XN

Querem casar Antonio Pereira Soares, filho leg. de Alf. de Granadeiros Manoel Pereira Barcellos e de Dona Francisca de Souza Castro, já defuntos, nat. e bat. na freg. de S. Pedro da Torre, termo de Valença do Minho, ele foi morador no Rio de Janeiro, freg. da Candelária; com Maria Thereza, filha leg. de Christóvão da Cunha de Moraes e de Lionor Barboza, nat. e bat. na capela do Mestre de Campos, freg. da Piranga, e presente moradora na freg. do Alferes do Caminho de Novo, bisp. do Rio de Janeiro.

O português Antônio Pereira Soares e a mineira Maria Tereza de Jesus Moraes se casariam no Rio de Janeiro, por volta de 1760, após a habilitação matrimonial cujo texto se apresentou em transcrição não literal do pesquisador Diego Duque Guimarães. Desse casamento nasceu, em 22 de outubro de 1775, na freguesia de Santo Antônio de Jacutinga, Rio de Janeiro, Inácia Angélica de Moraes, que se casou em 7 de junho de 1790 com Francisco Gomes Pereira, membro da aristocracia rural fluminense e pai de minha trisavó Maria Tereza da Paz (1791-1855).

Embora não carregasse o sobrenome de sua linhagem paterna, o pai da nubente Maria Tereza de Jesus era filho de Gaspar de Godoy Ribeiro (1665-?). Essa linhagem iniciou-se no Brasil com Baltazar de Godoy (1561-1628), que nasceu em Albuquerque, Espanha, e veio para São Paulo na última década do século XVI, onde se casou com a paulista Paula Moreira (?-1623). Paula era neta dos portugueses Garcia Rodrigues (?-1590) e Izabel Velho (?-?), que viviam em São Vicente.

Existem suspeitas de que Baltazar e o casal Garcia-Velho fossem cristãos-novos (abreviado como XN), isto é, judeus convertidos ao catolicismo. Em sua obra Os Cristãos-Novos: povoamento e conquista do solo brasileiro – 1530-1680 (Pioneira: São Paulo, 1976, p. 96), José Gonçalves Salvador afirma que os filhos de Baltazar e Paula “davam-se à tarefa de passar gente para o Paraguai, fugitiva das perseguições religiosas“, e possivelmente assim o faziam por se identificar com os fugitivos.

Belchior de Godoy Moreira (1637-1680), o bisavô da nubente Maria Tereza de Jesus, por sua vez, era filho de Belchior de Godoy (1600-1649) e Catarina de Mendonça Siqueira (1615-?), esta bisneta do português Cristóvão Diniz (1525-?), que no Brasil casou-se com Maria Camacho (1544-?). Este último casal e sua descendência são nomeados na já citada obra de José Gonçalves Salvador, páginas 132-133, no trecho que transcrevo a seguir.

Um destes [cristãos-novos], aliás, bem acolhido aqui, e que, à semelhança de Lopo Dias, se concorciou [sic] com mulher cujo sangue provinha das três etnias, foi Cristóvão Dinis. De modo que, por seu casamento com Maria Camacho, aparentou-se com os Tibiriçá, os Ramalho, os Fernandes povoadores e com tantos mais. […] Cristóvão e Maria Camacho tiveram, ao que se sabe, três filhas […] – Clara Dinis, que casou com Domingos Dias e foram pais de […] a) Maria Dinis, que foi a primeira mulher de Francisco de Mendonça, sertanista, e cuja filha única de entre ambos casou com Belchior de Godoi […]

Segundo o mesmo Salvador, é nos autos do processo inquisitorial nº 1586 da Torre do Tombo – em que se registram acusações de judaísmo contra o francês Jean de Bolés ou Jean de Cointac – que se encontra a identificação de Cristóvão Dinis como cristão-novo.

Processo Nº 1586 – Torre do Tombo (imagem 22)

Esse processo, em que Cristóvão Dinis foi testemunha, foi transcrito nos Anais da Biblioteca Nacional, Vol. 25, de 1903 e a seguir apresento o trecho relevante cuja imagem se vê acima:

Antonjo teixeira lhe contara a ele luis da graam diante de mujtas pessoas cousa que lhe ouuira dizer escandalosas aserqua da cruz e ymagens desculpando os fransezes que estauão em ho Rio de Janeiro e louuando os de boons cristãos em huma perfia [discussão] que teue com cristouão dinis sendo eles notoriamente erreticos e o mesmo monsjor de boles ho confessa.

Outra pesquisadora que identifica Cristóvão Diniz como cristão-novo e sugere uma razão para sua vinda para o Brasil é a professora Maria José P. Ferro Tavares, que no artigo Os Cristãos Novos e o Povoamento do Brasil. (In: Discursos. Estudos em Memória do Prof. Doutor Luís Sá. Dezembro, 2000. p. 18), afirma:

Por detrás da presença cristã nova ou judaica estava o trato açucareiro, e na base deste encontrava-se o senhor do engenho, geralmente de origem cristã nova, que assim se associava à sociedade familiar de produtores e mercadores, ao mesmo tempo que se radicava no Brasil, normalmente nas capitanias marcadamente definidas pela produção da cana sacarina. Oriundos do litoral ou do interior de Portugal, mercadores e artesãos, criadores de gado, médicos ou letrados, os cristãos novos iriam, desde o século XVI, acompanhar o desenvolvimento econômico do novo território e participar na exploração do seu interior. Até a primeira visitação do inquisidor Furtado de Mendonça, em 1591-95, o Brasil devia ter aparecido aos olhos dos cristãos novos como uma terra abençoada, onde eles podiam viver o judaísmo no interior das suas casas, sem o medo de uma denúncia que os levasse aos cárceres inquisitoriais. […] Na capitania de S. Vicente, encontramo-los como ‘partidistas’, ou seja, como foreiros de terras para cultivo da cana sacarina, como Cristóvão Dinis […]

Pelo que apresentei, posso afirmar que meu décimo-quarto avô era um cristão-novo e que possivelmente eu descenda de outras duas linhagens de cristãos-novos (os Godoy e os Garcia-Velho), pessoas que vieram para o Brasil nos primeiros anos da colonização em busca de oportunidades e certamente de liberdade de culto.

No próximo texto tratarei dos casamentos endogâmicos que ocorriam entre essas famílias e que reforçam a tese de uma grande comunidade cristã-nova no Brasil colonial.


José Araújo é genealogista.

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