Post-mortem

Diversas postagens aqui no blogue dizem respeito a um dos ramos de minha árvore que ainda apresenta lacunas. Isso ocorre pelo facto de meu bisavô materno João Pereira Belém (1854-1921) carregar o sobrenome composto de uma família poderosa de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica, Rio de Janeiro. Por meio de evidências documentais e genéticas, sei que João tinha, em seu ramo paterno, um antepassado europeu, muito provavelmente oriundo de Portugal, embora não se saiba se esse antepassado era seu pai ou avô. O problema está na constatação de que todos os filhos de João foram registrados como pardos, o que sugere uma origem africana ainda não identificada.

Enquanto o enigma não se resolve, trabalho na árvore dos Pereira Belém brancos, proprietários de terras e escravos, cujos membros se casaram com os Soares da Silva, família de mesma condição social na região de Bananal de Itaguaí. Uma fonte importante para a elaboração dessa árvore são os inventários post-mortem, pelos quais se esclarecem as relações de ascendência e descendência de alguns membros dessas famílias tão endogâmicas.

Um personagem que desperta atenção nos inventários disponíveis já analisados é Pedro Cipriano Pereira Belém (1795-1860), filho de Francisco Antônio Pereira Belém, até o momento o patriarca identificado dessa família, e Joana Maria de Jesus. Pedro deixou cinco herdeiros identificados em seu testamento – Maria José, Francisco Cipriano, Manoel, Francisca Rosa e Fernando -, embora nunca tenha sido casado. Essa informação pode ser extraída de seu testamento, citado no inventário:

Declaro que sou solteiro, em cujo estado tive cinco filhos de nomes Manoel Pereira Bellem, Francisco Cyprianno Pereira Bellem solteiro, Maria José Bellem casada com Leocádio Pamplo digo Pamplona Cortes, Francisca Pereira Bellem casada com Manoel Ignacio Barboza os quais se achão perfilhados e legitimados por Escriptura publica passada no Cartorio do Tabellião da […] freguesia do Bananal os quaes os reconheço como meos filhos para que possão entrar na herança de meos bens, direito e acções como se fossem havidos de legitimo matrimonio como meos unicos herdeiros que são […]

O filho Fernando é nomeado mais adiante:

Declaro que nomeio para meos testamenteiros e administradores de meos bens em primeiro lugar a meo filho Manoel Pereira Bellem, em segundo lugar a meu filho Francisco digo Fernando Pereira Bellem […]

Embora os filhos sejam reconhecidos e legitimados, o nome da mãe deles não é citado nesse testamento, sendo descoberto apenas por meio dos assentos de batismo dos netos de Pedro Cipriano, como o que apresento e transcrevo a seguir.

Batismo de Mafalda – 30/07/1850 – Bananal de itaguaí

Mafalda, filha legítima de Leocádio Pamplona Cortes e Maria José Belém, naturaes deste curato, neta paterna de João Pereira de Farias e Maria Amália das Neves; e materna de Pedro Cipriano Pereira Belém e Maria da Paz. Nasceu a sete de abril do ano de mil oitocentos e cinquenta, foi solenemente batizada com imposição dos santos óleos por mim abaixo assinado no dia trinta de julho do dito ano. Foram padrinhos Protetora Nossa Senhora da Conceição e Manoel Pereira Belém, de São Pedro e São Paulo. Para constar fiz este assento que assino hoje, era ut supra.

Maria da Paz é identificada como Maria Tereza da Paz em outros assentos de seus netos. Ela faleceu em 1855 e seu assento, exibido abaixo e transcrito a seguir, informa que era viúva, embora Pedro Cipriano declare que tenha morrido solteiro. Poderia se tratar de uma homônima, mas a informação de que era moradora na freguesia de São Pedro e São Paulo – possivelmente a atual Paracambi – é coerente com o que se sabe sobre a residência de Pedro Cipriano.

FamilySearch – São Francisco Xavier da Catedral Óbitos 1847, Out-1862, Nov

Aos trinta dias do mês de agosto de mil e oitocentos e cinquenta e cinco foi sepultado no cemitério da irmandade do Santíssimo Sacramento desta igreja e freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal Maria Tereza da Paz, branca, fluminense, idade cinquenta anos, viúva, moradora na freguesia de São Pedro e São Paulo. Foi por mim encomendada e pelo Rdo. Coadjutor da freguesia. De que para constar fiz este assento.

Em seu testamento, contido no inventário post mortem a que tive acesso, Pedro Cipriano deixa ainda para seus herdeiros orientações detalhadas a fim de deem tratamento especial a três filhos libertos de suas escravas: Matilde, filha de Mariana; Angélica, filha de Ludovina; e Júlio, filho de Henriqueta. Isso possivelmente sinaliza que sejam filhos do próprio Pedro com as escravas nomeadas.

Embora tragam informações preciosas, os inventários post-mortem não estão facilmente acessíveis e talvez precisem ser solicitados nos arquivos do Poder Judiciário.


José Araújo é genealogista.

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