Após a transferência da jovem cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro para o Morro do Castelo em 1567, as ordens religiosas começaram a se estabelecer nesse morro (jesuítas) e no seu entorno (beneditinos, franciscanos e carmelitas). Os pioneiros frades da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Monte do Carmo chegaram à cidade em 1590 e se estabeleceram na antiga ermida de Nossa Senhora do Ó, que ficava diante da praia, onde depois passaria um dos principais eixos comerciais e políticos da cidade: a Rua Direita. Em 1611, eles receberam terras adjacentes onde começaram a construir seu convento em 1619. Além da Ordem Primeira, ali também se estabeleceu a Ordem Terceira do Carmo, fundada em 19 de julho de 1648, a qual se tornaria uma das instituições religiosas leigas mais antigas e socialmente importantes da história carioca.

Os terceiros, como eram conhecidos, eram cidadãos que viviam no mundo, tinham família e exerciam diversas atividade profissionais, mas adotavam a espiritualidade carmelita, regras próprias e determinadas práticas devocionais. Sua ordem era vizinha do coração político, econômico e cerimonial do Rio de Janeiro, o que pode nos ajudar a compreender o poder econômico e o capital político que estavam nas mãos desses cidadãos. Entre os fundadores da ordem terceira estavam cidadãos portugueses que já haviam professado como terceiros na corte e haviam se transferido para a colônia. A eles se associariam outros portugueses e brasileiros que já estavam inseridos nas redes comerciais, na administração colonial, nas atividades marítimas e nas atividades agrícolas.
Para que pudesse existir, a ordem terceira precisava ter sua regra aprovada pelos superiores da ordem primeira além de receber confirmação canônica, por isso nos primeiros tempos os terceiros ficaram estritamente subordinados aos frades. Essa subordinação se verificava mesmo na celebração dos atos religiosos, que os terceiros realizavam na igreja do convento após acordo feito com os religiosos. Os terceiros apenas tiveram seu próprio templo, ainda que dentro dos muros do convento, depois de 1669, quando construíram a Capela da Paixão de Cristo nos fundos do convento. Alguns anos depois, em 1692, como desejavam ampliar a pequena capela e aumentar a quantidade de imagens exibidas no culto dos Passos do Senhor, eles solicitaram licença aos frades para abrirem no claustro mais capelas, que se comunicariam com a já existente.
A separação definitiva ainda demoraria quase 80 anos e custaria uma relação conflituosa com os frades, até que o prior e os irmãos da mesa dos terceiros solicitaram ao rei D. João V umas casas “como esmola para a edificação da capela da irmandade“. O templo que foi erguido teve sua pedra fundamental lançada em 1755 no terreno que fica ao lado da igreja conventual. Resultado de um século de intervenções, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo – hoje, infelizmente, em condições precárias de conservação – foi reconhecida pela sua monumentalidade, testemunho do crescimento da cidade e da riqueza de seus irmãos professos, para os quais ela servia como uma declaração pública de seu poder e importância na sociedade colonial. É dela a descrição feita pelo padre Luiz Gonçalves dos Santos (1767-1844), mais conhecido como Padre Perereca, o qual foi cronista durante o reinado do príncipe regente Dom João VI:
capela dos terceiros, separada da igreja por um extenso corredor descoberto, fechado nas extremidades por dois portões de pedra com grades de madeira, e das casas vizinhas por um beco chamado dos Barbeiros; a fachada desta capela é toda de cantaria; e com uma portada de mármore a mais bela, a primorosa de todas quantas há nesta cidade, não tanto pela matéria, quanto pelo bom gosto, perfeição e delicadeza de escultura; o frontispício é coroado por uma grande cruz de bronze dourado, mas por não estar ainda acompanhado das duas torres, que deve ter segundo o risco, não faz ainda efeito, que fará quando elas se levantarem. Esta capela interiormente é muito clara, asseada, e formosa, tem sete altares, e somente os colaterais estão dourados, toda a mais talha, que a orna de cima até abaixo, é branqueada. O noviciado é coisa linda, e encanta. Tem esta Ordem seu hospital nos fundos da mesma capela, e com frente para rua de detrás do Carmo; e por atrás da igreja dos frades onde antigamente fundaram os terceiros a primeira capela, estão as suas catacumbas
É com as catacumbas que ficavam na antiga capela que sigo neste relato. Entre 2007 e 2008, durante a restauração da Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo – que foi a antiga Sé – foram realizadas escavações e pesquisas dirigidas pelo arqueólogo Ondemar Ferreira Dias Júnior (1939-2026), fundador do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). A equipe do IAB realizou escavações em diferentes partes do sítio, entre eles a já citada Capela do Senhor dos Passos, e encontrou 43 sepulturas e ossários, datados dos séculos XVII ao XIX. Para análise paleogenética foram utilizados 28 sepultamentos com 32 indivíduos, dos quais se buscou conhecer a idade, o sexo e a ancestralidade, neste caso por meio da identificação do DNA mitocondrial. Também foi feito um rastreio para evidências de doenças.

Entre os sepultamentos primários, a maioria dos indivíduos era de adultos jovens, com menos de 30 anos (78%). Entre aqueles nos quais foi possível determinar o sexo, havia exatamente 8 homens e 8 mulheres. Dos 23 indivíduos que puderam ter o DNA analisado, descobriu-se que 91,3% possuíam linhagens mitocondriais classificadas pelos autores como europeias – H, J1b, K1a, N, N1b1, R1, T1/T5, T2a, U1b, U5, U22 e V – sendo o haplogrupo U o mais frequente, correspondendo a aproximadamente 26% dos indivíduos. Um haplogrupo africano L e um ameríndio C apareceram apenas em sepultamentos secundários. Infelizmente, os artigos publicados não informaram quais dos indivíduos estavam sepultados dentro da Capela do Senhor dos Passos e tampouco a época estimada de sepultamento. Enviei questionamento aos autores, mas não tive resposta até o momento.

As análises revelaram material genético da bactéria da tuberculose em 17 dos 32 indivíduos, quase todos de ascendência europeia – 14 dos 17 positivos nos sepultamentos primários. Havia sinais moleculares sugestivos de tuberculose pulmonar ativa, ainda que os ossos não apresentassem lesões típicas de tuberculose. Os pesquisadores acreditam que muitos daqueles indivíduos, membros da elite de sua época, podem ter desenvolvido uma doença pulmonar aguda e morrido antes que a infecção tivesse tempo de produzir alterações ósseas. O estudo paleoparasitológico revelou que as parasitoses intestinais estavam presentes em apenas 12% dos indivíduos. Embora fosse um percentual baixo, os pesquisadores concluíram que mesmo condições econômicas melhores não isolavam as famílias abastadas das condições sanitárias ruins daqueles tempos.
Agora passemos à correlação com a pesquisa genealógica. Entre terceiros sepultados na capela do Carmo encontrei vários membros da família Cordeiro de Peralta, que acredito ter-se estabelecido no Rio de Janeiro nos idos de 1650 com a chegada do patriarca Gaspar Cordeiro de Peralta, natural da Bahia. Gaspar era filho do português Antão Delgado Aires e da baiana Branca de Peralta. Seus bisavós maternos foram o cirurgião Afonso Mendes e sua esposa Maria Lopes, cristãos-novos que vieram para o Brasil em 1557 acompanhando o governador-geral Mem de Sá. As evidências parecem convergir para uma migração de Gaspar e seus filhos para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceram na capital e depois na freguesia de Meriti, no Recôncavo da Guanabara, com passagem pela freguesia do Irajá. É com Gaspar, portanto, e mais especificamente com seu óbito, na idade aproximada de 80 anos, que podemos começar a seguir uma tradição familiar na ordem dos terceiros do Carmo.
