Yachad

Nas primeiras décadas após a chegada dos navegantes, o Brasil não despertou interesse da coroa portuguesa porque aqui não havia diamantes ou metais preciosos de fácil exploração como ocorria nos domínios espanhóis. Quando se descobriu o potencial do pau-brasil, entretanto, esse interesse surgiu. Para que essa riqueza fosse explorada em benefício da coroa, Dom Manuel arrendou a exploração por dez anos a um consórcio de homens de negócio, em grande parte cristãos-novos, liderados por Fernão de Loronha (ou Noronha), ele mesmo um cristão-novo. A esses homens cabia retirar a madeira, enviá-la para Portugal e também explorar e proteger o território.

Foram também homens do grupo de Loronha que trouxeram as primeiras mudas de cana de açúcar das ilhas atlânticas (Açores, Madeira e São Tomé). Com o conhecimento técnico adquirido naquelas ilhas, esses homens implantaram a monocultura açucareira no Brasil, que representava para eles não apenas uma oportunidade de negócio, mas também um esconderijo da sanha persecutória do Tribunal do Santo Ofício – a Inquisição -, que estava sempre em busca de pessoas que agiam como cristãos na vida pública, mas ainda praticavam os costumes de seus antepassados no privado.

Foram, portanto, judeus os primeiros exploradores e empreendedores da América portuguesa e os fundadores dos primeiros engenhos açucareiros. Era nos engenhos, por sinal, que muitas vezes se praticava o judaísmo de forma velada, para escapar aos olhares dos espiões do Santo Ofício.

Segundo Novinsky, Levy, Ribeiro e Gorenstein, “a produção regular de açúcar no Brasil desenvolveu-se ainda mais após a fundação da vila de São Vicente (hoje no estado de São Paulo) pelo donatário Martim Afonso de Sousa, considerado pioneiro na colonização do Brasil.” Ainda sobre São Vicente, as mesmas autoras afirmam que:

O engenho de São Vicente foi o primeiro lugar no Brasil onde se praticou a religião judaica. O capitão-mor do engenho, Jerônimo Leitão, era casado com Inês Castelo, cuja mãe foi presa e penitenciada pelo Santo Ofício, sendo a mais fervorosa judaizante de seu tempo.

É na mesma São Vicente que encontramos o casal Garcia Rodrigues e Izabel Velho, suspeitos de serem cristãos-novos e oriundos de Portugal, onde tiveram sete de seus onze filhos. Entre eles estava o padre Garcia Rodrigues Velho, que no Brasil conseguiu para suas irmãs casamentos com pessoas importantes da nobreza local, segundo Luiz Gonzaga da Silva Leme afirma em sua Genealogia Paulistana (volume VII, Título Garcias Velho, p.396). É nesses casamentos, bem como nos dos descendentes dos casais inicialmente formados, que observamos o que parece ser uma recorrência não aleatória.

Um dos casamentos arranjados pelo padre Garcia Rodrigues Velho foi o de sua irmã Izabel Rodrigues (1542-?), nascida no Brasil, com o açoriano Antônio Bicudo Carneiro (1545-?), filho de Vicente Anes Bicudo e Mécia Nunes Gonçalves. Antônio foi ouvidor da comarca e capitania pelos anos de 1585 e tem reconhecidamente uma origem cristã-nova. Sua neta Beatriz Furtado de Mendonça (?-1630), por sua vez, casou-se com o bandeirante Antônio Raposo Tavares (1598-1658), que, segundo a pesquisadora Anita Novinsky, foi enteado de cristã-nova.

Outro feito do casamenteiro padre foi o consórcio de sua irmã Izabel Velho (1535-?), nascida em Portugal, com Jorge Moreira (1525-1600), ninguém menos que o capitão-mor e governador da capitania de São Vicente. Paula Moreira (?-1623), filha desse casal, casou-se com o espanhol Baltazar de Godoy (1561-1628), sobre quem existe a suspeita de uma origem cristã-nova. Os filhos do casal, segundo José Gonçalves Salvador (Os Cristãos-Novos: povoamento e conquista do solo brasileiro – 1530-1680. Pioneira: São Paulo, 1976, p. 96), “davam-se à tarefa de passar gente para o Paraguai, fugitiva das perseguições religiosas”. Belchior de Godoy (ca. 1600-?) , filho de Baltazar e Paula, casou-se em 1629 com Catarina de Mendonça de Siqueira (1615-?), que era bisneta de Cristóvão Diniz (1525-?) – cristão-novo de que tratei em texto anterior, de quem descendo – e de sua mulher Maria Camacho (1544-?).

Do casamento de Mécia (ou Méssia) Rodrigues (1528-1627), outra irmã do padre, com Domingos Gonçalves da Maia (1540-1627), nasceu Garcia Rodrigues Velho. De seu consórcio com Catarina Dias nasceu outro Garcia Rodrigues Velho (?-1671), que se casou com Maria Betting (ou Betim). Maria Garcia Rodrigues Betting (?-1691), filha de Garcia e Catarina, casou-se com o capitão-mor governador Fernão Dias Paes Leme (?-1681) e com ele teve geração. Sobre ambas as Marias Betting pairava a fama de serem cristãs-novas, razão pela qual Garcia Rodrigues Paes (ca. 1650-?), filho do capitão-mor, teve frustrado seu desejo de se habilitar à Ordem de Cristo. Seu pleito teve sentença negativa exarada em 29 de outubro de 1710, na cidade de Lisboa, pelos membros da Mesa de Consciência e Ordens:

Foi Vossa Magestade servido fazer mercê do hábito da Ordem de Cristo a Garcia Rodrigues Pais, e para o poder receber se lhe mandaram fazer as provanças de sua habilitação, das quais constou que em sua pessoa concorre a qualidade necessária. Porém que é maior de cinquenta anos, e infamado de cristão-novo por parte de sua avó materna por fama constante, e por estes impedimentos se julgou por incapaz de entrar na Ordem, do que se dá conta a Vossa Magestade como Governador, e perpétuo Administrador dela, na forma que o dispõem os definitórios.

Esse mesmo Garcia Rodrigues Paes casou-se com Maria Antônia Pinheiro da Fonseca, filha de João Rodrigues da Fonseca e Antônia Pinheiro Raposo, filha do já citado bandeirante Antônio Raposo Tavares. Garcia, portanto, era descendente de cristão-novo e casou-se com uma descendente de cristão-novo.

Para além do evidente desejo de ascensão na sociedade colonial local e de preservação do status adquirido pelo casamento no mesmo estrato social, essa recorrência de casamentos com pessoas de origens cristãs-novas poderia resultar do desejo de preservação dos costumes ancestrais. Tal combinação de fatores explicaria o grau de endogamia que observamos entre as famílias locais. Se pudéssemos traduzir em termos simbólicos, seria uma tentativa de preservação da comunidade, da união ou, em hebraico, do Yachad.


José Araújo é genealogista.

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