Aos vinte e sete dias do mês de setembro do ano de mil oitocentos e sessenta e oito, nesta freguesia de Barcos, concelho de Tabuaço, diocese de Lamego, na casa número um, às quatro horas da tarde, faleceu, não tendo recebido sacramentos da Santa Igreja, um indivíduo do sexo masculino por nome Antônio de Araújo Morgado, de idade de 66 anos, de estado casado com Ana da Silva, natural desta freguesia, morador na rua do fundo da vila, filho legítimo de José Morgado, natural da freguesia de Adorigo deste concelho, profissão proprietário, e de Josefa de Araújo, de profissão governo da casa, o qual não fez testamento, deixando filhos e foi sepultado na igreja desta freguesia por não haver cemitério público. E para constar se lavrou em duplicado este assento que assino. Era ut supra. O abade Antônio Augusto Tavares

Poucas vezes temos a oportunidade de descobrir nas fontes documentais informações tão precisas quanto as que se podem ler nesse assento de um membro de minha família em Portugal. Em registros do século XIX, a depender da freguesia e do pároco, é possível obter tal grau de precisão. Conforme retrocedemos pelos séculos, os detalhes podem se tornar cada vez mais escassos. A sorte pode, no entanto, nos favorecer e foi graças a ela que pude encontrar o endereço de minha antepassada Maria Lopes, uma portuguesa que faleceu na Bahia em agosto de 1591.

Quando faleceu, Maria era já viúva do cirurgião Afonso Mendes, mais conhecido como Mestre Afonso, com quem ela viera de Portugal em 1557. Em Lisboa, o mestre ocupava o cargo prestigioso de cirurgião-mor, e sua vinda ao Brasil foi uma concessão real a um pedido seu. Com eles vieram os filhos Álvaro, Ana, Branca, Manoel e Violante. A família se estabeleceu na cidade de Salvador, então capital da colônia portuguesa, onde Afonso foi cirurgião principal e boticário, além de se tornar médico do governador-geral Mem de Sá (1504-1572) e acompanhá-lo pelo território. Os Lopes-Mendes eram cristãos-novos e acabaram sendo acusados várias vezes e, em alguns casos, chamados para prestar depoimentos diante do visitador do Santo Ofício da Inquisição em 1591. As acusações foram todas devidas ao fato de eles ainda manterem práticas judaicas, que eram proibidas.

Embora nenhum deles pareça ter sido condenado por judaizar, como se dizia, Maria Lopes apresentou-se duas vezes para prestar depoimento ao visitador. Mas foi por um depoimento prestado contra seu filho Álvaro que pudemos conhecer o endereço de Maria, ou, ao menos, o logradouro onde ficava sua residência em Salvador, que na época era uma cidade murada a que se fazia acesso por meio de portas, como nas cidades feudais europeias. Havia lá duas portas de interesse: “a de Santa Catarina ao norte e a de Santa Luzia ao sul, flanqueadas por baluartes com pontes levadiças sobre os fossos circulantes“. A porta de Santa Luzia ficava nas imediações de onde hoje se localiza a Praça Castro Alves, famoso atrativo turístico da cidade.

Enfim, leiamos o trecho relevante do depoimento que prestou, em 29 de julho de 1591, o cristão-velho Gaspar Dias de Figueiroa contra Álvaro Pacheco, pois é em trecho dele que temos a pista sobre o endereço de Maria Lopes:

E outrossim denunciou [Gaspar Dias de Figueiroa] que, haverá três ou quatro meses, que, estando ouvindo missa em Nossa Senhora da Ajuda, cantou a epístola um capelão da Sé e depois que a acabou, saindo para fora pelo meio da Igreja, disse Álvaro Pacheco, cristão-novo, que parece de idade de trinta e cinco anos, solteiro, estante nesta terra em casa de sua mãe Maria Lopes, na travessa de Diogo Lopes Ulhôa, e o dito Álvaro Pacheco disse estas palavras: “como aquele vai contente” […]

