Louca

A leitura atenciosa dos assentos paroquiais põe em evidência informações que nos ajudam a contar a história de nossos antepassados e até a descoberta de transformações em suas vidas. Um caso que se destaca em minha árvore familiar é o de Isabel, minha nona avó, sobre quem já havia tratado em outro texto.

A origem familiar de Isabel ainda é desconhecida, pois os assentos disponíveis para a primeira metade dos anos de 1600 na região de Tabuaço, Viseu, contêm poucas informações de onde extrair a ascendência dos batizados. O que se sabe sobre ela é que teve um filho de seu patrão quando era solteira. Esse filho foi Manoel Rabelo, meu oitavo avô, nascido em 1670 e batizado no primeiro de janeiro de 1671 na vila de Barcos. Seu assento de batismo informa apenas da relação de trabalho existente entre seus pais:

Batismo de Manoel – 1/01/1671 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Em o primeiro dia do mês de janeiro de mil e seiscentos e setenta e um anos, pus os santos óleos a Manoel, filho de Isabel, aloqua (a louca), e de António Rabelo seu amo. Assistiram aos exorcismos por padrinhos João de Araújo e sua filha Maria Pereira. O qual fiz batizado em casa pelo padre Domingos Simões, ecônomo nesta igreja, de que que fiz este que assino. O padre António Alvares de Carvalho

Pelo que se lê no assento matrimonial de Manoel, de 14 de janeiro de 1698, seus pais parecem não ter se casado após 21 anos, pois sua mãe é identificada como moça solteira:

Casamento de Manoel Rebelo e Maria Tates – 14/01/1698 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Em os catorze dias do mês de janeiro da era acima dita recebeu o reverendo beneficiado Baltazar Borges a Manuel Rebelo (sic), filho de Antônio Rebelo (sic), morador na vila de Sendim, com Maria Tates, de Belchior Fernandes e de sua mulher Domingas de Deus, feitas as denunciações na forma do sagrado Concílio Tridentino e constituições do bispado. Foram testemunhas Bernardo Osório e Domingos da Cunha, todos desta vila. E declaro que a mãe do esposado se chama Isabel de Matos, moça solteira. E pelo padre Manuel da [?] fizesse este termo q assinei.

Esse documento ao menos informa o sobrenome de Isabel, que não mais é identificada apenas como “a louca“. É uma pista para que se possa localizar suas origens familiares, mas ainda uma pista insuficiente. Sabemos que Isabel faleceria onze anos após o casamento do filho e é graças a seu assento de óbito que descobrimos algo importante sobre sua condição e talvez algo mais sobre sua descendência.

Óbito de Isabel de Matos – 10/12/1709 – Barcos, Tabuaço, Viseu

Aos dez dias do mês de dezembro de mil e setecentos e nove faleceu Isabel de Matos com todos os sacramentos, abintestada. Está sepultada nesta igreja. Seu filho Manoel Rabelo herdeiro. Fiz, assinei dia, mês, era ut supra. O padre Antonio de Bastos Cardoso

Segundo o registro, embora não tenha feito testamento, Isabel morreu deixando bens, dos quais houve apenas um herdeiro. Não se sabe se ela herdou os bens do pai de seu único filho conhecido nem se ela acumulou patrimônio próprio durante a vida e como resultado de seu trabalho, mas é facto que esse patrimônio existia. De alguma forma que talvez não possamos descobrir, sua vida se transformou.


José de Araújo é linguista e genealogista