Aos trinta e um de março de mil seiscentos e setenta e três faleceu Gaspar Cordeiro. Recebeu os sacramentos [e] fez seu testamento e nele pedia à santa Irmandade da Misericórdia, [de] que fora muitos anos irmão, que o enterrassem pelo amor de Deus […] a venerável Ordem Terceira do Carmo da qual era terceiro e assim foi sepultado na dita Igreja do Carmo, amortalhado no mesmo hábito. […]
Tomás Cordeiro de Peralta, um dos filhos do patriarca, foi vereador na cidade do Rio de Janeiro e almotacel – inspetor de pesos e medidas que fixava o preço dos gêneros alimentícios. Ele foi testemunha em um processo matrimonial (banhos) em 1690 quando declarou ser morador na cidade do Rio de Janeiro – não natural dela – e ter 65 anos, o que sugere que tenha nascido por volta de 1625, provavelmente na Bahia. Antes de seu óbito, na idade aproximada de 76 anos, Tomás deixou disposições testamentárias para que seu sepultamento fosse feito na capela da Ordem Terceira do Carmo.
Em dezesseis de abril de mil setecentos e um faleceu Tomás Cordeiro […] [por testamenteiro] a seu filho Gaspar Cordeiro. Mandou sepultar seu corpo em capela dos terceiros do Carmo, de que era irmão professo, e que fosse amortalhado no hábito […] e os religiosos de Nossa Senhora do Carmo […]
Tomás deve ter-se casado já no Rio de Janeiro com a carioca Inês da Luz, com quem teve seis filhos: Pedro de Peralta da Fonseca, Gaspar Cordeiro de Peralta, Bernardo Peralta Vila Corte, Branca de Peralta Cordeiro, José Cordeiro de Peralta e Mateus de Peralta de Azevedo. Da filha Branca, casada com Francisco de Sá Souto Maior, ele teve o neto Diogo de Sá da Rocha, brutalmente assassinado com cerca de 25 anos em outubro de 1717. O assento de óbito de Diogo revela que o falecimento ocorreu na freguesia do Irajá, onde ele vivia, mas seu corpo foi transportado até a cidade para o sepultamento na capela de sua ordem terceira.
Em vinte e cinco dias do mês de outubro de mil e setecentos e dezessete anos, veio da freguesia do Irajá, morto de uns tiros e cutiladas que lhe deram, Diogo de Sá, moço de vinte e cinco anos, pouco mais ou menos […] enterrar a igreja da capela dos terceiros de Nossa Senhora do Carmo. Era casado com Eugênia Maciel Tourinho e filho de Francisco de Sá Souto Maior, já defunto, e sua mulher Branca de Peralta […]
Catarina Francisca Maria, outra neta de Tomás, também era terceira, afinal a ordem admitia a entrada de mulheres, e fez questão de deixar explícito em seu testamento que desejava ser sepultada na capela de sua ordem, no convento dos carmelitas. Ela detalhou em minúcias a forma como desejava que ocorressem tanto o sepultamento quanto as cerimônias fúnebres. Importa aqui revelar que ela faleceu com apenas 27 anos de idade. Teria a tuberculose evidenciada nas pesquisas já mencionadas relação com essa morte tão precoce?
Em vinte e cinco de março de mil setecentos e vinte e nove anos, faleceu da vida presente D. Catarina Francisca Maria, natural desta cidade, filha legítima de Pedro de Peralta da Fonseca e sua mulher Brites Cabral de Távora, já defuntos. Tomou todos os sacramentos, foi amortalhada no hábito de Nossa Senhora do Monte do Carmo e depositada no mesmo convento, onde foi encomendada pelo seu reverendo pároco com cinco reverendos sacerdotes, e sepultada na capela dos terceiros da mesma ordem […] Declaro que sou terceira na venerável Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo e peço ao irmão prior e mais irmãos da mesa queiram enterrar meu corpo nos claustros da dita ordem pelo amor de Deus. Me corpo será amortalhado no hábito de Nossa Senhora do Carmo e o reverendo padre [prior] […] encomendará meu corpo na igreja de Nossa Senhora do Carmo para dali levarem nossos irmãos terceiros […] Encomendarão meu corpo na igreja de Nossa Senhora do Carmo e meu reverendo vigário com cinco sacerdotes […]
De um filho de Tomás – Bernardo Peralta Vila Corte – lemos um assento de óbito menos detalhado que o anterior, mas ainda assim declarando o pertencimento à ordem terceira. Estimo que Bernardo tenha falecido com aproximadamente 70 anos de idade.
