Aos quinze de junho de mil novecentos e quarenta e seis, em casa situada à Estrada do Madureira, em minha presença e das testemunhas Lino Rodrigues, e Herminda Guilhermina de Araújo, receberam-se em matrimônio os contraentes Antônio Pinto de Araújo, e Josefa Ribousa Portugal, in articulo mortis. Ele filho legítimo de Manoel Antônio Mota Araújo e Luiza Mota de Araújo, com setenta e oito anos de idade, nascido e batizado em Portugal, residente nesta paróquia de Nova Iguaçu. Ela filha legitima de Luiz Rebousa e Maria Benedita Pinto, residente nesta paróquia de Nova Iguaçu, diocese de barra do Piraí. E para constar lavra-se este assentamento que assina o Vigário P. João Müsch

Esse é o assento paroquial do matrimônio de meus avós paternos Antônio e Josefa. Na transcrição, atualizei a grafia dos nomes próprios e incluí as vírgulas nos pontos onde ela deveria ocorrer. Fosse esse o único documento disponível com informações desses meus antepassados, eu teria problemas, pois nele o pároco registrou algumas incorreções. Elas estão nos nomes das testemunhas e da noiva: Lino Rodrigues foi meu tio por casamento com uma das filhas de Antônio e Josefa chamada Elisabeth, e seu sobrenome completo era Rodrigues Hermida; por essa razão a outra testemunha se chamava apenas Guilhermina de Araújo e já revelo que era outra filha do nubente Antônio; por fim, a nubente não se chamava Josefa Ribousa Portugal e sim Josefa Rebousa. Portugal foi seu país de origem, não seu sobrenome.

Matrimônio de Antônio e Josefa – Santo Antônio de Jacutinga, RJ, 1946

Para além do que foi declarado no registro, ainda que incorretamente em certos pontos, existe algo que não está declarado, mas pode ser revelado a partir de pistas que forneci no parágrafo anterior: os nubentes já tinham filhos de sua união oficial anterior no registro civil e de uma união oficial anterior do nubente. Meu avô Antônio era casado quando chegou ao Brasil em 1904 com a esposa Eliza Macedo e sete dos filhos que haviam nascido em Portugal. Depois de enviuvar, em 1918 ele contraiu segundo matrimônio com minha avó Josefa, que era então 32 anos mais nova do que ele. A Guilhermina nomeada no assento era uma das filhas do primeiro matrimônio que nasceu em Portugal; Lino Hermida era casado com Elisabeth, como já mencionei, e esta era uma das filhas brasileiras de Antônio e Josefa.

O que o registro não declara pode ser compreendido a partir de uma pergunta inevitável: se Antônio e Josefa já eram casados desde 1918, por que um novo matrimônio foi celebrado em 1946? Parte da resposta está na expressão latina in articulo mortis, empregada pelo pároco para indicar que um dos nubentes se encontrava à beira da morte. Esse era justamente o estado de meu avô Antônio, razão pela qual a cerimônia foi realizada em sua residência e não na igreja paroquial. A outra parte da resposta está fora do registro: tia Maria da Penha, outra filha brasileira do casal, contou-me certa vez que meu avô “detestava padres”.

A dúvida seria quanto a meu avô ser apenas anticlerical, como revelou minha tia; agnóstico, o que me parece suspeito; ou simplesmente ateu, o que me parece exagerado. Já contei aqui no blogue que quando meu avô veio para o Brasil ele contou com grande apoio dos irmãos de sua primeira esposa. Um deles, Maximiano de Macedo, era alfaiate, sindicalista e seguidor da doutrina conhecida como racionalismo cristão, de forte base anticlerical. Acredito, portanto, que esteja aí a explicação para o que me revelou tia Maria.

O anticlericalismo pode ser a explicação para um matrimônio tardio na Igreja, 28 anos depois de um casamento civil. Se meu avô foi realmente um seguidor do racionalismo cristão – como foi meu tio materno Djalma – , pergunto-me o que o teria levado a aceitar o sacramento do padre João Müsch. Talvez a decisão resultasse de um arrependimento tardio ou talvez tenha havido pressão familiar diante da iminência de sua morte. Creio que nem tia Maria, já falecida, saberia explicar, pois, como ela também revelou, seus pais “não falavam do passado”.


José Araújo é genealogista.