Uma informação importante para quem faz um teste de genético com finalidade de pesquisa genealógica é que nem todos os descendentes de quarta geração de um casal herdarão DNA autossômico desse casal. Em termos objetivos, isso quer dizer que uma pessoa pode não herdar segmentos detectáveis desse DNA de alguns trisavós. Parte da explicação desse fenômeno está na matemática da recombinação autossômica, pela qual herdamos 50% do DNA de cada um de nossos pais, cerca de 25% de nossos avós, cerca de 12,5% de nossos bisavós e cerca da metade disso dos trisavós. A herança, como se vê, se reduz a cerca da metade a cada geração. Costumo dizer que a outra parte da explicação está na loteria genética, que não nos permite afirmar de que antepassado direto herdaremos DNA.
Se pudermos olhar os 22 cromossomos de nosso genoma, observaremos que ele se organiza aos pares em haplótipos – as duas cópias de cada cromossomo que herdamos de nossos pais – para cada cromossomo, e cada haplótipo de cada par é composto por segmentos de extensão variável. Esses segmentos são os trechos do DNA de nossos antepassados que recebemos por intermédio de nossos pais. A imagem abaixo ilustra os segmentos dos haplótipos para cada um de meus cromossomos 1 a 9 como são apresentados pela ferramenta Chromosome Painter da plataforma FamilyTreeDNA. As cores estão associadas a uma origem continental – tons azulados para Europa, tons amarelo-avermelhados para África e tons esverdeados para Maghreb-Oriente Médio. Tais cores estão coerentes com o que sei sobre minha ascendência, que é basicamente luso-brasileira e africana.

Embora não seja simples, é possível ir mais a fundo e descobrir qual segmento de cada haplótipo recebemos de um casal de antepassados específico, o que equivaleria a olhar para os cromossomos e dizer onde cada antepassado pode ser encontrado dentro dele. Já adianto que para conseguir isso é necessário testar parentes de graus diferentes tanto da linha paterna quanto da materna, se possível de forma que alguns deles descendam de um, mas não de outro antepassado direto da mesma linha. Aqui vou exemplificar como fiz isso em minha família materna, na qual testei primos de primeiro e segundo graus relacionados aos meus avós Enéas (1888-1970) e Durvalina (1895-1969).
Simone e Suely são netas de irmãos de Enéas, portanto minhas primas de segundo grau. Regina e Wil são netos de Enéas, portanto meus primos de primeiro grau. Para o que pretendo demonstrar aqui, vou explicar como identifiquei segmentos em um determinado cromossomo que herdei de Enéas por intermédio de seu pai João (1848-1921) e de seu avô Pedro (1820-1891). Para atingir esse objetivo, eu excluí da análise o ramo materno de Enéas ao incluir quatro matches genéticos já conhecidos – Denise, Guilherme, Vanete e sua filha Vivian – que se relacionam com ele apenas pelo ramo de seu pai e avô paterno por também descenderem dos antepassados fundadores João Pinheiro de Souza (1710-1782) e Paula Pereira Monteiro (1725-1815), meus hexavós pelo mesmo ramo.

Para operar a inclusão citada, recorri à plataforma GEDmatch, onde estão os testes de meus primos e os dos matches. Nessa plataforma, usei a ferramenta One To Many para localizar todos os meus matches, selecionei (Select) os específicos e mais meus primos Regina, Simone, Suely e Wil, sendo meu próprio teste selecionado automaticamente como referência. Em seguida, acionei o botão VISUALIZATION OPTIONS para obter o painel que se vê abaixo e acionei o botão COMPACT MAP da ferramenta Compact Segment Mapper.

O resultado pode ser observado na imagem abaixo. Nele se percebe que existem no cromossomo 9 vários segmentos compartilhados entre mim (o fundo cinza), meus primos e os matches Denise, Guilherme, Vanete e Vivian, entre eles um trecho em que esses segmentos parecem se sobrepor em parte, o que sugere que o tenhamos herdado de nossos antepassados em comum: João e Paula.

Da forma que foi feita a análise, não é possível prever se o segmento chegou a nós a partir de tanto João quanto de Paula ou – o que talvez seja mais provável – a partir de apenas um deles via um antepassado mais remoto. Por agora, basta saber que posso, com alguma segurança, atribuir esses segmentos agrupados na segunda metade do cromossomo 9 a um antepassado que estaria na geração dos meus hexavós.
O mesmo procedimento poderia ser empregado para descobrir se um match sob investigação está relacionado a um casal de antepassados, bastando para isso incluí-lo durante o processo de seleção (Select) descrito acima.
José Araújo é genealogista.