Ao primeiro dia do mês de agosto de mil setecentos e trinta e quatro anos, faleceu da vida presente, com o sacramento da penitência, Bernardo de Peralta. Fez testamento, cujo teor é o seguinte: deixo por meu testamenteiro meu filho José de Peralta. Meu corpo será sepultado na capela de minha Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo do Rio de Janeiro, em hábito da mesma religião e se fará um ofício de corpo presente […] na minha capela dos terceiros […]
A sogra de João Pacheco Cordeiro de Peralta, neto de Tomás por seu filho de Gaspar Cordeiro de Peralta, cuja relação com a família do marido se dera apenas pelo casamento, até pediu em seu testamento para ser sepultada entre os terceiros do Carmo, mas não foi atendida. Nesse registro documental, pela primeira vez a capela específica foi nomeada e acredito ser a mesma referida nos demais casos.
Aos sete de novembro de mil e setecentos e sessenta, faleceu da vida presente Rosa Maria de Melo, viúva, com todos os sacramentos. Foi sepultada dentro desta igreja paroquial de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá em uma sepultura de fábrica. […] Rogo ao senhor Manoel dos Santos Neves, em primeiro lugar, e em segundo a sua mulher Joana Maria de Moraes, em terceiro a meu genro João Pacheco Cordeiro queiram, por serviço de Deus e por me fazerem mercê, serem meus testamenteiros. Meu corpo será sepultado na campa de meu […] na capela do Senhor dos Passos do congregado de Nossa Senhora do Monte do Carmo por ser […] da dita campa e sepultura e será meu corpo amortalhado no hábito de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Declaro que [se eu] falecer fora da cidade em parte onde não possa ser enterrada na dita sepultura, será meu corpo enterrado na freguesia onde eu falecer, [dando-se] para isso a esmola costumada. […]
Antônio de Peralta, filho do patriarca Gaspar, declarou em seu testamento que era natural de Salvador. Ele faleceu no Rio de Janeiro, com cerca de 70 anos de idade e 53 anos antes de que os terceiros pudessem ter seu templo próprio, por isso sabemos que seu pedido para “sepultado na capela de sua Ordem Terceira do Carmo como irmão professo” nos informa que ele deve ter sido sepultado na mesma capela do Senhor dos Passos que acabamos de destacar.
Aos vinte e um dias do mês de maio de mil e setecentos e dois, faleceu Antônio de Peralta. Recebeu os santos sacramentos, fez seu testamento, nomeou por seus testamenteiros sua mulher Paula Barbosa e a seu cunhado o licenciado padre Manoel Barbosa […] Mandou que seu corpo fosse amortalhado no hábito de Nossa Senhora do Carmo e sepultado na capela de sua Ordem Terceira do Carmo como irmão professo; e que pedia ao irmão prior e mais irmãos fizessem com ele o que costumam fazer pelos demais irmãos terceiros. […] Declarou que era natural da cidade da Bahia, filho legítimo de Gaspar Cordeiro e de Maria de Peralta, já defuntos, e que era casado com Paula Barbosa, da qual não teve filhos […]
A compra de imóveis era uma das formas como as ordens terceiras acumulavam patrimônio, pois esses bens eram alugados e constituíam fonte de renda permanente para essas instituições. O já citado João Pacheco Cordeiro de Peralta vendeu uma morada de casas à Ordem Terceira do Carmo, como lemos neste registro de venda, que nos mostra que os vendedores já viviam fora da cidade do Rio de Janeiro, mas ainda tinham patrimônio nela.
Escritura de venda de uma morada de casas térreas que faz João Pacheco Cordeiro de Peralta ao Prior e mais Irmãos da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo desta cidade e quitação. Saibam quantos este público instrumento de Escritura de venda de uma morada de casas térreas e quitação virem que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos cinquenta e três, aos quatro dias do mês de agosto do dito ano, nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em casas de morada de mim Tabelião adiante nomeado, apareceram presentes partes havidas e contratadas, a saber: de uma banda como vendedores João Pacheco Cordeiro de Peralta e sua mulher Dona Inês Muniz de Barcelos, moradores na Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga; e da outra como compradores a Mesa da venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo […] – Logo pelo dito João Pacheco Cordeiro e sua mulher uniformemente e cada um, digo, e por cada um de por si in solidum me foi dito perante as mesmas testemunhas que entre os mais bens de raiz que têm e de que estão de posse pacificamente, têm assim uma morada de casas térreas já danificadas com as paredes de pau a pique situadas nesta cidade, no canto da rua de São Pedro […] cujas casas lhe ficaram pertencendo na partilha que amigavelmente ele dito vendedor fez com seus irmãos por falecimento de seu Pai Gaspar Cordeiro de Peralta […]
João faleceu entre 1760 e 1768, com mais de 50 anos de idade, quando sua ordem já havia iniciado as obras para construção de seu templo próprio. Seu assento de óbito não foi encontrado, mas ele provavelmente foi sepultado na mesma capela do Senhor dos Passos onde jaziam seus parentes. Acredito que outros Cordeiros de Peralta tenham deixado disposições testamentárias para ter seus sepultamentos realizados nessa capela, com os rituais de sua ordem terceira, ainda que seus assentos de óbito não tenham sido localizados. Apenas em um caso houve pedido discordante e um tanto incomum. Esse caso diz respeito a Francisco Pinto de Peralta, neto de Tomás Cordeiro, falecido com cerca de 40 anos, cujo assento de óbito lemos abaixo.
Aos vinte e três de Outubro de mil e setecentos e trinta e seis, faleceu da vida presente e recebeu os sacramentos da Penitência e Extrema unção Francisco Pinto de Peralta, natural da […] e morador na freguesia de São João de Meriti e o seu corpo depositado na Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos aonde foi encomendado pelo Reverendo Padre Cura com mais quatro Sacerdotes. Sendo amortalhado no habito de São Francisco, foi sepultado na dita Igreja e fez testamento em que dispõe na forma seguinte. Deixo e logo em primeiro lugar a minha Irmã Vicência Maria de Peralta, e no segundo lugar Antônio Pereira Braga queiram ser meus Testamenteiros — O Meu Corpo será amortalhado no hábito de São Francisco e será depositado na Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos aonde será sepultado encomendado pelo meu Reverendo Pároco da Candelária com quatro padres mais com os sufrágios e missa costumada — Declaro que todos os mais sufrágios por minha alma deixo à disposição de minha irmã e Testamenteira a quem [peço obre] por minha alma o que [obraria pela] sua […]. Declaro que sou natural e batizado na freguesia de São João de Meriti […] filho legitimo de Pedro de Peralta da Fonseca e de sua mulher Beatriz Cabral de Távora, já defuntos. Declaro que nunca fui casado e sou solteiro e assim não tenho herdeiros forçados ascendentes ou descendentes, e por isso instituo por minha universal herdeira a minha irmã Vicência Maria de Peralta depois de cumpridos meus legados e pagas minhas dividas — Declaro que os bens que possuo são os seguintes a saber: um partido em terras de Bárbara Gonçalves […] São João de Meriti de meias com minha irmã e Testamenteira, e assim mais um negro por nome Antônio, e um cabra por nome Roque, e uma negra já de maior por nome Maria e um negro por nome [Francisco], já velho, marido da dita negra e […] com casas de vivendas e mais pertences que se acharem — Declaro que devo a Antônio [Pereira] Bravo duzentos mil reis à razão […] assim mais o que constar legitimamente, o que me não lembro, ordeno a meus Testamenteiros que satisfaçam tudo para desencargo da minha consciência — Declaro que me deve José de […] o que constar de um Crédito que tenho em meu poder; deve mais João de Souza dez patacas — Declaro que ordeno digo ordeno a minha primeira Testamenteira e irmã que depois […] e pagas minhas dividas, mande dizer por minha alma e de meus pais as missas que lhe parecer e paguem as minhas irmandades o que constar o que devo para se fazerem os sufrágios costumados […]
O fato incomum está na escolha de ser sepultado na igreja de uma irmandade de homens pretos, isto é, africanos, e não na capela da ordem terceira, onde seu bisavô, avô e primos já haviam sido sepultados. Tudo indica que esse descendente de Gaspar Cordeiro fosse terceiro da outra ordem da elite local: a de São Francisco da Penitência, cuja localização na geografia da cidade era o morro de Santo Antônio, atrás do atual Largo da Carioca, no centro da cidade. Por mais que reste inexplicado o sepultamento de Francisco na igreja dos pretos, não tenho dúvidas de que ele estaria vinculado a uma ordem terceira em que também predominava uma elite de ascendência europeia.
E é aqui que as descobertas dos pesquisadores que trabalharam com os arqueólogos se tornam relevantes para a discussão. A revelação de que as pessoas sepultadas na capela dos terceiros do Carmo apresentavam haplogrupos indicativos de uma ancestralidade materna europeia – com predominância do haplogrupo U – , ainda que não devesse surpreender, precisa ser interpretada à luz dos estudos demográficos da população portuguesa, que parece ter sido a matriz de grande parte da população cujo segmento está representado nos sepultamentos feitos na capela do Senhor dos Passos.
Os indivíduos analisados no conjunto arqueológico apresentaram um perfil mitocondrial marcadamente europeu ocidental e compatível com a diversidade da população portuguesa. A presença conjunta dos haplos J, K, T, U e V reproduz os principais componentes do pool materno português, embora na pequena amostra o haplo U surja aparentemente elevado e o H aparentemente reduzido. Em Portugal, o haplo U é importante, mas geralmente não supera o H. Estudos modernos situam-no em torno de 10–14% em diversas amostras, embora existam valores regionais consideravelmente maiores, tendo uma meta-análise chegado a registrar 26% no Norte de Portugal, o que poderia ser um indício da origem das matriarcas dos terceiros sepultados na capela do Senhor dos Passos.
No estudo sobre a mobilidade dos terceiros realizado por William de Souza Martins – Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700–1822) – a partir da análise dos livros da ordem, ficou constatado que, partindo de uma sobrerrepresentação de homens de origem portuguesa, especialmente minhotos/bracarenses e portuenses no período inicial, chegou-se ao aumento do componente local, especialmente o feminino, do final do século XVIII ao início do XIX, como se vê na tabela abaixo. Embora não tenham sido analisados períodos anteriores, pode-se imaginar que também neles houvesse predominância do componente imigrante em relação ao nativo.

Em dois sepultamentos da capela – identificados no estudo como 19 e 30 – foi revelado o haplo N1b1, cuja frequência na população portuguesa geral é de 0,8%. Dois N1b1 entre 23 indivíduos tipados equivalem a 8,7% da amostra total e a 9,5% se considerarmos apenas os indivíduos de ancestralidade europeia. Essa ocorrência em uma amostra tão pequena, ainda que não precisamente datada, chama atenção, pois a linhagem N1 é rara na população portuguesa geral e foi encontrada em frequência consideravelmente maior – alcançando 7%, com subclados N1b1a2 e N1b1a5, além de N1a1a1a2 – entre os criptojudeus de Bragança. O dado talvez possa ser sugestivo de uma contribuição específica ao pool genético da população que foi sepultada na capela e justamente do contingente que foi duramente atingido na segunda onda de perseguições do Santo Ofício – entre 1710 e 1730 – a cidadãos fluminenses.
