Em vídeo recente publicado em seu canal A Modista do Desterro, a historiadora da moda Pauline Kisner aborda os costumes de namoro, casamento e vida afetiva dos brasileiros ao longo dos séculos, estabelecendo como foco os costumes do século XIX. A estudiosa, no entanto, traz informações valiosas sobre costumes que devem ter operado também em séculos anteriores e que consigo relacionar a fatos das vidas de meus antepassados já documentados em mais de uma década de pesquisa genealógica.

A primeira informação é de que o casamento era um negócio. E assim foi desde os primórdios da colonização, quando os primeiros homens europeus chegavam sozinhos e logo se uniam às mulheres ameríndias. Tais uniões nem sempre eram abençoadas pela Igreja, mas deviam ser validadas pelos morubixabas segundo o costume do cunhadismo, pelo qual este oferecia uma de suas filhas ao forasteiro, que assim se tornava aliado em caso de conflitos com outros grupos locais – um negócio que não necessariamente envolvia ganho financeiro, mas garantia a sobrevivência. Esse costume explica, por exemplo, a união entre o português João Ramalho e a indígena Bartira, filha do morubixaba Tibiriçá. A descendência desse casal está descrita na monumental Genealogia Paulistana de Silva Leme.

Fatores ligados à origem familiar e à reputação social também influenciavam os casamentos. Esses fatores parecem ter sido relevantes para os cristãos-novos, que também vieram cedo colonizar o território. Poderiam vir sozinhos, como parece ter ocorrido com o português Cristóvão Dinis (1525-1576), que no Brasil casou-se com Maria Camacho (1550-?), descendente de terceira geração de João Ramalho e Bartira, portanto representante de uma já constituída elite da terra. Caso distinto foi o de Afonso Mendes (1490-1577), cirurgião-mor da corte que veio para Salvador em 1577 acompanhando o governador-geral Mem de Sá, de quem se tornou médico pessoal. Sua vinda foi autorizada pelo rei e é provável que ele tenha trazido a mulher Maria Lopes (1521-1598), também cristã-nova, e cinco filhos, dos quais dois – Álvaro Pacheco e Branca de Leão – casaram-se no Brasil com cristãos-novos.

Em outro trecho, a especialista aborda a formação familiar entre pessoas escravizadas, que muitas vezes era estimulada pelos senhores como forma de aumentar o plantel sem recorrer aos altos preços do mercado de gente. Ela menciona que, apesar de haver esses casos de relações por interesse dos senhores, os escravizados também formavam suas famílias espontaneamente. Assim pode ter ocorrido com os africanos Estêvão Gonçalves Dias (1721-1780) e Mariana de Souza (1727-?), cuja primeira filha Antônia, batizada no Rio de Janeiro em junho 1742, já era forra, ou seja, liberta. Estêvão era barbeiro, e isso sugere a possibilidade de ele haver acumulado recursos que contribuíram para a obtenção da liberdade da família.

Casamento de negros de uma casa rica – Jean-Baptiste Debret, 1826

Meu último destaque no vídeo de Pauline está nos relacionamentos extraconjugais de homens ricos, que mantinham famílias paralelas com mulheres que, por conta do poder desses homens, conquistavam projeção social para si ou para seus filhos. Aqui penso que possa trazer o caso de minha quarta-avó Maria Teresa da Paz (1791–1855). Embora casada com o capitão Joaquim Francisco do Rego (1766-1837), ela viveu separada dele durante dezesseis anos e manteve união com o fazendeiro Pedro Cipriano Pereira Belém (1795-1860), com quem teve cinco filhos, todos reconhecidos em cartório. Do marido, ela talvez tenha tido Pedro – meu trisavô – e José Gomes de Moraes, que levaram o sobrenome dela, levantando suspeita de que fossem filhos do amante e não do marido.

Assista ao vídeo dessa aula interessantíssima:


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista