Uma jovem que se apresenta como especialista em ética na Inteligência Artificial publicou no Instagram há alguns dias um vídeo em que orienta as pessoas a não fazer testes genéticos recreativos porque elas supostamente receberiam muito pouco em troca dos riscos que correriam por “doar todo seu DNA às empresas”. Ainda segundo ela, as empresas que vendem esses testes podem vender também os dados genéticos de seus clientes a planos de saúde que poderão descobrir que certa pessoa tem predisposição para uma doença e assim aumentar o valor de seu contrato em função do risco revelado. No fim, ela informa como as pessoas que já fizeram esses testes podem remover seus dados das plataformas das empresas. Minha leitura é de que ela faz muito alarde demonstrando pouco conhecimento de causa.
Da forma como a tal especialista apresenta seu argumento, ela deixa entender que as empresas que vendem os testes tratarão os dados genéticos de seus clientes como se fossem ativos similares a móveis ou equipamentos. Ela parece ignorar que tais empresas normalmente mantêm termos de confidencialidade e se comprometem a não permitir nenhum acesso externo às informações genéticas, nem a comercialização dos dados com terceiros, como se pode ler nos sites da brasileira Genera, da israelense MyHeritage e da americana FamilyTreeDNA. Além disso, os dados costumam passar por um processo de anonimização, de forma que a associação dado-cliente não seria algo trivial de se conseguir.
Outro ponto levantado é de que os planos de saúde poderão estimar o valor dos contratos – ou até se negar a aceitar clientes – em função de variantes genéticas que indicariam a predisposição a doenças. Aqui a especialista ignora que grande parte das doenças comuns associadas à genética possui caráter multifatorial, envolvendo a interação entre predisposição genética, fatores ambientais e estilo de vida. Recentes pesquisas da Universidade de São Paulo com centenários brasileiros, por sinal, têm demonstrado que mesmo pessoas em cujo genoma se encontram variantes que poderiam levar ao desenvolvimento do Alzheimer não necessariamente desenvolverão essa doença. De qualquer forma, fica registrado que o valor preditivo dos testes de DNA recreativos é bastante limitado para muitas doenças comuns.

Para sustentar o argumento de que os testes “oferecem pouco” aos clientes, a especialista menciona os relatórios de ancestralidade étnica que dizem que um cliente teria 17% de ancestralidade italiana, o que pode ou não ser verdade. De fato, já discuti aqui que tais relatórios são mais recreativos do algo que se possa levar a sério, embora seja possível extrair deles informações úteis para a pesquisa da história familiar Ao mesmo tempo, como poderiam atestar incontáveis filhos que desconheciam seus genitores e os encontraram graças a esses testes, não se trata necessariamente de um retorno pífio pelo investimento feito. Com a devida orientação genealógica, mesmo testes recreativos podem oferecer enorme valor a quem busca se (re)conectar com parte de sua família.
José Araújo é genealogista.