A mãe de Cora sempre dizia que o vento mexe com as crianças, que até as mais quietinhas voltam meio selvagens da rua depois de brincar. É isso que Cora sente agora, essa inquietação. Lá fora, rajadas de vento sacodem os pinheiros nos fundos de casa e passam pela lateral para se lançar contra o portão. Dentro dela, as preocupações também se agitam num turbilhão. Porque amanhã — se o dia amanhecer, se a tempestade der uma trégua — Cora vai registrar o filho. Ou talvez, e é isso que a preocupa de verdade, vá oficializar quem ele vai se tornar. Cora jamais gostou do nome Gordon. O jeito como começa com um estalo, que lembra uma bala rígida quebrando na boca, e termina com um baque, como se alguém largasse uma bolsa pesada no chão. Gor-don. Porém o que mais a incomoda é que agora ela vai ter de verter a bondade do filho nesse molde, na esperança de que ele seja forte o bastante para encontrar seu próprio formato dentro disso. Porque Gordon é um nome que passa de geração em geração na família do marido, e parece que é impossível ser de outro jeito.
Esta citação contém as primeiras linhas do romance Os Nomes, de Florence Knapp, eleito o livro do ano pelo Sunday Times e pelo Daily Mail. Nessa obra, a autora acompanha três versões possíveis da vida de um mesmo homem a partir de uma única decisão tomada por sua mãe no dia de seu registro civil: qual nome lhe dar. Em narrativas paralelas que se estendem por décadas, o romance explora como identidade, relações familiares, amor, violência, escolhas e acaso podem moldar destinos distintos, questionando até que ponto somos definidos pelas circunstâncias que herdamos ou pelas decisões que tomamos. A obra em si não tem relação com o campo da Genealogia, mas o tema que ela propõe traz reflexões sobre as escolhas que nossos antepassados fizeram ao nomear seus filhos.
Em vários textos sobre onomástica publicados aqui, discorri sobre os padrões que podem ser observados na escolhas que nossos antepassados faziam ao nomear seus filhos. O padrão mais interessante era o de dar aos filhos prenomes que existiam nas gerações dos avós e bisavós paternos e maternos. O conhecimento desse padrão fornece enorme valor preditivo quando inexistem documentos que informem das gerações anteriores. Tenho um caso bem ilustrativo no ramo de meus tetravós José Pereira da Silva (1809-1893) e Firmiana Maria da Conceição (1822-1897), que deram aos filhos os nomes de Felizarda (mesmo da bisavó materna), Damiana (da avó paterna), João (do bisavô paterno), Preciosa (da avó materna) e Francisco (do avô paterno).

Para além desse padrão, havia famílias nas quais um nome seguia “de geração em geração”, como narrado no romance de Florence Knapp. A leitura da obra me despertou para um fato que já estava registrado em minha árvore familiar e que agora me pareceu curioso: o patriarca português Francisco Antônio Pereira Belém (1746-1833), primeiro a usar esse sobrenome que chegou até minha mãe, era filho de um Francisco Pereira de Faria, neto e bisneto de dois Franciscos que usavam o sobrenome Pereira e trineto de um Francisco que usava o sobrenome Gonçalves.
Os dois padrões falam de escolhas, mas não necessariamente de expectativas. Nomear um filho, afinal, pode representar um ato de projeção de desejos para o futuro dessa nova pessoa. E isso me faz lembrar o meu próprio caso. Minha mãe certa vez confidenciou que não gostava do meu nome. Certo que é um nome muito comum e que inevitavelmente tem como destino uma forma reduzida – Zé, Zeca, Zeco, Zezim, Zezinho – , mas isso não me incomoda. A confidência foi complementada pela explicação de que a escolha do nome foi de meu pai, que com isso quis homenagear seu meio-irmão José Macedo de Araújo (1895-1972).
Tio José, que não me lembro de ter conhecido, foi um homem empreendedor que chegou a ser muito rico, mas perdeu seu patrimônio na velhice, como já contei em outro texto. Imagino que meu pai tenha desejado que, ao receber o nome desse seu irmão tão poderoso, eu mesmo me tornasse um poderoso homem de negócios ou algo parecido. Nunca lhe fiz essa pergunta, infelizmente. Mas fica a reflexão para a necessidade de estar consciente dos costumes familiares e de eventuais projeções que podem ocorrer no ato da escolha do nome de um filho.
José Araújo é genealogista.