Paz

Acredito que uma grande angústia sentida por quem começa a busca pela história de sua família resulte da descoberta de que um ramo da árvore familiar parece não levar a lugar nenhum. Isso pode ocorrer por falta de informações que permitam a pesquisa por documentos em casas de parentes, cartórios ou sites como o FamilySearch, mas também pode ocorrer porque não há documentos que possam ser encontrados.

Durante muito tempo, convivi com a angústia descrita porque minhas tias maternas ainda vivas não tinham informações nem documentos sobre seus avós. Certa vez, uma delas me revelou que nossa família viria de Bananal, que eu supus ser uma localidade no estado de São Paulo. Só alguns anos depois descobri que era uma localidade bem mais próxima de Nova Iguaçu, onde nossa família – os Pereira Belém – se estabeleceu em algum momento depois que saiu de Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica.

Os nomes de meus bisavós eram conhecidos: João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição. Mas nada mais sabia a respeito deles até que encontrei no FamilySearch a certidão do casamento tardio do casal, que já vivia em união mais que estável, da qual resultaram oito filhos, entre eles meu avô Enéas. Eis a transcrição desse documento:

Número 11. Aos 17 dias do mês de novembro do ano de 1900, neste distrito de Marapicu, município de Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, ao meio-dia na casa de residência e sala de audiências do primeiro Juiz de Paz Major Manoel Pinto Marques, presente este juiz, comigo escrivão de seu cargo, abaixo nomeados os contraentes João Pereira Belém e Theodora Maria da Conceição […] receberam-se em matrimônio segundo o regime comum os ditos contraentes: o primeiro com 52 anos de idade, agricultor, filho ilegítimo de Joaquina da Conceição, o segundo com 48 anos de idade, filha ilegítima de Maria Gaspar, ambos naturais do Distrito de Bananal de Iguaçu, digo, Bananal de Itaguaí e domiciliados neste distrito, os quais declararam no mesmo ato que antes do matrimônio tiveram os seguintes filhos: Pedro Pereira Belém, com 21 anos de idade, João Pereira Belém, com 19 anos de idade, Sérvulo Pereira Belém, com 16 anos de idade, Antônio Pereira Belém com 14 anos de idade, Enéas Pereira Belém, com 12 anos de idade, Adriano Pereira Belém, com 9 anos de idade, Manoel Pereira Belém, com 5 anos de idade, Maria Pereira da Conceição, com 7 anos de idade. Em firmeza do que lavrei este termo que li e vai assinado pelo juiz por Antônio Macedo de Freitas e Olympio Antunes da Costa Suzano, estes a rogo dos contraentes que não sabem ler nem escrever e as testemunhas referidas. Eu José Ferreira da Costa Madeira, oficial do Registro Civil escrevi.

Infelizmente, o documento informa que meus bisavós eram filhos ilegítimos, ou seja, seus pais não os reconheceram em vida ou em testamento. Esse tipo de descoberta concretizaria bem o que foi dito antes sobre ramos que não levam a lugar nenhum não fosse a descoberta de que meus bisavós tiveram mais dois filhos, um deles apenas alguns meses após o casamento civil. A certidão de nascimento desse filho está transcrita a seguir.

Aos vinte e quatro dias do mês de fevereiro de mil novecentos e um […] compareceu em meu cartório João Belém […] no dia vinte e um do corrente mês e ano […] nasceu uma criança do sexo masculino, de cor parda, filha legítima do declarante e de Theodora Maria da Conceição, brasileiros […] avós paternos Pedro Gomes de Moraes e Joaquina da Conceição, e avós maternos Maria Laurinda. A criança há de chamar-se Oscar […]

Esse documento informa que os pais de meu bisavô eram Joaquina da Conceição, já citada na certidão matrimonial, e Pedro Gomes de Moraes. O facto de pai e filho não terem o mesmo sobrenome pode ser explicado por não ter havido reconhecimento de paternidade. Meu bisavô, portanto, talvez tenha recebido o sobrenome de seu avô materno, o que ainda segue como hipótese.

Esse meu suposto trisavô Pedro Gomes de Moraes seguiu por algum tempo como uma figura misteriosa até que encontrei o assento de batismo que transcrevo abaixo.

Aos vinte e um dias do mês de outubro de mil e oitocentos e cinquenta e quatro, nesta freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, batizei solenemente e pus os santos óleos ao inocente João, nascido a dezesseis de maio do corrente ano, filho legítimo de Pedro Gomes de Moraes, natural e batizado na freguesia de Marapicu, e de Maria Pereira Ramos, natural e batizada nesta freguesia, neto paterno de Francisco do Rego, já falecido, e de Maria Tereza da Paz, e materno de Mariano Pereira Ramos, já falecido, e de Joana Maria de Jesus. Foram padrinhos Manoel Inácio Barbosa e Dona Francisca Rosa Belém, sua mulher.

A semelhança do nome paterno, a localidade e a proximidade dos nascimentos – 1848 e 1854, apenas seis anos – colaboram para a interpretação de que o pai do batizado João Gomes de Moraes poderia ter sido o pai de meu bisavô João Pereira Belém. Talvez Pedro tenha tido um relacionamento com Joaquina da Conceição antes do – ou durante o – casamento com Maria Pereira Ramos, o que também segue como hipótese.

A vantagem desse assento é que ele fornece o nome dos pais de Pedro, portanto de meus supostos tetravós maternos: Francisco do Rego e Maria Tereza da Paz. Esse assento também traz uma informação adicional: a avó do batizado era também mãe de sua madrinha. Tereza era, de facto, mãe de Pedro Gomes de Moraes e de Francisca Rosa Belém, filhos que teve de relacionamentos com dois homens em momentos diversos.

Mas vamos por partes. Maria Tereza da Paz não era natural de Bananal de Itaguaí, mas de Belém, filial de Sacra Família do Tinguá, onde nasceu em 24 de janeiro de 1791. Seu assento batismal foi descoberto pelo pesquisador Diego Duque Guimarães nos arquivos da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. A transcrição desse assento, feita pelo pesquisador, pode ser lida a seguir.

Aos três de fevereiro de mil setecentos e noventa e um, na capela de Belém, filial de Sacra Família, […] Antônio Ferreira Coelho batizou solenemente a Maria, que nasceu aos vinte e quatro de janeiro próximo passado, filha legítima de Francisco Gomes Pereira e de sua mulher Inácia Angélica de Moraes, foram padrinhos o Guarda-Mor Geral Fernando Dias Paes Leme da Câmara e sua mulher D. Francisca Peregrina de Souza e Mello, desta freguesia.

O avô paterno de Maria Tereza – o português João Pinheiro de Souza (1722-1782) – pertencia à aristocracia rural fluminense, e alguns de seus descendentes receberam títulos de nobreza. Essas informações foram obtidas em verbete do Dicionário Histórico do Vale do Paraíba Fluminense, citado a seguir.

PINHEIRO DE SOUZA: Família – Família de origem portuguesa, de abastados proprietários de fazendas de café, estabelecida no Rio de Janeiro, membros da chamada “aristocracia rural fluminense”. Teve início em João Pinheiro de Souza [c. 1722, Freguesia de Unhão, Braga, 1782, Tinguá, RJ], que deixou numerosa descendência de seu casamento, em 1743, com Paula Pereira Monteiro, batizada em 25.6.1725, Iguassu, RJ, filha de Manuel Vieira Ribeiro e de Luiza Monteiro. Entre os descendentes deste casal, registrem-se: o bisneto, Inácio José de Américo Pinheiro [1828, Valença, RJ – 19.10.1892, Rio, RJ], fazendeiro, que foi agraciado com o título [Dec. 17.6.1882] de barão de Potengi. […]

Em 17 de dezembro de 1809, quando contava 18 anos, a jovem Maria Tereza da Paz habilitou-se para se casar com Joaquim Francisco do Rego, que tinha o dobro de sua idade, pois nascera em 1766. A habilitação para o casamento está na Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, e pode ser lida abaixo em transcrição do já citado pesquisador Diego Duque Guimarães.

Querem casar o Capitão Joaquim Francisco do Rego, filho legítimo de Francisco do Rego e de sua mulher Rosa Maria dos Santos, natural e batizado na freguesia de Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba, donde satisfez o preceito da quaresma passada, e Maria Theresa da Paz, filha legítima de Francisco Gomes Pereira e de sua mulher Inácia Angélica de Moraes, natural e batizada na freguesia de Sacra Família, donde satisfez o preceito da quaresma passada.

Do casamento nasceriam ao menos dois filhos, e a importância aristocrática da família de Maria explicaria por que eles que ficaram registrados como José e Pedro Gomes de Moraes – e não do Rego, como seria esperado. Maria teria outros filhos, porém não mais com Joaquim Francisco do Rego, pois esse faleceria em algum momento nos idos de 1820. Na condição de viúva, ela teria um relacionamento com o fazendeiro Pedro Cipriano Pereira Belém, com quem teve os cinco filhos que ele reconheceu e nomeou em seu testamento, parcialmente transcrito abaixo.

Declaro que sou solteiro, em cujo estado tive cinco filhos de nomes Manoel Pereira Belém; Francisco Cipriano Pereira Belém, solteiro; Maria José Belém, casada com Leocádio Pamplo, digo, Pamplona Cortes; Francisca Pereira Belém, casada com Manoel Inácio Barbosa, os quais se acham perfilhados e legitimados por escritura pública passada no Cartório do Tabelião da […] freguesia do Bananal, os quais os reconheço como meus filhos para que possam entrar na herança de meus bens, direito e ações como se fossem havidos de legítimo matrimônio como meus únicos herdeiros que são […] Declaro que nomeio para meus testamenteiros e administradores de meus bens em primeiro lugar a meu filho Manoel Pereira Belém, em segundo lugar a meu filho Francisco digo Fernando Pereira Belém […]

Eis ali no trecho destacado no inventário a comprovação de que Maria Tereza era mãe de dois nomeados no assento de batismo de João Gomes de Moraes apresentado acima: mãe de Pedro Gomes de Moraes, seu filho com Joaquim Francisco do Rego; e de Francisca (Rosa) Pereira Belém, sua filha com Pedro Cipriano Pereira Belém. Isso comprova que a viúva de Joaquim Francisco do Rego teve uma segunda relação duradoura e filhos sem voltar a se casar.

Bananal de Itaguahy

A pesquisa nos livros da freguesia de Bananal de Itaguaí, onde Pedro Cipriano Pereira Belém registrou seus filhos, permitiu a descoberta do assento de óbito que se lê a seguir.

Aos trinta dias do mês de agosto de mil e oitocentos e cinquenta e cinco foi sepultado no cemitério da irmandade do Santíssimo Sacramento desta igreja e freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Bananal Maria Tereza da Paz, branca, fluminense, idade cinquenta anos, viúva, moradora na freguesia de São Pedro e São Paulo. Foi por mim encomendada e pelo Rdo. Coadjutor da freguesia. De que para constar fiz este assento.

Não obstante a constatação de que Maria Tereza da Paz deveria ter bem mais que os 50 anos informados, a condição de viúva e a localidade onde morava são constatáveis por meio de informações encontradas nos assentos de batismo de seus netos. Quando o já citado neto João Gomes de Moraes foi batizado, em 21 outubro de 1854, ela ainda vivia, portanto seu óbito deve ter ocorrido após essa data. No assento de batismo de Amélia, filha de Leocádio Pamplona Cortes e Maria José Belém, esta filha de Pedro Cipriano Pereira Belém, informa-se que a avó materna da criança já era falecida em 25 de dezembro de 1855, como se lê na transcrição a seguir.

Aos vinte e cinco dias do mês de dezembro de mil e oitocentos e cinquenta e cinco, em casa de residência de Pedro Cipriano Pereira Belém, freguês de São Pedro e São Paulo, havendo licença do Rdo. vigário da freguesia, batizei e pus os santos óleos à inocente Amélia, branca, fluminense, nascida a oito de novembro do corrente ano, filha legítima de Leocádio Pamplona Cortes e de sua mulher D. Maria José Belém, ambos naturais desta freguesia, e batizados na de Marapicu, neta paterna de João Pereira de Farias e de Maria Amália das Neves, ambos falecidos, e materna de Pedro Cipriano Pereira Belém e Maria Tereza da Paz, já falecida. Foram padrinhos Manoel Inácio Barbosa e D. Francisca Rosa Belém, sua mulher.

Mais uma evidência de que Maria Tereza da Paz faleceu em agosto de 1855 é encontrada no assento batismal de Honório, outro filho de Pedro Gomes de Moraes, cuja transcrição é exibida a seguir.

Aos vinte e sete dias do mês de fevereiro de mil e oitocentos e cinquenta e seis, nesta igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, batizei solenemente e pus os santos óleos ao inocente Honório, branco, fluminense, nascido a cinco de novembro do ano passado, filho legítimo de Pedro Gomes de Moraes e Maria Pereira Ramos, naturais e batizados na freguesia de Marapicu, neto paterno de Francisco do Rego e de Maria Tereza da Paz, já falecidos, e materno de Mariano Pereira Ramos, já falecido, e de Joana de tal. Foram padrinhos Antônio Alves de Oliveira Lima e D. Eliziária Maria da Conceição.

Finalmente, a confirmação do lugar onde Maria teria vivido – a freguesia de São Pedro e São Paulo, citada no óbito – é encontrada no assento batismal de sua neta Helena, que pode ser lido a seguir.

Aos cinco dias do mês de agosto de mil oitocentos e cinquenta e dois, nesta igreja de Nossa Senhora da Conceição do Bananal, batizei solenemente e pus os santos óleos à inocente Helena, branca, filha legítima de Manoel Inácio Barbosa, natural da freguesia de Marapicu, e de Francisca Rosa Belém, natural e fregueses da freguesia de São Pedro e São Paulo, neta por parte paterna de Inácio Pereira Barbosa e de Helena Maria Amélia, e materna de Pedro Cipriano Pereira Belém e de Maria Tereza da Paz. Foram padrinhos Pedro Cipriano Pereira Belém e Tereza Maria da Paz (sic), da freguesia de São Pedro e São Paulo. Nasceu no dia treze do mês de julho deste dito ano.

Todas essas evidências confirmam que Maria Tereza da Paz de facto faleceu pouco antes de 30 de agosto de 1855, após dois relacionamentos e ao menos sete filhos, um dos quais seria meu trisavô Pedro Gomes de Moraes. Embora essa descoberta pudesse ter apenas aplacado a angústia do desconhecimento da história de meu ramo materno, ela acabou se revelando muito mais rica, pois minha recém-descoberta tetravó tem uma ascendência bastante longa, que alcança os primeiros colonos europeus de São Paulo, bandeirantes e até possíveis cristãos-novos. Mas isso é assunto para os próximos textos.


José Araújo é genealogista.