Complementaridade

Um dos ramos de minha família materna apresenta um enigma ainda não esclarecido: meu avô materno Enéas e todos os seus irmãos foram registrados como pardos em seus assentos paroquiais e certidões, porém João Pereira Belém, seu pai, carrega um sobrenome composto que é também encontrado em uma família de fazendeiros de café e proprietários de escravos em Bananal de Itaguaí, hoje Seropédica, Rio de Janeiro. Uma família de pessoas brancas.

Por meio de documentos e de testes genéticos, tenho tentado explicar o que parece ser óbvio: meu bisavô era filho de uma escrava dos Pereira Belém com um membro dessa família poderosa cujos membros se casaram em várias gerações com membros de outra família igualmente poderosa na região – os Soares da Silva, também brancos. O teste genético feito por um primo materno parece respaldar essa conclusão: o DNA-Y desse primo, herdado de seu pai, portanto de nosso avô Enéas e de nosso bisavô João, sugere que esse DNA tem origem europeia ocidental, provavelmente de um homem português.

Meu teste de DNA autossômico, por sua vez, tem apresentado alguns resultados em comum com pessoas cujas origens documentadas também estão em Bananal de Itaguaí. Essas pessoas poderiam ser chamadas de primos distantes, pois temos, em alguma geração, um n-avô em comum. Juliana é uma dessas primas e descende do casal Leocádio Pamplona Cortes e Tereza de Jesus, esta filha de Fortunato Pereira Belém e neta de Francisco Antônio Pereira Belém, até o momento considerado o patriarca dos Pereira Belém de Bananal de Itaguaí.

Gabriel, outro primo recém-descoberto, veio a mim porque divulguei aqui no blogue uma análise de assentos paroquiais relativos ao casal Joaquim Pereira Belém e Águeda Maria da Purificação, de quem Gabriel descende por seu ramo materno. Joaquim era filho de Manuel Pereira Belém e neto do já citado Francisco Antônio Pereira Belém, enquanto Águeda era filha de Joana Maria de Jesus e neta de Antônio Soares da Silva. Ocorre que, por conta da notável endogamia praticada por essas famílias, Águeda seria também bisneta do mesmo Francisco Antônio Pereira Belém. Gabriel deverá fazer um teste genético, que poderá trazer mais dados para nossa análise.

Pelas evidências genéticas autossômicas e documentais disponíveis, Francisco Antônio Pereira Belém poderia ser um n-avô em comum entre mim, Gabriel e Juliana. A hipótese de trabalho é plausível e só foi possível porque as provas genéticas foram empregadas como complemento às documentais e vice-versa. Mas nada disso explica por que meu bisavô João, que foi tardiamente identificado como filho de Pedro Gomes de Moraes, recebeu o poderoso sobrenome composto de Francisco Antônio. Se esse Pedro não tiver Francisco Antônio Pereira Belém como seu n-avô, a explicação para meu bisavô ser um Pereira Belém deverá ser procurada em outro lugar.


José Araújo é linguista e genealogista.

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