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Quem pesquisa a genealogia da própria família costuma encontrar alguns “esqueletos no armário“, como se diz em inglês. Esses esqueletos podem aparecer sob a forma de filhos bastardos, para mencionar apenas os casos mais triviais, mas podem envolver situações mais complicadas. É por causa desses esqueletos que muitos familiares se negam a fornecer informações valiosas que permitam o avanço da pesquisa.

O caso que narro neste texto envolve meu oitavo avô Rafael da Veiga (1670-1711), que se casou em 1693 com Ângela Correa Pereira. Cinco anos após esse casamento e o nascimento de seu filho Carlos, em 1697, Rafael teria “pulado a cerca”, como se diz no Brasil, com a moça solteira Isabel Soares. É o que informa, sem rodeios, o assento de batismo do menino Manoel, transcrito abaixo:

Em os onze dias do mês de janeiro de mil e seiscentos e noventa e oito anos, nesta igreja de São Faustino da Granja do Tedo, eu, o padre Domingos Vicente Pereira, cura da dita igreja, pus os santos óleos a Manoel, filho de Rafael da Veiga e de Isabel Soares, a qual, moça solteira, publicamente disse era o dito Manoel filho do dito Rafael da Veiga, homem casado. Foi padrinho José Soares, clérigo in minoribus. De que fiz este termo, que assinei dia, mês e ano ut supra.

Igreja Matriz de Granja do Tedo / Igreja de São Faustino e São Jovita

Não foi a primeira vez que meu oitavo avô Rafael pulou a cerca com a dita Isabel Soares, como se pode constatar no assento abaixo, de data anterior.

Em os oito dias do mês de agosto de seiscentos e noventa e seis anos, nesta igreja de São Faustino da Granja do Tedo, eu, o padre Domingos Vicente, cura da dita igreja, batizei solenemente a Feliciana, filha de Isabel Soares, moça solteira, e de Rafael da Veiga, ambos desta vila. Foram padrinhos José Salvado, de Longa, e Magdalena, fila de Manoel de Amaral, desta vila. De que fiz este termo, que assinei dia, mês e ano ut supra.

Esse foi o primeiro caso que encontrei em uma árvore que hoje conta mais de 2000 antepassados já falecidos. Casos recentes na memória dos familiares talvez fossem mais sensíveis e causassem desconforto, mas casos remotos como os descritos podem trazer a curiosidade sobre a existência de primos distantes em ramos familiares ainda por descobrir.


José Araújo é linguista e genealogista.