As análises feitas devem representar uma parcela muito pequena em relação ao universo de terceiros que pertenceram à ordem entre os séculos XVII e XIX. Apenas em 1752, para ficarmos com um pequeno recorte temporal, haveria cerca de 3400 confrades inscritos na ordem, segundo o bispo Antônio do Desterro informou em súmula enviada à Santa Sé para prestar conta dos trabalhos pastorais efetivados no bispado do Rio de Janeiro. Eles representariam um recorte da sociedade local que deveria ser composto por indivíduos brancos e sem mácula de sangue, ou seja, sem ascendência africana, judaica (cristã-nova) ou moura (muçulmana), que eram na época os requisitos para entrar na vida religiosa e assumir cargos administrativos.
As ordens terceiras tinham o impedimento à entrada de cristãos-novos como critério estabelecido em norma estatutária. No caso dos terceiros do Carmo, os estatutos de 1697 determinavam que o ingresso seria possível à pessoa “sem alguma raça de Judeu, Mouro ou Mulato” e que não tivesse sido expulsa de outra congregação. Ainda assim era possível burlar a estrita observância desse critério para pessoas que mantinham vínculos não sanguíneos com cristãos-novos, como ocorreu no caso de “Isabel Coutinho, que professou em 4 de setembro de 1701”, mesmo sendo casada com o advogado Antônio Correia Ximenes. O Licenciado Luiz Machado Homem, sogro de Isabel, foi denunciado em 1706 por judaizar, como se dizia dos conversos quem mantinham os preceitos da lei mosaica.
Mas houve casos como o de João Aires de Aguirre, que professou antes de 1726; e de Martim Correia de Sá, que professou em agosto de 1727. Ambos haviam sido denunciados como cristãos-novos cerca de 20 anos antes. Parece que puderam contar com o apoio de seus confrades, afinal tinham boa reputação e Martim estava relacionado por sangue a uma família de governadores do Rio de Janeiro. João Aires alcançou o cargo de prior em 1744 e foi eleito para a provedoria da Santa Casa de Misericórdia entre 1736-1737. Em ambos os casos, portanto, a mácula de sangue não teve consequências.
Os Cordeiro de Peralta do Rio de Janeiro tinham sangue cristão-novo por Mestre Afonso, por Maria Lopes, talvez pelo médico biscainho Gaspar de Vila Corte de Peralta – avô do patriarca Gaspar – e aparentemente pela esposa do mesmo Gaspar, que descenderia dos renomados cristãos-novos da família Bravo. Haveria mácula suficiente para impedir a entrada dele e de seus filhos e netos para os terceiros do Carmo, mas não foi isso o que se verificou. Como era costume da ordem agregar terceiros de outras filiais sem necessidade de novo inquérito genealógico, Gaspar e seus filhos talvez já pertecessem à ordem na Bahia, o que não consegui confirmar até este momento, mas estimei no quadro abaixo. Se fosse esse o caso, ele teria até mais chances de ser vetado em sua terra natal, onde a mácula de seus antepassados poderia ser ainda reconhecida pelos mais velhos.

Encerro aqui esta análise já extensa com questões ainda por responder e uma suspeita: a de que entre os terceiros do Carmo do Rio de Janeiro – e talvez mesmo de outras filiais – poderia haver um contingente de pessoas que apresentavam a mácula de sangue e que procuravam nessa entidade, além de uma rede de apoio e sociabilidade, um prestígio social que lhes seria negado em outras instâncias. Serem reconhecidos como terceiros talvez lhes conferisse um poder simbólico que serviria de escudo temporário contra acusações e perseguições, ainda que não funcionasse como uma garantia perene, como se verificou na investida do Santo Ofício contra os judaizantes fluminenses na primeira metade do século XVIII.
José Araújo é genealogista.