Sobrenomes não se distribuem aleatoriamente pelo território brasileiro. Muitos ainda revelam, séculos depois, os caminhos da colonização portuguesa, da expansão bandeirante e da ocupação do interior. Podemos descobrir isso explorando um dos produtos oferecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como resultado do Censo Demográfico 2022 e que se chama Nomes no Brasil. Trata-se de uma base de dados que permite consultar rankings de nomes por sexo, período de nascimento, estados e municípios a partir de informações de cerca de 203 milhões de pessoas. O levantamento preserva as grafias originais informadas pelos moradores e oferece uma rica fonte para estudos demográficos, culturais, históricos e genealógicos. Para o genealogista, a utilidade da base não está apenas em saber quantas pessoas possuem determinado sobrenome, mas em identificar padrões regionais que ajudam a formular hipóteses sobre origens familiares e movimentos migratórios.
Como este texto não pretende ser exaustivo, selecionei uma amostra pequena de seis sobrenomes brasileiros contidos na base, a saber: Albuquerque, Bicudo, Camargo, Cavalcante, Godoy e Silveira. Embora a maioria seja do conhecimento geral, todos devem ser bem conhecidos por quem já pesquisa a história das famílias brasileiras. A ideia é descobrir não apenas como eles se posicionam no ranking oferecido pela base de dados, mas também como se distribuem pelo país, que é por onde se revela o valor dessa base de dados para a pesquisa genealógica, algo que nem sempre fica evidente para o pesquisador iniciante. O gráfico abaixo sintetiza o resultado das buscas feitas.

Em termos gerais se pode observar que são sobrenomes que não estão entre os 50 mais comuns, mas ocorrem por todo o país, com as exceções de Godoy e, principalmente, Bicudo. Outra observação generalizante é que dois dos sobrenomes da amostra predominam no eixo Nordeste/Norte (Albuquerque e Cavalcante), três no eixo Sudeste/Centro-Oeste/Sul (Bicudo, Godoy e Camargo) e apenas um no Sul (Silveira). Essa predominância geográfica, como discutirei a seguir, não ocorre ao acaso, mas tem profundas raízes no período colonial (1500-1808). A dispersão nacional deles, em maior ou menor grau, tem relação com a abertura de estradas e estímulos oferecidos pelo Estado para ocupação de terras em outras regiões.
A predominância dos sobrenomes Albuquerque e Cavalcante no eixo Nordeste-Norte tem raízes profundas na capitania de Pernambuco durante o período do ciclo açucareiro nos séculos XVI-XVII, com expansão posterior para outras províncias do Nordeste e Norte. Quem se dedica há algum tempo às pesquisas genealógicas já sabe que a ocorrência de um desses sobrenomes em gerações recentes pode indicar uma ascendência nordestina remota que poderá ser documentada em obras como a Nobiliarquia Pernambucana de Antônio José Victoriano Borges da Fonseca.
Bicudo, Godoy e Camargo são sobrenomes associados à colonização mais antiga da capitania de São Vicente, na qual foram fundadas as vilas de São Vicente (1532) e São Paulo (1554). Esses sobrenomes compõem os títulos familiares da Genealogia Paulistana de Luiz Gonzaga da Silva Leme e se original nos genearcas Antônio Bicudo, natural dos Açores; e Baltazar de Godoy e Jusepe de Camargo, naturais de Castela. Descendentes desses genearcas, casados com mulheres europeias ou brasileiras, tornaram-se sertanistas ou bandeirantes. Durante a União das Coroas Ibéricas (1580-1640), eles avançaram pelo interior do território, fundando vilas e difundindo seus sobrenomes em regiões ligadas à captura de indígenas, à pecuária e, posteriormente, à mineração.
O caso de Silveira é mais curioso por se concentrar em uma mancha mais destacada no Sul do território. Embora se trate de um sobrenome bem antigo em Portugal continental, o genealogista Luiz de Lencastre e Távora, o Marquês de Abrantes, alerta que é preciso distinguir os Silveira antigos dos que descendem dos Van der Hagen, descendentes do genearca flamengo Willem van der Haegen (1430-1507), colonizador dos Açores. E talvez esteja aí a explicação do porque de esse sobrenome predominar no Sul: a região recebeu grande influxo de colonos açorianos desde a primeira metade do século XVIII.
Mais do que simples identificadores familiares, esses sobrenomes preservam vestígios da formação histórica do Brasil. Observados em conjunto e distribuídos sobre o território, tornam-se pistas valiosas sobre antigas migrações, redes de parentesco e processos de ocupação que ainda ecoam na população brasileira contemporânea.
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José Araújo é genealogista.