Minha ascendência materna é que se costuma chamar de colonial, pois apresenta ramos que já se encontravam no Brasil desde o século XVI, compostos majoritariamente por portugueses dos Açores, da Madeira e de Portugal continental, mas incluindo também alguns espanhóis. Nos séculos seguintes, até o XIX, outros portugueses foram acrescentados, de forma que eles constituem a maior parte da minha ascendência, inclusive em meu ramo paterno, que é 100% português de imigração recente, no início do século XX. Esse perfil migratório se reflete na composição de meu DNA autossômico, cujo componente Ibérico varia de 61,8% a 73% a depender da calculadora que se use. Esses portugueses tiveram geração com mulheres africanas ou afrodescendentes – minha mãe, por exemplo – , o que se reflete nos 20% a 25% do componente não europeu de meu genoma, também a depender da calculadora empregada. Nesse cenário, me pareceu estranho que apenas uma calculadora – a Ethnos – houvesse detectado um componente ameríndio em meu DNA, ainda que eu saiba que essas ferramentas não são precisas.

Assim é o meu genoma, o que não significa que o de minha mãe fosse idêntico ao meu, afinal ela descendia de várias matriarcas indígenas do século XVI nomeadas na Genealogia Paulistana de Silva Leme e ainda de uma mulher de ascendência indígena chamada Teresa Barbosa de Jesus, que parece ter migrado de Taubaté, São Paulo, para Piranga, Minas Gerais, em 1713. Essa mulher tinha haplogrupo mitocondrial B2, característico de parte das mulheres ameríndias brasileiras. Teresa foi minha sétima avó pelo ramo de meu avô materno Enéas. Existem falhas de documentação nas ascendências de Enéas e de sua mulher Durvalina, pois seus pais eram filhos de mães solteiras, portanto não eu não me atreveria a descartar a possibilidade de que haja outras mulheres ameríndias em seus ramos específicos. Infelizmente, minha mãe faleceu antes que eu pudesse testá-la, embora eu tenha produzido um kit Lazarus para servir como substituto de um teste real seu.
Uma das poucas calculadoras que conseguem encontrar algum componente diferente de ibérico e africano em meu genoma é a world9 da funcionalidade Admixture/Oracle da plataforma GEDmatch. Essa calculadora específica, que foi desenvolvida exatamente para detectar um componente ameríndio, me dá 1,43% dessa ancestralidade, bem similar ao que me atribuiu a Ethnos. Quando a world9 foi executada nos kits Lazarus de minha mãe e de um de seus irmãos, os percentuais foram ainda menores – 0,70% e 0.37%, respectivamente – , ainda que não fossem totalmente zerados. O valor maior informado para meu kit autêntico pode ser explicado pela natureza dos kits Lazarus, que não contêm a totalidade do genoma que seria encontrada na pessoa real, tivesse ela sido testada. A possibilidade de eu ter herdado algum componente ameríndio por meu ramo paterno é remota, e a world9 apresentou valor nulo para ameríndio no teste de minha prima paterna de primeiro grau, sobrinha de meu pai.
Ou o 1,43% de ameríndio realmente deve ser tratado como ruído ou é verídico e resultado de uma ascendência distante e limitada a um ramo específico. Tendo a acreditar na segunda hipótese, afinal, como declarei, encontrei ascendentes indígenas documentados histórica e geneticamente e ainda existem ramos não documentados em minha árvore aos quais dedico muitas horas de investigação. Na impossibilidade momentânea de dar um veredito sobre a questão, considero também a possibilidade de uma ascendência ameríndia até mais distante, em uma escala de tempo que não se conseguiria alcançar pela genealogia documental. Essa ascendência seria comprovável pelo DNA arcaico, o qual tem sido estudado há algum tempo graças às técnicas contemporâneas de extração e ampliação de amostras de DNA de seres humanos que viveram há milhares de anos.

A plataforma GEDMatch oferece uma ferramenta chamada Archaic DNA matches para busca de correspondências genéticas com essas populações arcaicas. Ela funciona mediante comparação do DNA do cliente da plataforma com um painel de várias dessas amostras de DNA arcaico que podem alcançar até 50 mil anos do presente, como é o caso da amostra do DNA de uma mulher Neanderthal coletada na Caverna Denisova, na Sibéria. Nesse painel encontra-se também a clássica amostra Anzick-1 (F999919) de um menino sepultado no estado americano de Montana e que data de 12.800 anos atrás. Pois foi com esta amostra que surgiu um match para mim, na faixa dos 4 cM, nos cromossomos 1 e 20. A se confiar nessa ferramenta, eu descenderia remotamente de uma das mais antigas populações ameríndias a ocupar as Américas que se pôde documentar.
Ouça um podcast sobre esse tema:
José Araújo é genealogista.