O tráfico transatlântico deslocou de forma violenta mais de 12 milhões de seres humanos da África para as Américas e Europa. Desse total, estima-se que dois milhões não chegaram a desembarcar, tendo falecido no mar, para não mencionar que se desconhece o número dos que morreram nos deslocamentos dentro do próprio território africano. A quase totalidade desses sequestrados que desembarcou nas Américas jamais voltou a pôr os pés em seus territórios de origem e, em homenagem a eles, se instalou, na cidade de Uidá, no Benin, país da África Ocidental, um monumento chamado Porta do Não-Retorno. Não por acaso, Uidá teve um dos portos mais importantes e movimentados no tráfico transatlântico de africanos escravizados. E vem do Benin uma iniciativa que tem, entre outros vieses, um de reparação histórica pelo resgate do pertencimento para os descendentes dos sobreviventes dessa violência.

Em 2024, o governo daquele país anunciou que dará cidadania a todos os afrodescendentes do mundo que sejam maiores de 18 anos e não tenham outra cidadania naquele continente. Em vista da enorme dificuldade de se comprovar a ascendência em um ancestral africano por via documental, o Benin aceita como prova o resultado de um teste de DNA que ateste a ascendência subsaariana, como a que exibo abaixo de meu teste na plataforma MyHeritage. Por muito esforço, também consegui atestar essa ascendência por vias documentais, o que registrei em Memórias Restituídas: Maria Angola e Estêvão da Guiné, obra na qual me proponho a recuperar parte da história de vida dos antepassados que dão nome à obra e que são apenas dois de meus antepassados africanos já identificados.

Origens étnicas pelo DNA

Para o processo de cidadania beninense que dura cerca de três meses, não se aceita qualquer teste de DNA, mas apenas um pelo qual se cobra uma taxa de 100 dólares. A cidadania dá direito a morar no país e adquirir um passaporte, mas não permite votar ou participar das eleições, o que só se consegue após cinco anos de residência no país. Ainda assim, algumas celebridades internacionais e brasileiras, como o chefe de cozinha baiano João Diamante, demonstraram interesse em pedir essa cidadania, o que provavelmente farão como resgate de memória ancestral.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista