Dentre as informações úteis que deveríamos buscar a respeito de nossos antepassados, uma das mais relevantes é a profissão ou ocupação que tiveram. A profissão pode informar das condições de vida da família, podendo mesmo trazer pistas sobre outros aspectos talvez não evidentes, como a origem étnica da pessoa. Assim, após descobrir que um antepassado foi identificado como barbeiro em documentos do Brasil do século XVIII, por exemplo, pode-se com alguma razão suspeitar de que ele tivesse ascendência africana. Da mesma forma, encontrar um antepassado identificado como cirurgião ou físico (o mesmo que médico) nos séculos XVI e XVII pode equivaler a ter encontrado um antepassado que era cristão-novo. As profissões que já encontrei em minhas pesquisas sobre meus antepassados poderiam ser agrupadas em núcleos como Agricultura, Comércio e Saúde e Serviços, dos quais apresento alguns casos.
Nas atividades agrícolas, já me deparei com termos como Jornaleiro, Agricultor, Fazendeiro, Lavrador e Proprietário, sendo o primeiro referido ao trabalhador braçal, que recebe por jornada trabalhada na lavoura, enquanto os demais se referem mais provavelmente aos proprietários das terras destinadas ao cultivo, à criação de animais ou ao beneficiamento de produtos como açúcar, aguardente, café e fumo. Meu bisavô materno João Pereira Belém (1848-1921), por exemplo, é descrito em sua certidão matrimonial como “[tendo] cinquenta e dois anos de idade, [e sendo] agricultor, filho ilegítimo de Joaquina da Conceição”. Seu pai Pedro Gomes de Moraes (1820-1891), por sua vez, foi listado no Almanak Laemmert entre os “Fazendeiros de café e lavradores” da Freguesia de São Pedro e São Paulo do Ribeirão das Lages entre os anos de 1856 e 1871. Finalmente, meu bisavô paterno Luis Gonçalves Rebosa (1849-1937) é apresentado em sua certidão matrimonial como “da idade de 43 anos, solteiro, jornaleiro“, corroborando pesquisas seguintes que constataram ser esse meu ramo específico composto de pessoas mais humildes.
Nas atividades comerciais, encontrei termos como Mercador e Taberneiro. Os mercadores mais antigos em minha árvore familiar foram localizados entre os séculos XVI e XVII em personagens como o inglês Tomás Babintão e o belga Gaspar de Mere, ambos certamente dedicados a atividades mercantis transatlânticas como o comércio de açúcar entre Bahia ou Pernambuco e Europa e talvez mesmo ao tráfico de escravizados entre Angola e Brasil. Ambos tiveram relação por casamento com a descendência do cristão-novo Afonso Mendes, de quem falarei mais adiante. Já o taberneiro foi meu avô paterno Antônio Pinto de Araújo (1868-1946), natural de Tabuaço, Viseu, que em alguns documentos também foi descrito como proprietário. Acredito que em Portugal ele tenha-se dedicado ao comércio de vinho do Porto. No Brasil, ele teve terras onde plantou hortaliças e frutas.

No campo da saúde, encontrei em ambos meus costados termos como Barbeiro, Boticário, Cirurgião e Físico ou Médico. Os dois barbeiros encontrados foram meu hexavô paterno português Teodósio José da Nóbrega (1715-1760) e meu octavô materno africano Estêvão Gonçalves Dias (1721-1780), este falecido no Brasil, onde essa atividade era mais comumente exercida por homens como ele, os quais, segundo Mary Del Priore, “realizavam sangrias, extraíam dentes”. Meu tetradecavô materno Afonso Mendes (1490-1577), mais conhecido como Mestre Afonso, foi cirurgião-mor da corte em Lisboa e depois em Salvador, para onde se mudou em 1557 acompanhando o governador-geral Mem de Sá. Afonso também se dedicou à gestão da botica da capital brasileira, onde deveria preparar unguentos e outros tratamentos para seus pacientes, tal como hoje fazem os farmacêuticos. Também descendo do cirurgião Antônio Pinto Rebelo (1727-1808), meu pentavô paterno, nascido e falecido em Tabuaço. Por fim, descendo de ao menos dois médicos, profissão que se distingue da de cirurgião por não ser considerada mecânica e por isso mesmo mais socialmente valorizada: Gaspar de Vila Corte de Peralta (1535-1578), meu tridecavô biscainho materno casado com uma das filhas de Mestre Afonso; e José Pinto do Souto (1762-1842), que foi tio-bisavô de meu avô paterno Antônio, já citado.
José Araújo é genealogista.