Leio em várias páginas do Facebook dedicadas à Genealogia comentários de participantes que declaram ter orgulho por descenderem de figuras como o cacique Tibiriçá, a cristã-nova Branca Dias e uma figura da realeza de Portugal. Também leio, embora com menor frequência, participantes que declaram não se orgulhar – ou até sentir vergonha – de sua ascendência em figuras como o mesmo Tibiriçá ou Arariboia, ambos considerados por alguns como traidores de seus congêneres. Segundo o Dicionário Michaelis, orgulho é um “sentimento de prazer ou satisfação que uma pessoa sente em relação a algo que ela própria ou alguém a ela relacionado realiza bem”. Essa seria a forma socialmente aceita de orgulho, aquela à qual a sociedade não atribui traços negativos.

Mas o mesmo dicionário dá para o termo a definição de “atitude arrogante que faz com que a pessoa sinta-se melhor ou mais importante que outra(s)”. Minha leitura para as citadas declarações é que as pessoas que as emitem podem se sentir de alguma forma privilegiadas por descenderem de figuras históricas. Em muitos casos, essas figuras se tornaram mais visíveis nos registros históricos por estarem ligadas ao poder institucional do Estado ou da Igreja, o que assegurou a preservação de sua memória em registros documentais. Não se pode ignorar que a ascendência em figuras historicamente documentadas pode conferir vantagens, especialmente no campo da pesquisa genealógica, como já comentei em texto anterior.

Também identifico nesse vínculo de antepassados famosos com o poder a explicação para que outras pessoas declarem não nutrir sentimentos positivos por sua ascendência neles. Essa visão menos favorável pode refletir perspectivas associadas a leituras decoloniais da História, que associam tais figuras ao colonizador-explorador ou ao escravizador cujas ações resultaram no sofrimento e na morte de incontáveis povos ameríndios e de populações submetidas a guerras provocadas no continente africano e depois submetidas à escravidão no outro lado do Atlântico.

Embora eu respeite o sentimento alheio, como genealogista não posso me furtar de comentar que interpretar os valores e os atos de nossos antepassados pelo olhar contemporâneo, sem a devida contextualização histórica e cultural, é um anacronismo que não colabora para o desenvolvimento da Genealogia. Idealmente, o trabalho genealógico deveria priorizar a compreensão de como foi a vida desses antepassados e do que teria justificado suas escolhas, em lugar de julgamentos sobre suas supostas qualidades e defeitos.

“Compreender é mais importante do que julgar”.

No caso do morubixaba tupinambá-temiminó Arariboia, por exemplo, que alguns consideram traidor, é indispensável saber que suas decisões foram tomadas em um contexto em que eram frequentes e fatais as guerras entre seu povo e os tupinambá-tamoios. As alianças estabelecidas por esses grupos tupinambás – temininós com portugueses contra tamoios com franceses – emergiram como forma de sobrevivência diante da ameaça de extermínio. Isso não elimina o impacto dessas alianças, mas ajuda a compreender que elas se deram em contextos de extrema complexidade e sobrevivência.


José Araújo é genealogista.


José Araújo

Genealogista