Um dos personagens misteriosos de minha árvore e de quem acredito descender por meu ramo materno se chama Felipe Nery de Moura. Ele nasceu na freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, Rio de Janeiro, por volta de 1715, e faleceu na mesma freguesia em 17 de junho de 1802, quando era já viúvo de Páscoa Maria de Oliveira. Em texto anterior, sugeri que, além dos dois filhos já conhecidos do casal – José de Oliveira e Souza e Manoel de Moura Álvares – , haveria uma filha mais velha que faleceu solteira aos 40 anos de idade e que em adulta usava o mesmo nome de sua mãe. A filiação do patriarca Felipe segue ignorada e tentar descobri-la é o desafio que proponho com este texto.

Felipe Nery de Moura e seu filho José de Oliveira Souza, ambos já viúvos, identificados no censo de 1797

Uma primeira pista a seguir na tentativa de identificar a filiação de Felipe poderia estar nos sobrenomes usados por seus filhos. A filha Páscoa Maria parece ter seguido com o nome completo de sua mãe, portanto o sobrenome Oliveira poderia ser apenas do ramo materno. Seu irmão José de Oliveira e Souza parece ter seguido pelo mesmo caminho ao menos no primeiro sobrenome, mas não podemos atestar que o Souza não estivesse na ascendência paterna. O irmão Manoel seguiu com o Moura paterno e um Álvares que não sabemos se era paterno ou materno, embora eu suspeite que lhe tenha vindo pela ascendência de seu pai Felipe Nery.

Óbito de Felipe Nery de Moura (1802)

Na falta de mais registros documentais sobre o patriarca e sua esposa, passei a analisar registros de batismos e casamentos de escravizados de Jacutinga relativos ao período compreendido entre 1686 e 1721, que poderiam trazer informações sobre os fazendeiros dessa freguesia. Nesses registros poderiam ser mencionadas pessoas da sociedade local em que os sobrenomes Álvares, Moura, Oliveira e Souza ocorressem. E foi assim que encontrei o primeiro assento que se lê abaixo.

Aos vinte e quatro do mês de junho de mil setecentos e dez batizei e pus os santos óleos nesta igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Mariana, filha de Maria, solteira, escrava de Manoel Coelho Fernandes; e foram padrinhos Manoel de Moura Alves e para constar fiz este assento era e dia ut supra. O Padre Simão da Fonseca

É interessante que o padrinho da menina Mariana, que poderia ser um homem branco da elite local, fosse quase homônimo de um dos filhos de Felipe Nery. Aqui importa lembrar que era costume naqueles tempos batizar os filhos com os prenomes dos avós e que esses filhos poderiam, em adultos, seguir também com os sobrenomes desses antepassados diretos. Mas o registro acima não foi o primeiro a mencionar um Manoel de Moura, pois existe no mesmo livro outro assento, do ano anterior, que parece também fazer menção a ele, como se lê a seguir.

Em os doze dias do mês de março de mil setecentos e nove batizei e pus os santos óleos nesta igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Francisca, filha de Maria, escrava de José Leitão Lisboa, filha natural, e foram padrinhos Manoel de Moura e madrinha Joana, escrava de Francisco da Silva; e para tudo constar fiz este assento era e dia ut supra. O Padre Simão da Fonseca

O Manoel de Moura Alves de Jacutinga também teve escravizados de seu plantel apadrinhados por outros fazendeiros.

Aos doze dias do mês de junho de mil setecentos e quinze batizei e pus os santos óleos nesta igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Marta, filha de Catarina, solteira, do gentio de Guiné, escrava de Manoel de Moura Alves; e para constar fiz este assento era e dia ut supra. O Padre Simão da Fonseca

Aos vinte e oito dias do mês de janeiro de mil setecentos e vinte batizei e pus os santos óleos nesta igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Inês, filha de Antônio e Catarina, escravos de Manoel de Moura Alves; e foram padrinhos Tomázio de Figueiredo e Isabel Cardoso; e para constar fiz este assento era e dia ut supra. O Padre Simão da Fonseca

Aos trinta dias do mês de junho de mil setecentos e vinte batizei e pus os santos óleos nesta Igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Marcelina, filha de Páscoa, solteira, do gentio de Guiné, escrava de Manoel de Moura Alves; e foi padrinho Domingos dos Santos; e para tudo constar fiz este assento era e dia ut supra. O Padre Simão da Fonseca

Neste próximo assento, Manoel aparece novamente como padrinho, mas aqui surge uma pista mais importante: o nome de sua esposa, cujo sobrenome ocorre também na descendência de Felipe Nery de Moura.

Aos trinta e um dias do mês de dezembro de mil setecentos e quinze batizei e pus os santos óleos nesta igreja de Santo Antônio de Jacutinga a Silvestre, filho de Albana, do gentio de Guiné, solteira, escrava de Domingos Ferreira de Passos; e foram padrinhos Manoel de Moura e sua mulher Ana Maria de Oliveira. O Padre Simão da Fonseca

Ainda nesse tópico da propriedade de escravizados, descobrimos que Manoel teve uma escravizada chamada Bernarda que lhe pagou pela própria liberdade. O historiador Nireu Cavalcanti relatou esse caso no primeiro texto da série de suas Crônicas do Rio Colonial publicadas no Jornal do Brasil. A crônica em questão foi publicada em 28 de junho de 1999 e dela transcrevo alguns trechos relevantes.

A escrava da própria filha _ No tempo da escravidão, as relações entre escravos e senhores tinham meandros impensáveis. Somavam-se casos de pais escravos de seus filhos, irmãos servos de irmãos e muitas outras situações insólitas. O caso de Bernarda de Souza, parda (mulata) forra, viúva de Francisco José Botelho [n.a.: o nome correto é Francisco João Botelho, nome do português com quem ela se casou em 10/04/1739 e com quem teve ao menos o menino Francisco, batizado em 6/06/1743], ilustra bem estes absurdos. Bernarda havia sido bem sucedida financeiramente. Comprara a Manoel de Moura Alves, com recursos próprios, sua alforria, e ainda uma escrava para servi-la. Tratava-se de escrava muito especial, pois não era outra senão sua própria mãe, a parda Marta de Souza [n.a.: o nome correto é Maria de Souza, que a tivera fora do casamento com Domingos Antunes na freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, como se informa no assento matrimonial]. [Maria] permaneceu por muitos anos nesta condição estranhíssima: a de ser a escrava da filha. Com o tempo, Bernarda envelheceu e ficou com a saúde debilitada. Já não era mais aquela parda altiva que não tinha hora para trabalhar, afamada por sua saúde de ferro. Passava o tempo reclamando de uma doença e com a sensação de que não escaparia com vida do súbito mal. Preocupou-se então com o destino da mãe escrava, a quem tratava com “a veneração devida de uma filha”. De certo, outro senhor não lhe daria tratamento igual. A ideia da morte passou a preocupar Bernarda. E a possibilidade de sua mãe vir a ser leiloada a apavorava. Ela sabia que este era o costume, já que não tinha herdeiros. Se Bernarda não providenciasse um testamento, seus bens iriam para o Estado. Se enchendo de coragem, em setembro de 1755 Bernarda foi ao cartório para finalmente registrar a carta de alforria de sua mãe, tornando-a livre. […] _ Documento de 27/09/1755, do 1º Ofício de Notas do Arquivo Nacional-RJ

Considerando a cronologia de eventos citados por Nireu e acrescentados por mim após pesquisa – compra da alforria antes de 1739, considerando a necessidade de tempo para acúmulo de um pecúlio; casamento em 1739, sem menção ao fato de ela ser parda ou forra; nascimento de suposto único filho em 1743; envelhecimento e doença por volta de 1755 – , podemos estimar que Bernarda tenha nascido na freguesia de Santo Antônio de Jacutinga na primeira década do século XVIII, possivelmente entre 1705 e 1710, admitindo-se uma faixa ampliada entre 1700 e 1715. Nesse período, portanto, Manoel de Moura já teria seu plantel de escravizados, ao qual pertenciam Bernarda e sua mãe Maria, pelo que deduzimos que ele fosse um homem adulto e maduro.

Para além da posse de escravizados, Manoel de Moura Alves também fazia negócios, e ele tem seu nome mencionado em uma transação que envolveu a compra de 62 braças e meia de terras em Jacutinga. O ato foi registrado no 4º Ofício de Notas da cidade do Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1743, portanto sabemos que ele faleceu após essa data. As terras foram compradas de Francisco Pacheco de Peralta, irmão de meu antepassado Gaspar Cordeiro de Peralta. A transcrição que se lê a seguir foi obtida no Banco de Dados da Estrutura Fundiária do Recôncavo da Guanabara, compilado por Mauricio de Almeida Abreu.

Escritura de venda de terras. 62 braças e meia de terras de testada e com o sertão que se achar. Que fazem Francisco Pacheco de Peralta e sua mulher Dona Bárbara de Menezes a Manoel de Moura Alves. Sito na freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, onde chamam (Sapatatiba). De uma banda partem com ele comprador e da outra com terras dele comprador com casas que foram a Brás Rodrigues Cachoro (?) [n.a.: provavelmente Brás Rodrigues Veloso, que foi casado com Marcela de Menezes, esta natural de Jacutinga] e pela testada com terras do engenho de Gambú [n.a.: segundo pesquisa de Mauricio de Almeida Abreu, seria Gamboi ou Gembohy, onde havia um engenho “de invocação Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio”]

As evidências sugerem que Manoel de Moura Alves possa ter nascido nos anos de 1680; tenha se casado com Ana Maria de Oliveira na primeira década dos anos de 1700, quando nasceu seu filho Felipe Nery; e tenha falecido algum tempo após a transação de terras de 1743. Reconheço que a hipótese está sujeita a críticas quanto à falta de uniformidade no registro do nome – que ora aparece como Manoel de Moura e ora como Manoel de Moura Alves – e ainda que jamais a ele é atribuído o sobrenome Álvares, que ocorre na descendência de Felipe.

Por outro lado, como se lê na obra Descubra as suas Origens (1ª edição, p. 168), o patronímico Álvares passou a ser abreviado como Alves perto do século XVII. Além disso, existe registro de batismo de um filho de Manoel de Moura Álvares, portanto neto de Felipe Nery, em que o nome do pai da criança é escrito com os sobrenomes invertidos e com a forma abreviada de Álvares, como se lê a seguir.

Aos vinte e três dias do mês de maio de mil setecentos e oitenta anos, nesta freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, batizei e pus os santos óleos a Joaquim, inocente, filho legítimo de Manoel de Moura, digo, Alves de Moura, natural e batizado nesta freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, e de Eugênia Inácia da Conceição […] neto por parte paterna de Felipe Nery de Moura e de Dona Páscoa Maria de Oliveira, naturais e batizados nesta mesma freguesia de Jacutinga […]

Não obstante as eventuais críticas, sigo com a possibilidade de que Felipe Nery de Moura fosse filho de Manoel de Moura Alves e Ana Maria de Oliveira. A repetição do sobrenome Oliveira tanto na suposta ascendência de Felipe como no nome de sua esposa Páscoa Maria, por sua vez, levanta a suspeita de que tenha havido um casamento entre parentes, portanto com dispensa de consanguinidade.

Seguem como hipóteses à busca de evidências comprobatórias.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista