No dia 13 de agosto de 1591, Gaspar da Palma, “sacerdote cônego” da cidade de Salvador, compareceu à residência de Heitor Furtado de Mendonça, “sem ser chamado”, para “denunciar coisas tocante ao Santo Ofício”. Heitor era o visitador da Inquisição e fora enviado à capital da colônia para vigiar, investigar e punir desvios religiosos e morais que ameaçavam a ortodoxia católica. Entre os tais desvios estavam os cometidos pelos cristãos-novos, judeus convertidos ou descendentes deles, de quem se suspeitava que mantivessem os costumes religiosos – rezas, preceitos dietéticos, preservação do dia santo (shabat) – que eram proibidos aos cristãos, fossem eles convertidos ou não. Em suas denúncias, Gaspar implicou vários membros da família do cirurgião cristão-novo Afonso Mendes – o mestre Afonso – , que viera para a colônia em 1557 com o governador-mor Mem de Sá trazendo a família que formara em Portugal com a cristã-nova Maria Lopes. Nessas denúncias encontramos várias informações de valor genealógico.
A primeira denúncia diz respeito aos abusos contra um crucifixo que eram praticados na casa de certo Antônio Serrão e de sua mulher, que é identificada como “irmã de Maria Lopes”. Esta Maria por certo deve ser a mulher de Afonso Mendes, pois a denúncia seguinte se refere à “dita Maria Lopes”, que era acusada de ter “a bíblia em linguagem”, o que deve se referir a uma versão traduzida do livro sagrado, que deveria circular apenas em Latim eclesiástico. E ratifico que a Maria Lopes duplamente citada era mesmo a mulher de Mestre Afonso porque a denúncia seguinte diz respeito a um dos filhos que ela teve com Mestre Afonso: Álvaro Pacheco, de quem falaremos adiante. O que importa por ora é registrar que Maria Lopes tinha uma irmã não nomeada na denúncia do cônego que vivia na Bahia e era casada com um cristão-novo chamado Antônio Serrão. Esta irmã, sabemos, se chamava Clara Fernandes, pois foi identificada em outra denúncia, feita por Catarina Lobo contra Antônio Serrão, em 21 de agosto de 1591.
A denúncia seguinte do cônego é a que nos interessa aqui. Segundo relata o religioso:
[…] ouviu dizer a Manoel da Veiga, escrivão da alcaidaria, haverá dois meses em casa do padre cura Manoel Rodrigues e perante ele que nesta cidade se casaram um cristão-novo com uma cristã-nova, parentes, ao modo e com os ritos da lei velha, e que outros seus parentes lhes deram as mãos e lhes fizeram as cerimônias e os lançaram logo na cama ao modo judaico […]
Na fonte consultada, existem, à margem desse trecho, algumas averbações que esclarecem o caso. Na primeira delas lê-se que:
P. disse que Fernão Ribeiro lhe disse que Domingos Afonso, genro de Antônio Rodrigues da [Guaíba], freguês ora de [I]taparica, lhe contara isto e que estes eram Álvaro Pacheco e sua prima, cristãos-novos.
Na segunda averbação lê-se que:
P. Este Domingos Afonso jurou que frei Sebastião, já defunto, que foi capelão do engenho de Diogo Lopes Ilhôa [ou Ulhôa], cristão-novo, lhe contou que Álvaro Pacheco e sua prima coirmã, cristãos-novos, se casaram ao modo judaico nesta cidade e que o dito Ilhôa os recebera com as cerimônias judaicas e que mais não sabe que isto que lhe disse o dito defunto.

Segundo a denúncia de Gaspar de Palma, o filho de Maria Lopes casou-se segundo os preceitos da religião judaica – “a lei velha” – , o que era expressamente proibido para um converso como ele. E foi um casamento endogâmico e consanguíneo, pois a noiva também era cristã-nova e era prima coirmã de Álvaro, isto é, sobrinha de sua mãe, o que concluímos por não haver registro de que mestre Afonso tivesse trazido irmãos para o Brasil.
Parece que o tal casamento irregular à moda judaica foi de certa forma oficiado pelo cristão-novo Diogo Lopes Ulhôa, que em texto anterior soubemos ser um homem tão importante que por seu nome era conhecida uma travessa dentro dos muros da cidade de Salvador onde moravam Maria Lopes e outros cristãos-novos. Aqui tomo a licença poética de apelidar essa travessa de “a rua dos judeus de Salvador”, à semelhança da que existiu em Recife.
Por fim, cabe comentar a continuação do relato do cônego, pois ele traz mais um detalhe de valor genealógico:
[…] e que depois de ela [a noiva e prima de Álvaro] estar prenhe publicamente então pediram dispensa do parentesco e se casaram em forma da Igreja […]
Por esta curta frase descobrimos que Álvaro e sua prima podem ter tido ao menos um filho algum tempo depois do casamento à moda judaica e que o casal casou-se oficialmente na Igreja, estando a noiva visivelmente grávida, ou “prenhe publicamente”, como relatado. Não se tem notícia da geração deste filho de Mestre Afonso e Maria Lopes, mas é possível que um surja uma fonte primária da época que nos traga essa informação.
José Araújo é genealogista.