Pelo depoimento descobrimos que o debochado Álvaro Pacheco teria 35 anos e ainda era solteiro em 1591. E podemos supor que tivesse endereço próprio, pois o depoente diz que ele era “estante” – e não morador – com Maria Lopes na casa dela “na travessa de Diogo Lopes Ulhôa”. Na época, os logradouros costumavam ser conhecidos pelo nome das pessoas importantes que neles residiam. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a famosa Rua do Ouvidor, nossa contemporânea, foi durante algum tempo conhecida como Rua de Aleixo Manoel, um dos mais antigos moradores dessa cidade que lá teve sua residência. Diogo Lopes Ulhôa, cristão-novo, foi um homem importante em Salvador, afinal foi senhor de engenho e proprietário de terras e casas. E deve ter tido muitos desafetos, pois 65 pessoas o denunciaram ao Santo Ofício.

Sobre a travessa de Diogo Lopes, a professora Anita Novinsky nos informa que o Livro Velho do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade do Salvador (MCMXLV, p. 24) localiza seu início na porta [da cidade] de Santa Luzia por detrás da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, justamente a igreja onde Álvaro Pacheco fez um comentário debochado a respeito do capelão da Sé. Construída em pau a pique pelos jesuítas em 1549, durante o governo de Tomé de Souza, essa igreja recebeu o nome da santa que veio em uma das naus da frota do governador-geral. Ela serviu tanto aos jesuítas quanto como sede paroquial, chegando a funcionar de forma improvisada como Sé catedral por volta de 1551.

Mapa do engenheiro militar holandês Joos Coecke (1624)

Entre 1624 e 1625, os holandeses invadiram Salvador e ocuparam vários prédios da cidade. Graças a essa ocupação, temos o mapa de 1624 que se vê acima, elaborado pelo engenheiro militar holandês Joos Coecke. Nele se localiza a igreja da Ajuda no item 31 (círculo vermelho), que foi nomeada em holandês como “De kercke van Onse Vrouwe” ou “Igreja de Nossa Senhora” seguido de duas palavras, sendo uma delas aparentemente noot, que poderia ser uma variante linguística para nood, que significa necessidade, aflição, perigo. É importante saber que o culto à Senhora da Ajuda “teve início na Idade Média, quando Maria era invocada para proteger navegadores e caravelas que enfrentavam perigos ao atravessar mares e oceanos“. No item 34 (círculo amarelo), por curiosidade, está uma construção cuja identificação na legenda parece querer dizer Het Chirurgijns Huijs, ou Casa do Cirurgião, no idioma do invasor.

Já na Planta da Restituição da Bahia de João Teixeira Albernaz (1631), vista abaixo, a igreja é identificada como “Igreja de N. S. da Ajuda que servia de adega aos inimigos, que cercaram com uma estaqueada de madeira por fora”, indicando que os invasores holandeses haviam profanado o templo, cercando-o e usando-o como depósito e posto de defesa ou ataque contra os baianos. Já no sítio da Arquidiocese de Salvador informa-se que a igreja foi usada como paiol durante a invasão holandesa.

Planta da Restituição da Bahia de João Teixeira Albernaz (1631)

Para além da localização precisa da igreja, que foi o ponto de referência para localização do endereço de Maria Lopes, interessa saber que pessoas relacionadas a essa igreja foram denunciadas de judaísmo na primeira (1591) e, principalmente, na segunda (1618) visitação do Santo Ofício, da qual “existem vários processos que se relacionam com a irmandade e a igreja”, afirma o casal de pesquisadores Egon e Frieda Wolff na obra Fatos Históricos e Mitos da História dos Judeus no Brasil (p. 22).

Ela “foi mencionada, por diversas vezes, como a igreja dos cristãos-novos, em torno da qual residiam muitos deles”, complementa o casal Wolff na mesma obra, citando a professora Anita Novinsky. Maria Lopes era, portanto, uma das moradoras judaizantes vizinhas dessa igreja, que ficaria bem próximo do imóvel onde, se pudermos dar crédito à legenda do mapa holandês, o falecido Mestre Afonso, seu marido, dava expediente como cirurgião e boticário.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista