Teia

Aos quatorze dias do mês de junho de mil oitocentos e cinquenta, nesta freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu, pelas quatro horas da tarde, depois de feitas as diligências que manda o Conc. Trid. e const. do Bisp., e não encontrando impedimento algum, recebi em matrimônio, por palavras de presente, na forma do Ritual Romano, a José Gonçalves Cruz, filho legítimo de Manoel Gonçalves Cruz e D. Mariana Rosa da Silva, natural desta freguesia e batizado na Jacutinga, com D. Tereza Maria de Jesus, viúva que ficou de Antônio Pereira Ramos Sobrinho, nascida e batizada nesta freguesia, sendo testemunhas que comigo assinaram João Pedro Alexandrino e Joaquim Mariano de Moura Filho. E não receberam as bênçãos nupciais por ser a noiva viúva. E para constar fiz este assento.

A noiva Tereza Maria de Jesus era filha de Antônio Soares da Silva e Helena Maria de Jesus, que era filha de Francisco Antônio Pereira Belém e Joana Maria de Jesus. Antônio Pereira Ramos Sobrinho era filho de Bento Pereira de Lemos e Rita Maria de Jesus, filha do mesmo Francisco Antônio Pereira Belém. João Pedro Alexandrino era filho de Faustina Maria de Jesus e Francisco Pedro Alexandrino, irmão de Antônio Soares da Silva. Joaquim Mariano de Moura foi casado com Joana Maria de Jesus, filha do mesmo Antônio Soares da Silva. Pelo levantamento dessas relações, concluímos que o noivo José Gonçalves Cruz casou-se não apenas com a viúva Tereza Maria de Jesus, mas também na teia de relações que enredavam os Soares da Silva e os Pereira Belém, agricultores brancos e proprietários de escravos na região de Itaguaí, Nova Iguaçu (e Marapicu) e adjacências, no estado do Rio de Janeiro. Tenho evidências documentais e genéticas que me levam a concluir que minha família materna também se emaranha nessa teia em algum ponto ainda não descoberto.

Mas a família do noivo também guarda surpresas, pois José Gonçalves Cruz (1830-1870) recebeu o nome de seu avô, que foi casado com Rosa Maria da Assunção. Segundo a Revista Brasil Genealógico Nº2:

José Gonçalves Cruz […] n. em Marapicu, por volta de 1760 e fal. no Rio a 28.10.1801. Casou-se por volta de 1790 com Rosa Maria da Assunção, também nascida em Marapicu e falecida no mesmo dia de seu marido a 28.10.1801 (vide papéis de emancipação de seu filho Manuel, no Arquivo Nacional). Rosa era filha de Francisco da Costa Soares e de Luiza Maria, naturais do bispado do Rio de Janeiro.

Pais de:

1. Bento, que segue
2. Manuel Gonçalves Cruz, n. em Marapicu a 10.9.1793 (bat. 28.9)
3. Antonia Maria da Assunção. Casada com José Correia Barreto.
4. Ana Luza da Assunção, viúva.

Manuel, pai do noivo José Gonçalves Cruz, era irmão de Bento Gonçalves Cruz, que se casaria com Guilhermina Pinto de Magalhães. Deste casal nasceria em 30 de janeiro de 1845, no Rio de Janeiro, Bento Gonçalves Cruz (1845-1892), que se tornaria médico e se casaria com sua parente Amália Taborda Bulhões (1851-1921). Deste último casamento nasceriam quatro filhas e apenas um filho – Oswaldo Gonçalves Cruz (1872-1917), que seguiria os passos do pai na Medicina e se tornaria renomado como médico sanitarista no contexto das transformações e convulsões sociais por que passaria a cidade do Rio de Janeiro no início do século XX.

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Em termos estritos, Oswaldo não é meu parente, mas alguns dos descendentes de seu tio-avô Manuel Gonçalves Cruz certamente estão enredados na complexa teia familiar dos cafeicultores fluminenses Pereira Belém – Soares da Silva e podem ser considerados meus primos distantes.


José Araújo é linguista e genealogista.

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