Diz André Ferreira, mercador de panos e morador na cidade de Braga, freguesia de São João do Souto, que ele deseja servir ao Santo Ofício em um dos cargos de familiar da Inquisição da cidade de Coimbra e porque tem as partes e suficiência para servir o dito cargo.

Assim inicia, em 1649, o registro das diligências para que o cidadão André Ferreira possa ocupar o cargo pretendido de familiar do Santo Ofício da Inquisição, um cargo que conferia distinção a quem o obtivesse naqueles tempos. Para ter seu pedido atendido, ele precisaria comprovar bons antecedentes próprios e familiares, o que significava não ter um histórico de problemas com a justiça, não realizar atividades mecânicas como as da lavoura ou de manufaturas e, principalmente, não apresentar mácula de sangue.

Este último quesito tinha um enorme peso tanto para quem desejasse um cargo no Santo Ofício quanto para quem quisesse entrar na vida religiosa ou na administração local e colonial. A mácula resultava de ter ascendentes que fossem africanos, judeus (mesmo que convertidos ou cristãos-novos) ou muçulmanos. Para assegurar que os candidatos fossem elegíveis aos cargos eram realizadas as citadas diligências, nas quais pessoas que conheciam o candidato, seus pais e avós eram entrevistadas e respondiam uma série de perguntas bem padronizadas.

Quando iniciou seu processo, André Ferreira era casado com Ana Álvares. As diligências realizadas para ele não revelaram nada desabonador no quesito da limpeza de sangue e toda sua família foi reconhecida como cristã-velha. Também foram realizadas diligências para sua esposa e, mais uma vez, nada foi constatado, pelo que a ascendência dela também foi considerada limpa de sangue com a recorrente anotação “são cristãos-velhos” feita à margem das páginas do documento consultado.

Mais de trinta anos depois de obter o resultado desejado, encontramos o cidadão André Ferreira vivendo no Brasil e mais uma vez envolvido em diligências com o Santo Ofício. Ela era já viúvo de Ana Álvares e havia se casado em segundas núpcias com a carioca Maria de Melo, filha do baiano Bartolomeu de Melo de Vasconcelos e da carioca Inácia Lobo Pereira. Em vista de seu cargo, era necessário que tivesse informado do casamento para que fossem feitas diligências para a esposa brasileira, o que ele parece ter ignorado, como lemos abaixo em despacho de 2 de dezembro de 1682.

Diz o capitão André Ferreira da Silva que, sendo ele natural e morador na cidade de Braga e casado com Ana Álvares, há mais de vinte anos a esta parte sendo familiar do Santo Ofício da Inquisição de Coimbra, donde tomou os juramentos, sucedeu passar para a cidade do Rio de Janeiro, parte do Brasil, donde está morador, e sendo Deus servido levar para si a dita sua mulher Ana Álvares, se ofereceu casar segunda vez, sem por inadvertência dar parte a Vossa Ilustríssima, com Maria de Melo, filha legítima de Bartolomeu de Vasconcelos de Melo, natural da cidade da Bahia [n.a. Salvador], filho de Luiz de Melo e de dona Maria de Sá, naturais da dita cidade da Bahia, e avós paternos da dita sua mulher Dona Maria de Melo, e pela parte de sua mãe é filha de dona Inácia Pereira, natural desta cidade do Rio de Janeiro, filha de Isabel dos Rios, natural da mesma cidade, e de Sebastião Pereira Lobo, natural da cidade de Lisboa, avós maternos da dita sua mulher dona Maria de Melo.

Embora a descrição dos ancestrais de Maria de Melo pareça confusa, nos interessa aqui saber que ela era filha da carioca Inácia Lobo Pereira e neta materna da carioca Isabel dos Rios e do lisboeta Sebastião Lobo Pereira. Isabel dos Rios era filha de Antônia Rodrigues Sardinha e por sua mãe sobrinha de Domingos Nunes Sardinha, meu antepassado direto, ambos filhos de Duarte Nunes e Maria Fernandes. A esse núcleo familiar dediquei uma obra em que trato especificamente da descendência de Domingos, que chega até meu avô materno Enéas.

Mas voltemos às diligências que agora precisavam ser realizadas para atestar a limpeza de sangue da segunda esposa do familiar André Ferreira. Já adianto que ele teve surpresas indesejadas. A primeira testemunha, o padre João Batista, religioso carmelita da cidade de Salvador, declarou que a investigada “pela parte paterna era legítima e inteira cristã-velha […] porém que pela parte materna ouvira dizer com fama constante que era cristã-nova e por tal era comumente reputada” [p. 22, imagem 139].

Informação diferente foi dada nos testemunhos imediatamente seguintes – do jesuíta carioca Francisco Frazão, do carmelita lisboeta Mateus de Assunção, do tenente-general da artilharia madeirense Luiz de Bulhões, do alferes baiano Marcos Pinheiro Tinoco, do provedor da Santa Casa de Misericórdia Gaspar de Araújo de Jesus, do capitão português Antônio da Fonseca, do padre açoriano Mateus Pacheco, do cavaleiro Salvador Correa Vasqueanes, do ex-governador da cidade do Rio de Janeiro Pedro Gomes – pelo que se atestou a nobreza da família paterna de Maria de Melo e a limpeza de sangue de sua família materna.

Apesar de a maior parte das testemunhas declarar que Maria de Melo era uma mulher de sangue limpo, o relatório do frei Domingos das Chagas, que encerra a primeira parte das diligências em junho de 1683, traz uma informação preocupante a respeito do assunto [pp. 19-20, imagens 156-157].

[…] Porém, por parte de sua mãe dona Inácia Pereira, tem fama de cristã-nova e por tal é tida e havida no Rio de Janeiro. E tanto assim que um Sebastião Pereira de Melo, primo da dita dona Maria de Melo, assim por parte dos pais como por parte das mães, porque os pais eram irmãos legítimos e as mães irmãs legítimas, com o que vêm a ser primos duas vezes, conforme as notícias que me tinha dado um religioso [gram] da ordem de São Bento, e outras pessoas mais, muito antes que vossas senhorias me mandassem comissão para essa inquirição, foi expulso sendo noviço da dita religião de São Bento [a título] de cristão-novo […]

As duas declarações discordantes – do padre João Batista e do frei Domingos das Chagas – provocaram o Santo Ofício a realizar uma nova série de inquirições a respeito da limpeza de sangue de Maria de Melo, de sua mãe Inácia Pereira e de sua avó Isabel dos Rios. A partir desse ponto, o destino de André Ferreira estava traçado, pois logo no segundo depoimento, do “homem nobre” Luiz Cabral de Távora, levantou-se uma suspeita a respeito do avô paterno de Maria. Luiz Cabral declarou que havia um rumor de cristã-novice que “nascera por se dizer um […] bisavô por nome Manoel dos Rios havia pago (sic) por uma finta que foi lançada aos cristãos-novos”. A testemunha relata que o tal cidadão Manoel dos Rios”saíra por estas ruas como uma pessoa louca gritando […] sobre quem lhe levantava falso testemunho” e “que, não obstante tudo isso, […] o tem por cristão-velho” [p. 26, imagem 169].

O depoimento do doutor Francisco da Silveira Dias, clérigo do hábito de São Pedro, não foi menos bombástico, pois levantou suspeitas a respeito de Isabel dos Rios, avó de Maria de Melo, de quem se sabia ser filha de Antônia Rodrigues, que “fora casada duas vezes: a primeira com uma pessoa da família dos Bravos [n.a. Rui Dias Bravo], na qual havia nota de que eram cristãos-novos” [p. 28, imagem 173]. Apesar disso, o religioso não alimentou suspeitas adicionais, deixando a questão como resultado de “equivocação a respeito dos dois casamentos da sobredita bisavó Antônia Rodrigues”. Mas não houve equívoco, pois ela teve mesmo os dois casamentos e seu primeiro marido era mesmo cristão-novo.

A nona testemunha, o cidadão carioca Francisco Gomes Sardinha, trouxe mais polêmica ao declarar algo genérico e ao recuperar algo que já havia sido relatado anteriormente [pp. 32-33 , imagens 182-183]:

[…] sabia que a dita dona Maria de Melo tinha parte de cristã-nova, porquanto além de ser fama pública que esta tal família tinha este defeito, ouviu ele testemunha sempre a seus pais e a seus parentes todos que Isabel dos Rios, avó da sobredita habilitanda, e sua bisavó Antônia Rodrigues tinham parte de cristãs-novas […] [e] disse que sabia que um primo irmão da habilitanda, filho de dona Liguarda, irmã da sobredita dona Inácia, mãe da dita habilitanda, fora expulso da religião de São Bento no convento da Bahia e se chamava Sebastião Pereira de Melo, e que não sabia outro fundamento de ser expulso da religião mais que por defeito do sangue […]

Após tantas suspeitas, o parecer do Santo Ofício não poderia ser menos favorável à segunda esposa do familiar André Ferreira, relatando haver “grande fundamento contra a pureza da dita dona Maria de Melo, não só pelas informações judiciais senão pelas extrajudiciais” [p. 35, imagem 187]. Em 6 de outubro de 1689, o padre Ataíde de Castro conclui em Lisboa as investigações declarando ser “do mesmo parecer que o senhor inquisidor Jerônimo Soares pelos fundamentos expendidos no seu auto, e, casando-se este familiar sem pedir licença, lhe fica menos injurioso tirar-se-lhe a carta”.

Não se sabe do destino de André Ferreira, mas sua esposa Maria de Melo faleceu no Rio de Janeiro meses antes do parecer final exibido acima. Por uma dessas ironias do destino, ela fez sepultar seu corpo no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, “na cova de sua avó” Isabel dos Rios, cova esta que pode ser a mesma sepultura perpétua localizada “na boca da grade do cruzeiro da igreja” de que seu bisavô Manoel dos Rios passou escritura em 8 de novembro de 1608. A concessão de uma sepultura em local tão privilegiado resultara “das boas obras e bons serviços prestados ao mosteiro de S. Bento”, como se declara na escritura.

José Araújo é genealogista.