Os testes recreativos de DNA nos oferecem muito mais do que informações gerais sobre nossa ancestralidade genética – os percentuais de DNA africano, ameríndio, asiático ou europeu que herdamos de nossos ancestrais – ou uma lista de parentes próximos e distantes com quem compartilhamos esse DNA. Quem está na Genealogia há algum tempo sabe que esses testes nos dão também uma oportunidade única de desvendar mistérios sobre nossos antepassados e mesmo sobre figuras históricas. Quem há 50 anos imaginaria, por exemplo, que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, descendia de uma mulher indígena? Ou ainda que Batira, filha do cacique Tibiriçá não era a única matriarca indígena das famílias paulistas mais antigas? Pois essas constatações só se tornaram possíveis porque pessoas comuns fizeram um teste de DNA por qualquer outra razão e permitiram que descobríssemos esses fatos. Existem outras descobertas como essas por fazer, mas elas exigem mais do que apenas a sorte de encontrar alguém que tenha feito um teste e tenha uma ascendência comum com uma figura histórica ou um casal fundador.

Para ficarmos com apenas um exemplo, vou mencionar minha ascendência no cristão-novo Duarte Nunes, que vivia em Porto Seguro e migrou para o Rio de Janeiro com a família depois de se envolver em problemas com a Igreja. A descendência de Duarte chega aos dias atuais – eu estou aqui! – e seria interessante saber a qual haplogrupo de DNA-Y ele pertencia, pois essa informação poderia nos dar pistas de sua origem. Testá-lo é impossível, pois não se sabe onde estão seus restos mortais, e ele faleceu há mais de 400 anos. Mas o DNA-Y dele pode ser encontrado em um homem que esteja vivo hoje e descenda dele em uma linha exclusivamente masculina, pois é dessa forma que se dá a herança do cromossomo sexual Y. Infelizmente, não se sabe ainda de um descendente de Duarte em linha exclusivamente patrilinear. Quem sabe um dia não se descobre esse filho?

Mas existem várias descendentes em linha exclusivamente matrilinear de Maria Fernandes, mulher de Duarte, de quem os documentos não nos contam nada além de sua existência. Nesse caso, é possível pedir a um ou uma descendente direta de Maria que faça um teste recreativo que revele qual o DNA mitocondrial herdado dessa matriarca do século XVI. E essa operação já está em curso, pois localizei um morador do Rio de Janeiro cuja mãe está na linha de descendência feminina de Maria Fernandes. Em breve teremos uma informação preliminar que nos informe a qual haplogrupo de mtDNA pertencia Maria. E assim poderemos ter uma primeira sugestão se Maria era uma mulher europeia ou mais uma matriarca brasileira de origem indígena que deixou descendentes com um colonizador europeu. Eu deixei claro que será uma informação preliminar, pois a certeza só virá depois de uma segunda pessoa testada que descenda matrilinearmente de Maria Fernandes por outra de suas filhas.

Encontrar esses descendentes não é algo trivial. Na forma mais comum, abre-se a plataforma do FamilySearch, localiza-se o patriarca ou a matriarca de interesse e navega-se por sua descendência masculina ou feminina, respectivamente, geração após geração, até que se localize alguém que tenha nascido nos últimos 100 anos e possa ter deixado descendentes. Em seguida, busca-se identificar esses descendentes por meio de pesquisa ou contato direto com o usuário do FamilySearch que tenha cadastrado as informações sobre a pessoa de interesse. Se tudo der certo, chega-se a algum descendente disposto a fazer o teste de DNA. Foi assim que consegui esse teste de um descendente de Maria Fernandes.

O processo descrito é lento e incerto. Após várias horas de navegação pelas gerações no FamilySearch, pode-se chegar a um ramo que tenha sido interrompido precocemente ou pode haver erros de registro que tornem o ramo final inútil para a pesquisa. Sabendo desses desafios, perguntei ao ChatGPT se seria possível desenvolver uma ferramenta que lesse a árvore pública do FamilySearch (FS) e encontrasse pessoas nascidas nos últimos 100 anos que estivessem na linha de descendência patrilinear ou matrilinear de um indivíduo que se identificasse por meio de seu ID na plataforma – p.ex. GWL5-75Y, que é o código de Maria Fernandes. A IA informou que seria possível desenvolver tal ferramenta, mas demandaria acesso à FS por meio de uma Interface de Programação de Aplicações (API em inglês) – , que é “um conjunto de regras e padrões que permite que diferentes sistemas e softwares conversem entre si de forma automática e segura”, como nos explica a IA do Google.

Ao mesmo tempo, o GPT sugeriu uma ferramenta já disponível chamada Puzzilla, que descobri satisfazer em boa parte minha necessidade. Explorei a ferramenta gratuitamente a partir de minhas credenciais do FamilySearch, ao qual ela se conecta exatamente via API. A Puzzilla exibe por padrão as informações a partir da árvore do usuário inicial – no caso eu – , mas é possível mudar o foco digitando o ID da pessoa de interesse. Na imagem exibida abaixo, o ID digitado foi de uma descendente de Maria Fernandes chamada Ana Maria de Gusmão, cujo ID é GW91-GS4. Para ter uma visão dos descendentes dessa mulher que teriam nascido nos últimos 100 anos e poderiam estar vivos ou ter deixado descendência, cliquei no botão BORN < 110. Finalmente, usei o menu suspenso Generations para definir quantas gerações a partir de Ana Maria a ferramenta deveria rastrear. Após algum tempo, na grande área à direita foi exibido um grafo com toda a descendência mapeada de Ana, com ela localizada no centro. Os pontos amarelos nas extremidades indicam quais desses descendentes nasceram há cerca de 100 anos.

Puzzila

Pode-se navegar pelos nós e pontos do grafo para obter informações detalhadas sobre o descendente escolhido, que, neste caso, estão no formato sequencial desde a matriarca Ana de Gusmão, como se vê na parte inferior dos campos de configuração à esquerda. Assim se pode inspecionar se existe uma linha matrilinear ininterrupta, o que indicaria um(a) potencial candidato(a) à testagem ou alguém que leve a um(a) candidato(a) potencial. A economia de tempo é incalculável, mas ela não assegura que a linhagem esteja correta, por isso recomendo inspecioná-la a partir do ID do descendente localizado.

A ferramenta não é perfeita, mas é gratuita e nos facilita na identificação de pessoas que possam trazer informações sobre nossos antepassados que não foram registradas nos livros de História ou Genealogia.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista