Saber detalhadamente sobre as suas origens no Brasil é praticamente um privilégio. Olá, eu sou Mateus Oliveira, geralmente vocês me veem aqui falando sobre o idioma Tupi Antigo, mas o tema do vídeo de hoje vai ser um pouquinho diferente. Vocês sabiam que, em média, 35% do DNA mitocondrial dos brasileiros é de origem indígena? Pra quem não sabe, o DNA mitocondrial a gente herda da linhagem materna, ou seja, a gente herda das nossas mães. Em média, 35% desse DNA mitocondrial brasileiro carrega uma herança indígena. Por uma história bem triste que vocês já devem estar imaginando qual é. Mas o fato é que temos muitos descendentes de indígenas, muito provavelmente alguns até sem saber que o são. O problema para quem quer descobrir as suas raízes, as suas origens indígenas é que na maioria das vezes isso não vai ser nada fácil.
Assim o estudante Mateus Oliveira inicia um vídeo curto do Instagram que diverge um pouco de seus conteúdos costumeiros sobre a língua Tupi antiga, que ele estuda na universidade. A mensagem, no entanto, é clara: quem tem ancestralidade indígena no Brasil pode tanto desconhecer esse fato quanto ter dificuldade para saber mais a respeito dela. Ele usa o termo privilégio. E não está errado ao fazê-lo. Na verdade, o mais certo seria usar o plural: privilégios. E explico por quê.
Na sequência do trecho acima, Mateus relata sua experiência pessoal com relatos familiares de ascendência indígena tanto por seu ramo paterno (uma bisavó) quanto pelo materno (dois bisavós). Para muitos brasileiros, ele pode até ser considerado sortudo por conhecer seus antepassados até esse grau de parentesco. Mas aí ele segue com a questão: a falta de documentos. Ele relata mesmo ter tentado encontrar algum registro no sítio do FamilySearch e solicitado documento em cartório, mas o resultado foi frustrante, pois resultou em “pouca informação”, em suas palavras.
Aqui temos o primeiro privilégio, embora ele não desenvolva a questão por falta de conhecimento do que constitui a razão para alguns encontrarem “família até a Idade Média” e outros ficarem parados na geração dos bisavós. Essa razão normalmente tem relação com quem foram os antepassados do pesquisador. Se foram pessoas pertencentes às elites da terra, a busca pode ser menos frustrante, pois tais pessoas terão seus nomes mencionados em registros de terras, inventários, notícias de jornal ou obras genealógicas dedicadas a suas famílias, apenas para citar as fontes documentais mais comumente empregadas na pesquisa genealógica. E é provável que os documentos originais (fontes primárias) relacionados a tais pessoas estejam bem preservados e até digitalizados. Quem não descende da elite terá, sim, dificuldade para rastrear sua ascendência, ainda mais porque as fontes, quando não inexistentes, podem estar em estado de conservação muito ruim.
Mateus segue relatando que tudo o que sabe são os nomes de seus bisavós, mas desconhece onde nasceram e se foram realmente casados. E ele apresenta, desta vez sem muita dificuldade, a razão para o que eu considero um segundo privilégio: “não é todo mundo que pode tirar dinheiro do bolso para investir nessas pesquisas”, mencionando especificamente a solicitação de documentos em cartórios, que realmente representam uma despesa considerável. A solicitação de certidões com transcrição a partir de fontes originais existentes em arquivos públicos e eclesiásticos também tem um custo alto. Ainda que se permita a consulta gratuita dessas fontes, nem sempre a pessoa interessada morará no lugar onde esses documentos são mantidos, o que pode exigir a contratação de um pesquisador local.
A proposta de solução que apresentei a Mateus de comprar testes de DNA para ele e ao menos um tio de cada ramo familiar também tem relação com o segundo privilégio, mas é a que tem mais probabilidade de trazer alguma resposta. Pelo seu próprio teste, ele conseguirá confirmar se há ascendência indígena materna direta pela revelação do DNA mitocondrial, herdado exclusivamente pela linha matrilinear. A confirmação viria pela informação de um resultado como A, B, C, D ou X, este mais raro, mas ainda assim possível. Pelo DNA Y, a confirmação de uma ancestralidade patrilinear indígena viria pela letra Q, mas, pelas estatísticas que se tem hoje sobre a população brasileira, tal resultado seria bem improvável. Por fim, o resultado do DNA autossômico de Mateus confirmaria uma ascendência indígena próxima se apresentar um percentual ameríndio na faixa entre 15%-20%.

Se ele quiser investir mais para tentar subir nos ramos de sua árvore além dos bisavós, só mesmo fazendo os tais testes em irmãos ou irmãs de seus pais. Em todos os testes – dele e de seus tios – poderão ser apresentados primos genéticos (matches), que nada mais são do que pessoas que também fizeram o teste e compartilham segmentos mais ou menos longos de DNA autossômico com eles, sinalizando a existência de antepassados em comum. Alguns desses matches podem se interessar por Genealogia e ter árvores que tragam pistas para Mateus conseguir avançar por onde não há pistas documentais disponíveis. Embora custosa, essa estratégia é empiricamente sólida e costuma trazer resultados no médio a longo prazo.
José Araújo é genealogista.