorânea, mas é só achismo meu.
Você tem mesmo algum avô ou bisavô português? Sabe algo sobre a origem dele? Talvez você possa contribuir com alguma informação que me ajude a descobrir a origem do ‘seu Joaquim’. Se você não fez o teste com a intenção de receber esse tipo de contato, peço desculpas pelo incômodo.
Abraço,
José
Se esse primeiro contato surtir efeito, talvez você possa dar mais alguns detalhes sobre sua família e seus costumes. Em termos gerais, a estratégia vale tanto para casos de busca de informações que possam conduzir a um processo de cidadania quanto para casos de busca da identidade de um genitor biológico – seja pai ou mãe. Neste segundo caso, você deverá ter ainda mais tato para que o destinatário da mensagem não tema que você seja um meio-irmão que busca dividir a herança familiar. O exemplo abaixo pode servir como orientação.
Olá, Fernando!
Seu nome apareceu para mim como primo de segundo ou terceiro grau no resultado de meu teste do Genera. Isso quer dizer que temos um casal de bisavós ou trisavós em comum, e eu acredito que sejam do lado de meu pai, pois seu nome não aparece para minha mãe nem para minha avó materna, que também fizeram teste pelo Genera.
Isso é fascinante! Não conheci meus avós paternos, mas minha mãe e minha avó sempre disseram que meu pai tinha família em Curitiba, Paraná. Sua família também é paranaense?
Talvez você possa contribuir com alguma informação que me ajude a encontrar o ramo paranaense de minha família. Se você não fez o teste com a intenção de receber esse tipo de contato, peço desculpas pelo incômodo.
Abraço,
José
Por fim, é importante saber que valerá mais a pena gastar seus cartuchos com os primos genéticos do ramo relevante que tenham mais DNA compartilhado – maior valor de centimorgans (cM) – em comum com você e seu outro parente testado do mesmo ramo, pois isso indicará um parentesco mais próximo e com mais facilidade de identificação por meio de genealogia documental.
José Araújo é genealogista.